“Quem tem medo de Zurita de Oliveira?”, de Francisca Marvão, com estreia marcada para o IndieLisboa 2026

“Quem tem medo de Zurita de Oliveira?” celebra a vida e a obra de Zurita de Oliveira, música, intérprete, compositora e autora, que muitos reconhecem como a pioneira do rock & roll em Portugal
"Quem tem medo de Zurita de Oliveira", de Francisca Marvão "Quem tem medo de Zurita de Oliveira", de Francisca Marvão

“Quem tem medo de Zurita de Oliveira?” estreia a 1 de maio no IndieLisboa Festival Internacional de Cinema 2026. A exibição está marcada para as 19h, no Cinema São Jorge, em Lisboa.

O filme celebra a vida e a obra de Zurita de Oliveira, música, intérprete, compositora e autora, que muitos reconhecem como a pioneira do rock & roll em Portugal. Fez da música um ato de desobediência, abrindo caminho num tempo com pouco espaço para mulheres livres. Entre canções e testemunhos, o filme recupera a sua memória e faz das suas letras inéditas um gesto de resistência, cantado e tocado por mulheres de hoje. O filme foi realizado por Francisca Marvão, com direção de produção de Diana Martins e produção de Uma Ova.

Zurita de Oliveira nasceu em Alcanena no dia 19 de Janeiro de 1931, filha de Maria Sousa Menezes e de Camilo Arjona de Oliveira e neta de Julieta Rentini, cresce no seio da Companhia de Teatro itinerante Rentini, ao lado dos irmãos Camilo de Oliveira e Hélder de Oliveira e da prima Leónia Mendes.

Estreou-se aos quinze anos, com o espectáculo Recompensa, no qual desempenhava o papel de um rapaz da sua idade. Continuou a representar mas o seu sonho sempre foi cantar na Emissora Nacional, onde conseguiu ingressar em 1951, nos programas de variedades, com a orquestra do maestro Tavares Belo, sendo absorvida por vários trabalhos de rádio e televisão a partir daí. Aprendeu a tocar viola para acompanhar as canções que escrevia e compunha.

Interpretou músicas como o Vira da minha rua, O Fado nem sempre é triste, Bati à porta da vida e Romarias, compiladas no disco Sois Inéditas da Estoril, de Manuel Simões. Além deste, gravou mais álbuns com a Editora Estoril, de Manuel Simões. Autora e encenadora de algumas peças de teatro como A Louca, Entre dois amores e Eu não roubei. Actuou no Coliseu, Éden, Politeama, Condes, Europa, Tivoli e no antigo Casino Estoril.

Para muitos é considerada a pioneira do Rock & Roll em Portugal, sendo a primeira mulher em Portugal a compor, tocar, cantar e a gravar uma canção de género rock, O Bonitão do Rock, em 1960, com a grande editora Alvorada, e a tocar para um grande público. No mesmo ano, Os Conchas e o Daniel Bacelar também gravam um ep, mas através de um concurso, Os Caloiros da Canção n.1, que sempre foi considerado o primeiro disco de rock gravado em Portugal.

Durante a década de sessenta, a presença de mulheres no âmbito das linguagens Rock era praticamente inexistente, seria preciso esperar pelos anos oitenta para verificar algumas alterações neste âmbito. Como intérprete, não voltaria a gravar, continuando a compor e a escrever vários fados, nomeadamente para a fadista Ada de Castro, como por exemplo, O Fado Tem Encantos, Tudo por Nada e Romance Louco. Faleceu em Moscavide no dia 25 de Junho de 2015.

Francisca Marvão afirma: este filme surge como consequência direta da minha primeira longa-metragem, Ela é uma Música, pois foi durante a realização deste documentário que ouvi falar pela primeira vez de Zurita de Oliveira. Numa conversa entre Luís Futre e Ondina Pires, referem-se à artista como a mãe do rock português. Ao revisitar a sua história, percebemos como foi injustamente esquecida e compreendemos a urgência de lhe devolver o lugar que sempre lhe pertenceu.

E acrescenta, uma mulher, naquela época, a fazer solos de guitarra elétrica, era algo completamente inesperado para o contexto social e musical do país. Cada solo dela correspondia a um momento único dos seus espetáculos, uma espécie de instante de liberdade e expressão plena. Isso faz com que a sua presença na música e no rock português seja ainda mais marcante e extraordinária.

Relativamente ao título, em forma de pergunta, a realizadora assume que é uma provocação: O medo é simbólico: é o medo do patriarcado, do conservadorismo e da tradição que sempre tentou invisibilizar mulheres como ela. Infelizmente, nos tempos que correm, a desigualdade de género na música ainda é uma realidade, seja na programação de festivais, na rádio ou na forma como muitos técnicos ainda tratam determinadas bandas constituídas por mulheres, por exemplo. O filme mostra que revisitar a história da Zurita é não só reconhecer o que foi injustamente esquecido, mas também inspirar e reforçar a presença das mulheres no panorama musical atual. Afinal, quem continua a ter medo das Zuritas?

O filme conta com a participação das artistas A Garota Não, Dama Bete, Frik.São, Ada de Castro, Vitória & The Kalashnicoles, Zuritas Elétricas, Mariana Camacho, Trypas Corassão, Ana Santos, Celina da Piedade, Mãe Bruxa, Isabel Martinez e As Margaridas de Peroguarda.

Francisca Marvão é realizadora, formada em Cinema, Vídeo e Comunicação Multimédia pela Universidade Lusófona. O seu trabalho em documentário centra-se na memória, na identidade e nas formas de resistência. Em 2017, estreou a curta-metragem “O Descanso na Intensidade das Cores” no Doclisboa e, em 2019, estreou a sua primeira longa-metragem, “Ela é uma Música”, sobre as mulheres e o rock em Portugal, no IndieLisboa. Concluiu recentemente os filmes Guardiãs do Nascimento, com estreia no Porto Femme 2026 e “Quem tem medo de Zurita de Oliveira?”, que vai estrear no IndieLisboa 2026. Em 2023, co-fundou a Uma Ova – Associação Cultural com Diana Martins, onde desenvolve projetos transdisciplinares.

Após a estreia, o filme inicia uma tour nacional. As datas serão anunciadas em breve.