Pelos corredores de Berlim comentava-se que ao longo dos anos aprendemos todos uma lição com os filmes de abertura da Berlinale: que nada se deve esperar deles. E assim foi, com um dos filmes mais fracos dos últimos anos do festival, “The Kindness of Strangers” a abrir a sua 69.ª edição na capital alemã.

A escolha de Lone Scherfig parece soar completamente arbitrária, mas não é de causar assim tanta estranheza. Foi em 2001, a última edição do festival antes de Dieter Kosslick começar a sua jornada de dezoito anos, que ela levou o urso de prata para casa pelo seu simpático “Italiano Para Principiantes”; um dos últimos filmes produzidos dentro dos padrões do finado movimento Dogma 95.

Depois disso, seguiu-se a comédia de humor negro “Wilbur Quer Matar-se” e Scherfig firmou-se então como uma das promessas do novo cinema indie europeu a se ter debaixo de olho. Infelizmente, o tempo mostrou que o entusiasmo não passava de fogo de palha e nem o sucesso de “Uma Outra Educação” (2000), e as suas três nomeações para o Óscar, foram suficientes para provar-nos do contrário.

No novo “The Kindness of Strangers”, o ceticismo habitual também não nos deixa enganar. Tudo o que é preciso saber sobre o novo filme de Scherfig, está explicado no seu título. A saber: uma porção de personagens insossas, à deriva por Nova Iorque, vivendo às margens do sistema e que são definidas pelas pequenas gentilezas trocadas com estranhos pela rua.

A personagem central desse emaranhado de histórias é Clara (Zoe Kazan), que corre para cá e para lá com os seus dois filhos em busca de comida e de um canto para dormir. Enquanto fura festas em hotéis de cinco estrelas para roubar finger food de caviar para os meninos que esperam no carro, uma série de lugares comuns, em altas doses de sacarina, é despejado no ecrã sem o menor pudor.

No meio dessas andanças, Clara conhece a enfermeira Alice (Andrea Riseborough) que, claro, prontamente lhe ajuda com cama, comida e roupa lavada. Alice também trabalha em part-time como mediadora num grupo de terapia coletiva e é aí que as outras personagens, ainda mais insignificantes e desprovidas de carisma, dão o ar da sua (des)graça.

Há também um restaurante russo, com o sempre ilustríssimo Bill Nighy, que também é produtor executivo no filme, a fazer de garçon; e é o local onde todas as personagens eventualmente se encontram e se ajudam umas às outras. Talvez seja do ator inglês os momentos menos aborrecidos deste filme; com pouquíssimo tempo de ecrã ou de diálogos, é ele a única razão de conseguir acompanhar este imbróglio urbano até ao seu final previsível.

Quando questionada, na conferência de imprensa, como é que o seu filme se enquadra no tema do festival deste ano (“O Privado é Público”), a realizadora atrapalha-se na resposta e admite que só soube do tema no dia “só hoje é que li o pequeno manifesto de Kosslick sobre o “privado é político” e isso deixou-me orgulhosa, de certa forma, porque este filme e as suas personagens não são nada políticos”.

A realizadora então emenda, numa explicação empolada, que espera que o seu filme, lá no fundo, possa dialogar com as “big issues” dos nossos tempos e que, assim, consiga criar alguns “valores políticos”. Afinal, dizia ela pouco antes, já não há mais gentileza neste mundo cruel. Aqui deste lado, só conseguimos responder-lhe à altura dos seus chavões: de boas intenções está o inferno cheio.