“Barbie”: Questões geopolíticas levam à proibição da exibição do longa de Greta Gerwig no Vietnã

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Na última segunda-feira (3), a mídia estatal do Vietnã divulgou que o filme “Barbie”, realizado por Greta Gerwig, não será disponibilizado para exibição no país. O motivo para essa proibição reside em uma determinada cena que exibe um mapa contendo a controversa “linha dos nove traços”, uma reivindicação territorial da China sobre a região do Mar do Sul da China, a qual é contestada pelos vietnamitas.

De acordo com Vi Kien Thanh, o chefe do Departamento de Cinema local, a licença para o lançamento do filme norte-americano “Barbie” não foi concedida devido à presença dessa imagem considerada ofensiva, a qual retrata a mencionada linha.

Esta não é a primeira vez que o mapa em questão causa contestações no país do sudeste asiático. No ano de 2019, o governo Võ Văn Thưởng também proibiu a exibição da animação “Abominável”, de Jill Culton e Karey Kirkpatrick, produzida pela DreamWorks, sob o mesmo argumento. Além disso, outras produções, tais como o filme de ação “Uncharted”, de Ruben Fleischer e a série de espionagem australiana “Pine Gap”, foram barradas por apresentarem o referido mapa.

Essas decisões de censura refletem as tensões políticas e territoriais entre o Vietnã e a China em relação à região do Mar do Sul da China, tornando-se um tema sensível para o país, que busca preservar sua soberania e interesses nacionais.

Tendo em vista esse cenário, no papel de professor de atualidades e de ex-bacharelando em Geografia pela Universidade Federal de Alagoas (UFAL), é minha responsabilidade explicar melhor o fenômeno em questão.

Dito isso, a complexa origem das disputas territoriais no Mar da China Meridional remonta aos mapas oficiais criados pelo governo nacionalista do Kuomintang antes e depois da Segunda Guerra Mundial, como documentado no livro “Asia’s Cauldron”, de Robert D. Kaplan. Após a derrota do Kuomintang pelas forças comunistas lideradas por Mao Zedong, o governo nacionalista se refugiou em Taiwan, onde estabeleceu sua sede. Essa situação resultou na República Popular da China e Taiwan reivindicando oficialmente a propriedade do Mar da China Meridional.

A principal fonte de disputa territorial está relacionada à Linha de Nove Traços, originalmente uma linha de 11 traços, que foi estabelecida com a ajuda do geógrafo chinês Yang Huairen. No entanto, países como Vietnã, Filipinas e Malásia argumentam que essa linha ultrapassa os limites estabelecidos pelo Direito do Mar e reivindica um território muito maior do que é justificável.

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Imagem: Reivindicações de soberania feitas sobre o Mar do Sul da China. Fonte: The South China Sea – Territorial Claims – Maps – Via: UFPEL

Dessa forma, as reivindicações territoriais da China têm gerado tensões, pois entram em conflito com as questões de soberania territorial dos Estados do Sudeste Asiático. Nesse aspecto, embora a China se baseie em argumentos históricos para justificar suas pretensões, essas alegações são vistas com preocupação pelos países vizinhos, que temem uma possível hegemonia chinesa na região. Por conseguinte, a ocupação de ilhas no Mar do Sul da China e a construção de ilhas artificiais têm aumentado as tensões, levantando preocupações sobre a biodiversidade marinha e as relações políticas e diplomáticas entre os países da região.

Por sua vez, sob esse ângulo, o Vietnã reivindica a soberania das ilhas Paracel e Spratly, o que resulta em conflitos acentuados com a China. Para esquentar a “briga”, Taiwan também busca fundamentos históricos para suas reivindicações nessas ilhas. No meio de tudo isso, Malásia, Brunei e Filipinas baseiam-se no Direito do Mar (UNCLOS) para justificar suas reivindicações territoriais.

Mais especificamente, Taiwan também pleiteia o território das ilhas Paracel e ocupa a maior ilha do arquipélago de Spratly. O sultanato de Brunei reivindica um pequeno recife nas ilhas Spratly, dentro de sua Zona Econômica Exclusiva (ZEE). A Malásia também reivindica áreas dentro de sua ZEE, assim como algumas ilhas da cadeia de Spratly. As Filipinas têm uma relação estreita com os Estados Unidos, mas Washington não tem sido ativo na defesa das ilhas ocupadas no arquipélago de Spratly, que são reivindicadas em sua totalidade pelo governo filipino. No início de 2013, as Filipinas iniciaram um procedimento arbitral contra a China na Corte Permanente de Arbitragem, mas todas as decisões foram negadas por Pequim.

Essa região é de grande importância econômica, pois uma porcentagem significativa do comércio mundial passa pelo Mar da China Meridional, incluindo recursos energéticos como gás natural e petróleo. Por esse motivo, é conhecido como a “garganta do Pacífico” e é uma das rotas comerciais mais importantes do mundo.

Em resumo, a disputa territorial no Mar da China Meridional é uma questão complexa e delicada, envolvendo argumentos históricos, soberania territorial, interesses econômicos e relações políticas entre os países da região. O cenário geopolítico e a importância estratégica da área tornam essas disputas uma preocupação internacional.

“Barbie”, estrelado por Margot Robbie e Ryan Gosling, estava originalmente programado para estrear no Vietnã em 21 de julho, a mesma data que nos Estados Unidos, de acordo com o jornal estatal Tuoi Tre.

 

 


Fonte teórica consultada: ZIETLOW, B; MARTINS, C. Tensões no Mar do Sul da China. RIPE/UFRGS, Porto Alegre, 04 de jul. de 2023. Disponível em: https://www.ufrgs.br/ripe/wp-content/uploads/2017/05/Mar-do-Sul-da-China.pdf. Acesso em: 04 de jul. de 2023.

FAKHOURY, R. M. M. As disputas marítimas no Mar do Sul da China: antecedentes e ações militares no século XXI. Série Conflitos Internacionais, Marília, v. 6, n. 1, p. 1- 9, fev. 2019.

* O RIPE, Relações Internacionais para Educadores, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), consiste em um curso sobre Relações Internacionais, de curta duração, para professores da área de Ciências Humanas de Ensino Médio, com o objetivo de facilitar a discussão de conteúdos pertinentes à área em sala de aula.

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