Abdallah Alkhatib: “Acredito 100% que um dia a Palestina será livre”

Sempre com o cerco em pano de fundo, Alkhatib ensaia um foco de ficção nesse espaço de desespero e privação gritantes
Abdallah Alkhatib Abdallah Alkhatib
Foto: Paulo Portugal

Falámos com o realizador de “Chronicles From the Siege” e ficámos contagiados com a sua energia e resiliência. Precisamos deste homem a fazer cinema.

“Chronicles From the Siege” foi o melhor filme que vi nesta edição n.º 76 da Berlinale. Não estava na seleção oficial a concurso ao Urso de ouro, mas na Perspectives, a secção criada por Tricia Tuttle, há dois anos, em substituição da Encounters (onde há três anos o saudoso João Canijo, exibiu “Viver Mal”, estando “Mal Viver” na oficial, onde venceria o prémio do júri). Dedicada a novas vozes e aos formatos híbridos, procura novas linhas para o futuro do cinema. Sim, algo que passa necessariamente pela urgência do cinema de Alkhatib.

Aliás, estas crónicas são precisamente uma reinvenção formal ou um complemento ‘híbrido’, entre ficção e documentário, do pungente “Little Palestine: Diary of a Siege” (2021), revelando a realidade do maior campo de refugiados palestinianos do mundo, Al Yarmouk, em Damasco, onde nasceu há 37 anos.

Sempre com o cerco em pano de fundo, Alkhatib ensaia um foco de ficção nesse espaço de desespero e privação gritantes. Ainda assim, não se priva de mostrar a possibilidade de alegria, do sonho da arte e até um lado mais descontraído, contemplando algumas brincadeiras e até um certo humor mordaz no meio da destruição total, como dirá, a certa altura, na nossa conversa, a comédia negra, ou a comédia em geral, faz parte da nossa vida, percebe?

Percebemos. Será? Entremos então nesta peça de um mosaico, composta por pequenas vinhetas interligadas, ambientadas numa cidade sitiada, sujeita a bombardeamentos e já parcialmente reduzida a escombros, mas segredando-nos algo que explica a tenacidade e resiliência do povo palestiniano. Inspirou-se também especialmente na sua própria experiência, há uma década, no cerco de Yarmouk, Damasco, durante a Guerra Civil Síria.

É precisamente do arquivo de imagens em vídeo, em que um homem filma pessoas que lutam por peças de abastecimento, sendo que, de repente, a câmara fica sem bateria – espaço para introduzir a ficção. Ele que é o proprietário de um clube de vídeo, espaço entretanto convertido num microcosmos de possibilidade de fuga, diante dos cartazes e estantes cheias de cassetes VHS, se discutem e recordam os filmes favoritos alugados nesse clube: de Truffaut, a Chaplin, John Wayne ao Cinema Paraíso. Enfim.

É o que vemos quando um cigarro que passa de mão em mão, como um ritual, como se de um charro de tratasse, acaba por ser surripiado por um mais necessitado (o próprio Alkhatib). Porque temos de compreender que um cigarro pode ter esse valor. Pois pode até ser trocado por um frigorífico, como também se vê. Isto num campo de refugiados onde existe uma espécie de gruta onde o cinema é, literalmente, descoberto, como um antigo clube de vídeo, pleno de um escape de fantasia; ou a possibilidade do amor, mas também a realidade hospitalar e da carência de sangue. Crónicas que acabam por abraçar uma possibilidade de mundo em parêntesis, mas que se completa.

Permita-me fazer uma pergunta política, algo que, hoje em dia, não parece ser muito aconselhável. Refiro-me à posição do festival em relação ao que se passa em Gaza e também, claro, às declarações do presidente do júri, Wim Wenders sobre os filmes não deverem ser políticos. Qual é a sua opinião sobre isso?

Antes do Wim Wenders dizer aquilo, eu já tinha decidido, há alguns três meses, inscrever-me na Berlinale e vir para cá. Mesmo vivendo em Berlim, conheço todas as questões sobre a posição da Berlinale, sobre o que se passa em Gaza e sobre o genocídio.

Devo dizer que foi talvez o melhor filme que vi até agora na Berlinale. Bem poderia estar na secção principal. Mas, diga-me, qual é a sua impressão do festival, que já manifestou a sua intenção não política?

Antes de mais, eu acho que o filme está bem onde está – nesta secção de jovens realizadores. Mas é nossa responsabilidade, enquanto cineastas palestinianos, vir a um festival como este e falar abertamente sobre a Palestina, tentando pressionar o festival para que tome uma decisão, tome uma posição, diga alguma coisa. E explicar o que está a acontecer. Estamos aqui e que vamos usar este palco para falar sobre a Palestina.

É interessante a questão do cerco, desde logo, na referência ao filme anterior. Era sua intenção alargar este conceito?

Eu tentei encontrar a ligação entre outros cercos no mundo, como tivemos, por exemplo, em Sarajevo, no Sudão e outros locais que enfrentam a mesma situação. Tento encontrar a ligação entre todos eles para fazer este filme funcionar. Não tinha em mente fazer um filme. A sua mente está noutro lugar, na história. Eu só queria documentar a situação, registar o que estava a acontecer no filme e disponibilizar o material para outras pessoas usarem, percebe?

Quando estava no cerco já pensava em fazer este filme?

Não tinha em mente fazer um filme. A minha mente estava num noutro lugar. Eu só queria documentar a situação, registar o que estava a acontecer no filme e disponibilizar o material para outras pessoas poderem usar. Mas depois de ter chegado à Alemanha, os meus amigos, que eram produtores, começaram a incentivar-me a fazer o filme. Então eu disse: Ok, porque não. É a minha história, é o meu arquivo.

Mas não deixa de ser algo insólito perceber os elementos de uma certa comédia… Mas é algo intencional?

Sim. A comédia, a comédia negra, ou a comédia em geral, faz parte da nossa vida, percebe? Mesmo em lugares difíceis, como a guerra, as pessoas ainda procuram algo engraçado para fazer, procuram amor, procuram cigarros, procuram essas coisas.

O que foi que o motivou a fazer filmes?

Bem, há várias razões. Uma delas é porque gosto de ter um microfone e falar com as pessoas olhando-as nos olhos, dizendo o que quero dizer, especialmente quando estou em festivais importantes como o de Cannes ou aqui em Berlim. Em segundo lugar, porque não quero deixar que outras pessoas façam filmes sobre nós, percebe? Se eu fizer um filme sobre o cerco, os outros irão pensar três vezes antes de tomarem essa decisão. Porque sabem que há cineastas palestinianos que já o fazem.

Acha que um dia este conflito na Palestina irá acabar? Tem fé que isso aconteça?

Não tenho uma resposta específica como isso acontecerá, mas, ouça bem: eu acredito 100% que a Palestina será um dia livre e voltará para nós. E tudo voltará ao normal quando tivermos a Palestina livre. Eu acredito na História.