O Centro Cultural Banco do Brasil São Paulo acolhe, de 21 de Fevereiro a 22 de Março, uma retrospectiva inédita dedicada à cineasta Sarah Maldoror, considerada uma das primeiras realizadoras negras a filmar em África. Com entrada gratuita, a mostra reúne curtas e longas-metragens que sublinham o papel da autora franco-guadalupense na história dos cinemas negros e do cinema feito por mulheres.
Nascida em França, filha de pai guadalupense, Maldoror foi uma figura central do cinema anticolonial. Ao longo de mais de quarenta títulos, documentou e ficcionalizou as lutas de libertação em Angola, Guiné-Bissau e Cabo Verde, abordando ainda temas como imigração, engajamento político e pensamento decolonial. A sua estética combina rigor político com sensibilidade poética, deslocando o olhar para a subjectividade humana e para o protagonismo feminino nas insurgências africanas.
Com curadoria conjunta de Lúcia Monteiro, Izabel de Fátima Cruz Melo e Letícia Santinon, a retrospectiva “O Cinema anticolonial de Sarah Maldoror” apresenta 34 obras, 19 delas dirigidas pela cineasta e outras 15 assinadas por realizadores ligados ao seu percurso artístico e político.
“Faz dez anos que planeámos uma retrospectiva da obra de Sarah Maldoror em São Paulo. Os filmes dela abordam a luta contra o colonialismo, o racismo e o preconceito. Ela interessou-se pelos imigrantes em França e por intelectuais precursores do pensamento decolonial, como Aimé Césaire e Léopold Senghor. São discussões extremamente necessárias no nosso contexto actual”, diz Lúcia Monteiro, uma das curadoras.
“Esta mostra faz parte de um movimento mais amplo, que nos últimos anos tem reposicionado a figura e a produção de Sarah Maldoror na história do cinema. Por isso, acreditamos que iniciativas como esta contribuem tanto para o conhecimento do público em geral, como para o aprofundamento e reflexão de críticos e investigadores”, assinala Izabel de Fátima Cruz Melo, também curadora.
O que nos espera?
A abertura, marcada para 21 de Fevereiro, às 16h30, apresenta a versão restaurada de “Sambizanga” (1972), considerado o título mais conhecido da realizadora e premiado no Festival Internacional de Cinema de Berlim. Baseado numa novela de Luandino Vieira, o filme acompanha a prisão injusta de um homem suspeito de ligação a um grupo revolucionário.
Após a sessão, participa num debate a economista e socióloga Henda Ducados, filha da cineasta, autora de ensaios no jornal feminista Another Gaze. Também estará presente Annouchka de Andrade, primogénita de Maldoror e fundadora da associação The Friends of Sarah Maldoror and Mario de Andrade.
A programação inclui ainda filmes em que Maldoror trabalhou como assistente, como “A Batalha de Argel” (1966), de Gillo Pontecorvo, e o documentário “Elas”, de Ahmed Lallem, exibido pela primeira vez em São Paulo. Haverá também projecções de obras de Chris Marker, como “Sem Sol” (1982) e episódios de “A herança da coruja”, que incluem imagens filmadas por Maldoror.
A retrospectiva propõe ainda diálogos entre o cinema da realizadora e obras de cineastas negras da América Latina. Nesse âmbito, a cineasta baiana Safira Moreira dirige a leitura dramática do argumento inacabado “As garotinhas e a morte” e apresenta o seu primeiro longa-metragem, “Cais”, além de quatro curtas.
O evento inclui cursos sobre memória, ancestralidade e preservação de arquivos audiovisuais, com nomes como Lilian Santiago, Nathanaël Arnould, Eduardo Morettin e Daniela Siqueira.
Filmes de Maldoror
O público poderá percorrer um itinerário amplo pela obra da realizadora, que cruza reportagem, documentário e ficção com uma coerência política rara. Entre os títulos exibidos estão pequenas crónicas culturais como “Abertura do teatro negro em Paris”, que regista a criação de um espaço dedicado ao teatro negro na capital francesa, e retratos de figuras marcantes da arte e do pensamento, como “Ana Mercedes Hoyos”, sobre a pintora colombiana Ana Mercedes Hoyos, ou “Assia Djebar”, dedicado à escritora argelina Assia Djebar.
A cineasta regressa também ao universo da negritude e da poesia com “Aimé Césaire, a máscara das palavras” e “Aimé Césaire – um homem, uma terra”, retratos do poeta e político Aimé Césaire, figura central do pensamento anticolonial. O diálogo com intelectuais prossegue em “Léon G. Damas”, dedicado ao escritor guianense Léon G. Damas, em “René Depestre, poeta haitiano”, sobre René Depestre, e em “Louis Aragon, uma máscara em Paris”, encontro com o surrealista francês Louis Aragon. Já “Christiane Diop” presta homenagem à editora senegalesa Christiane Diop e ao papel da revista Présence Africaine na circulação de ideias negras.
A programação inclui ainda obras que mergulham nas expressões culturais africanas, como “Carnaval no Sahel”, “Em Bissau, o carnaval” e “Fogo, uma ilha em chamas”, que observam festas populares e identidades em Cabo Verde e na Guiné-Bissau. Há igualmente peças de tom mais teatral e experimental, como “E os cães se calavam”, adaptação de um texto de Aimé Césaire filmada no Musée de l’Homme, e reportagens como “Primeiro encontro internacional das mulheres negras” e “Retrato de uma mulher africana”, que abordam migração, feminismo e quotidianos invisíveis.
Entre as ficções surgem “Monangambééé”, denúncia dos abusos coloniais em Angola, “O hospital de Leningrado”, inspirado num conto de Victor Serge sobre repressão política, e a longa-metragem “Sambizanga”, talvez o título mais conhecido de Maldoror, que acompanha a prisão e morte de um militante angolano e o percurso obstinado da sua mulher. A vertente mais urbana e intimista surge em “Uma sobremesa para Constance”, história de trabalhadores emigrantes em Paris.
Outros realizadores
Na programação da mostra, para além das obras dirigidas por Sarah Maldoror, o público poderá conhecer filmes de outros realizadores que estabelecem diálogos estéticos e políticos com a sua obra, assim como títulos em que Maldoror colaborou como assistente, compondo uma verdadeira constelação em torno da sua prática cinematográfica.
Entre os filmes em que a cineasta participou estão clássicos do cinema anticolonial e ensaístico, como “A batalha de Argel” (Gillo Pontecorvo, 1966), sobre a luta pela independência argelina, e “Elas” (Ahmed Lallem, 1966), que acompanha estudantes argelinas no período pós-independência. Também se inclui a obra de Chris Marker, com “Sem Sol” (1983) e o episódio 7 da série “O legado da coruja – Logomachie ou Les mots de la tribu” (1990), nos quais Maldoror colaborou ou forneceu imagens de arquivo. A homenagem à obra perdida de Maldoror surge em “Prefácio a Fuzis para Banta” (Mathieu Kleyebe Abonnenc, 2011), que reconstrói o filme confiscado em 1970 na Guiné-Bissau a partir de fotos, notas e entrevistas.
A mostra apresenta ainda uma genealogia imaginativa de filmes que ecoam a estética e o compromisso político de Maldoror, trazendo obras brasileiras como “Alma no olho” (Zózimo Bulbul, 1973), reflexão poética sobre a escravidão, “Ôrí” (Raquel Gerber, 1989), estudo sobre o movimento negro brasileiro entre 1977 e 1988, e “Cais” (Safira Moreira, 2025), um longo-metragem sobre memória, morte e percurso fluvial na Bahia e Maranhão.
O trabalho de Safira Moreira também se faz sentir nos curtas, como “Travessia” (2017), que combina poesia, arquivo fotográfico e encenação para pensar a ausência de imagens de pessoas negras, e “Nascente” (2020), onde quatro mulheres e uma criança em Salvador constroem, entre restrições pandêmicas, um fluxo de vida e memória semelhante a um rio.

