Há um desafio de cinema a desvendar em Le Massacre de Gilles de Rais, assim mesmo, o título em francês, como desejava o autor, Juan Branco, no seu filme de estreia, depois da passagem, em Novembro, pelo LEFFEST.
Juan Branco tem a determinação (e a controvérsia) própria de um verdadeiro enfant terrible. Do alto dos seus 36 anos, este advogado, nascido em Espanha, embora com vida feita em Paris, escolhe para sua estreia no cinema, nada menos que adaptar (a adaptação) de Georges Battaile a Le procès de Gilles de Rais – ela mesmo, a personagem, conhecida por abusar e matar, lá pelos Quatrocentos, dezenas (se não mesmo centenas!) de crianças, com doses de maquiavelismo e sadismo. Sim, combatera ao lado de Joana d’Arc, sofrendo até a mesma sina. No entanto, hoje recebe a label do ‘maior serial killer de sempre’. Enfim, de excessos estamos conversados.
A sua ousadia acaba por ser ainda mais atrevida ao saber-se que Juan Branco tem passado humanitário, sobretudo como defensor de Julian Assange, o criador da Wikileaks, organização dedicada a divulgar documentos de violações de direitos humanos e não só. Figura controversa na sociedade francesa, nomeadamente, a sua verve contra a ‘macronia’, valendo-lhe a devida controvérsia após a publicação do livro crítico sobre o Presidente francês, Branco foi, ele próprio, acusado de crimes sexuais, o que apenas acrescenta aqui uma dose suplementar de complexidade em redor deste projeto unido por um impulso irresistível de cinema.
Na entrevista concedida a Pierre Audebert, em dezembro do ano passado, clarifica diversos elementos relevantes e úteis para percecionamos o filme. Seja a falta de evidências probatórias da culpabilidade de de Rais, “em ter queimado e violado 140 crianças”, aliado ao facto desse processo, ou ‘mito’, nunca ter sido tratado em cinema. Embora o mais incrível seja a intenção de avançar para este projeto filmado em pouco mais de duas semanas (18 dias para sermos precisos), sob a forma de um “filme de época transformado em “mise en abyme contemporânea, em período #MeeToo, sobre dois jovens que se interrogam sobre a culpabilidade ou inocência de uma pessoa acusada do pior crime da época”.
A ideia concretizada foi a de colocar os dois atores – o jovem, mas já muito experiente, João Arrais, e Inês Pires Tavares, uma atriz sobretudo com experiência televisiva – numa espécie de ‘residência’ em que, de noite recebiam os diálogos do dia seguinte, colocados pelo realizador debaixo da porta dos quartos. O resultado é um poderoso estudo cinematográfico, em que o poder da palavra e da representação a dois se impõe e condensa a dezena de personagens do processo.
Apesar da inevitável evocação feita a Pasolini, a intensidade formal da palavra, o rigor da adaptação literária, os enquadramentos fixos e nos movimentos de câmara, parece-nos mais próxima do cinema de Jean-Marie Straub. E não necessariamente por se vislumbrar, a certa altura, a lombada de um livro do casal Straub Huillet (seria de Paulo Branco?). Ainda que inserida num projeto demasiado arriscado, e que só dá certo pela certeza e intuição prodigiosa de Juan Branco. E que culmina com a opção (e o contraste!) do tema musical Try a Little Tenderness, na interpretação delicada de Otis Redding, a abrir os horizontes deste cinema anacrónico e suavemente sedutor.
Imaginam-se os dias de uma rodagem intensa, em contexto muito teatral, onde a cumplicidade do diretor de fotografia mexicano, Edmundo Diaz Sotelo, parece ser fulcral na compreensão das suas indicações, afinal de contas, em grande parte, conferidas pelos rostos e movimentos do par de atores. O que fica mesmo é um esmerado trabalho de cinema, mesmo diante da secura que provoca um filme ‘a dois’, mas que se desenrola num febril cosmos anacrónico – desde a viagem inicial de automóvel, pela Ponte Vasco da Gama, até à herdade na zona de Alcochete (propriedade de Paulo Branco, seu pai e produtor do filme), palco dessas duas semanas de rodagem. E o regresso com um filme poderoso debaixo do braço.


