“A Voz de Hind Rajab”: uma espera insuportável

O grito silencioso de uma criança palestiniana preso em Gaza é o centro de “A Voz de Hind Rajab”
A Voz de Hind Rajab A Voz de Hind Rajab
"A Voz de Hind Rajab" (2025), de Kaouther Ben Hania

O mais recente trabalho da cineasta tunisiana Kaouther Ben Hania, é a afirmação do cinema como ato de testemunho e denúncia. “A Voz de Hind Rajab” teve uma passagem marcante na 82.ª edição do Festival Internacional de Cinema de Veneza: entre outras distinções, foi galardoado com o Leão de Prata – Grande Prémio do Júri, bem como recebeu uma ovação de pé de 23 minutos e 50 segundos, batendo o recorde de aplausos mais longos registados num festival de cinema (anteriormente pertencente a “Pan’s Labyrinth” (2006), de Guillermo del Toro).

A 29 de janeiro de 2024, em Gaza, Hind Rajab, uma criança palestiniana de 6 anos, fica presa num carro sob ataque, perpetrado pelas Forças de Defesa de Israel – rodeada pelos corpos dos seus tios e primos, encharcada com o sangue dos seus familiares, sem comida ou água. A sua chamada de socorro ao Crescente Vermelho é testemunha da aflição de Hind e dos voluntários que tentam desesperadamente resgatá-la, bem como da inocência de uma criança que se encontra no meio de um ataque movido pelo ódio e que não olha a idades.

A ideia para o filme surgiu de forma inesperada. Em plena campanha para o Óscar no âmbito de “Four Daughters” (2023), e com intenções de iniciar a pré-produção de um projeto que havia passado a última década a ganhar forma, a realizadora cruzou-se com um excerto da gravação da chamada de Hind, que circulava na internet. Mais tarde, e após solicitar acesso à restante gravação, com aproximadamente 70 minutos, Ben Hania decidiu abandonar os seus projetos e contar a história desta criança. Esta decisão foi seguida de um contacto forte com a mãe de Hind, a par dos socorristas que tentaram auxiliá-la, o que acabou por reforçar a urgência deste projeto.

As atuações dos atores que configuram o Crescente Vermelho (todos palestinianos) são contidas. Aliadas ao cenário claustrofóbico do escritório e com um silêncio inquietante, ancoram o filme numa realidade palpável. A tensão é inegável, mas nunca forçada, aliás, parece haver um trabalho real por parte de todos os envolvidos em evitar o melodrama que, possivelmente, teria ofuscado a narrativa. E se é sentido desconforto durante o visionamento é de certo mais pela natureza desumana do caso retratado do que por fórmulas muito complexas de encenação ou manipulação cinematográfica. O silêncio, os ruídos indistinguíveis que tentamos decifrar vindos do outro lado do telefone, o perigo latente e a gradual perda da inocência de uma criança vítima da genocídio cria uma atmosfera que garante ecoar nas nossas cabeças por muito tempo.

Ben Hania orquestra o filme com uma forte sensibilidade, sem interesse em explorar a violência explícita (ainda que existente no evento). A realizadora afirmou que, por uma questão de respeito, decidiu não ter uma atriz a interpretar Hind. A consequente preferência pelo uso da gravação da chamada real é ousada, mas profundamente eficaz. Críticas de eventual tentativa de manipulação emocional do público pelo uso da gravação realizada no fatídico dia caem por terra quando confrontadas com o simples facto de se tratar de um testemunho real, documentado e impossível de ficcionalizar sem perder a sua urgência e força.

Podia-se fazer uma análise formal do filme de forma mais extensiva, mas perder-se-ia o seu grande foco: a crueldade a que Hind foi alvo; como a humanidade falhou, não só para com esta criança, mas como para com tantas outras, antes e depois dela dar o seu último suspiro. Aliás, as escolhas criativas e formais parecem unir-se em prol da mesma causa, isto é, o relato cru do sofrimento do povo palestiniano.

A obra de Ben Hania é um dos três filmes sobre Hind lançados em 2025, a par de “Close Your Eyes Hind” (2025) e “Hind Under Siege” (2025). O crescente número de produções que abordam o genocídio, bem como agora a sua distinção nos Óscars na categoria de Melhor Filme Estrangeiro, revela e o inegável poder político do cinema, capaz de dar voz a estas vítimas, num mundo cada vez mais dessensibilizado à violência e crueldade.

“A Voz de Hind Rajab” aponta o dedo à punição coletiva e às violações claras do Direito Internacional Humanitário. Equipas de socorro que, à primeira vista deveriam sinónimos de ajuda humanitária e esperança, são vistos como ameaças aos olhos de um regime genocida que parece atacar civis, incluindo milhares de crianças, como se de uma tarefa corriqueira se tratasse.

A arte, nas suas variadas formas, é sempre política e aqui o cinema afirma-se na sua dimensão mais humana e avassaladora, funcionando como um lembrete duro de como até a vida de uma criança inocente parece não assumir valor perante a lógica da violência movida pelo poder e pelo ódio cego. Em última instância, “A Voz de Hind Rajab” procura devolver dignidade a uma das muitas vítimas do genocídio em Gaza. É, por isso, um filme obrigatório, não apenas para ver, mas para lembrar.

A Voz de Hind Rajab
“A Voz de Hind Rajab”: uma espera insuportável
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