“Quem tem medo de Zurita de Oliveira?” estreia a 1 de maio no IndieLisboa Festival Internacional de Cinema 2026. A exibição está marcada para as 19h, no Cinema São Jorge, em Lisboa.
O filme celebra a vida e a obra de Zurita de Oliveira, música, intérprete, compositora e autora, que muitos reconhecem como a pioneira do rock & roll em Portugal. Fez da música um ato de desobediência, abrindo caminho num tempo com pouco espaço para mulheres livres. Entre canções e testemunhos, o filme recupera a sua memória e faz das suas letras inéditas um gesto de resistência, cantado e tocado por mulheres de hoje. O filme foi realizado por Francisca Marvão, com direção de produção de Diana Martins e produção de Uma Ova.
Zurita de Oliveira nasceu em Alcanena no dia 19 de Janeiro de 1931, filha de Maria Sousa Menezes e de Camilo Arjona de Oliveira e neta de Julieta Rentini, cresce no seio da Companhia de Teatro itinerante Rentini, ao lado dos irmãos Camilo de Oliveira e Hélder de Oliveira e da prima Leónia Mendes.
Estreou-se aos quinze anos, com o espectáculo Recompensa, no qual desempenhava o papel de um rapaz da sua idade. Continuou a representar mas o seu sonho sempre foi cantar na Emissora Nacional, onde conseguiu ingressar em 1951, nos programas de variedades, com a orquestra do maestro Tavares Belo, sendo absorvida por vários trabalhos de rádio e televisão a partir daí. Aprendeu a tocar viola para acompanhar as canções que escrevia e compunha.
Interpretou músicas como o Vira da minha rua, O Fado nem sempre é triste, Bati à porta da vida e Romarias, compiladas no disco Sois Inéditas da Estoril, de Manuel Simões. Além deste, gravou mais álbuns com a Editora Estoril, de Manuel Simões. Autora e encenadora de algumas peças de teatro como A Louca, Entre dois amores e Eu não roubei. Actuou no Coliseu, Éden, Politeama, Condes, Europa, Tivoli e no antigo Casino Estoril.
Para muitos é considerada a pioneira do Rock & Roll em Portugal, sendo a primeira mulher em Portugal a compor, tocar, cantar e a gravar uma canção de género rock, O Bonitão do Rock, em 1960, com a grande editora Alvorada, e a tocar para um grande público. No mesmo ano, Os Conchas e o Daniel Bacelar também gravam um ep, mas através de um concurso, Os Caloiros da Canção n.1, que sempre foi considerado o primeiro disco de rock gravado em Portugal.
Durante a década de sessenta, a presença de mulheres no âmbito das linguagens Rock era praticamente inexistente, seria preciso esperar pelos anos oitenta para verificar algumas alterações neste âmbito. Como intérprete, não voltaria a gravar, continuando a compor e a escrever vários fados, nomeadamente para a fadista Ada de Castro, como por exemplo, O Fado Tem Encantos, Tudo por Nada e Romance Louco. Faleceu em Moscavide no dia 25 de Junho de 2015.
Francisca Marvão afirma: este filme surge como consequência direta da minha primeira longa-metragem, Ela é uma Música, pois foi durante a realização deste documentário que ouvi falar pela primeira vez de Zurita de Oliveira. Numa conversa entre Luís Futre e Ondina Pires, referem-se à artista como a mãe do rock português. Ao revisitar a sua história, percebemos como foi injustamente esquecida e compreendemos a urgência de lhe devolver o lugar que sempre lhe pertenceu.
E acrescenta, uma mulher, naquela época, a fazer solos de guitarra elétrica, era algo completamente inesperado para o contexto social e musical do país. Cada solo dela correspondia a um momento único dos seus espetáculos, uma espécie de instante de liberdade e expressão plena. Isso faz com que a sua presença na música e no rock português seja ainda mais marcante e extraordinária.
Relativamente ao título, em forma de pergunta, a realizadora assume que é uma provocação: O medo é simbólico: é o medo do patriarcado, do conservadorismo e da tradição que sempre tentou invisibilizar mulheres como ela. Infelizmente, nos tempos que correm, a desigualdade de género na música ainda é uma realidade, seja na programação de festivais, na rádio ou na forma como muitos técnicos ainda tratam determinadas bandas constituídas por mulheres, por exemplo. O filme mostra que revisitar a história da Zurita é não só reconhecer o que foi injustamente esquecido, mas também inspirar e reforçar a presença das mulheres no panorama musical atual. Afinal, quem continua a ter medo das Zuritas?
O filme conta com a participação das artistas A Garota Não, Dama Bete, Frik.São, Ada de Castro, Vitória & The Kalashnicoles, Zuritas Elétricas, Mariana Camacho, Trypas Corassão, Ana Santos, Celina da Piedade, Mãe Bruxa, Isabel Martinez e As Margaridas de Peroguarda.
Francisca Marvão é realizadora, formada em Cinema, Vídeo e Comunicação Multimédia pela Universidade Lusófona. O seu trabalho em documentário centra-se na memória, na identidade e nas formas de resistência. Em 2017, estreou a curta-metragem “O Descanso na Intensidade das Cores” no Doclisboa e, em 2019, estreou a sua primeira longa-metragem, “Ela é uma Música”, sobre as mulheres e o rock em Portugal, no IndieLisboa. Concluiu recentemente os filmes “Guardiãs do Nascimento“, com estreia no Porto Femme 2026 e “Quem tem medo de Zurita de Oliveira?”, que vai estrear no IndieLisboa 2026. Em 2023, co-fundou a Uma Ova – Associação Cultural com Diana Martins, onde desenvolve projetos transdisciplinares.
Após a estreia, o filme inicia uma tour nacional. As datas serão anunciadas em breve.

