A meio do festival vamo-nos dando conta da ausência de brilho por parte de alguns dos nomes mais fortes a concurso na secção oficial. É que, infelizmente, tanto “Rosebush Pruning”, do brasileiro Karim Aïnouz, como “At the Sea”, do húngaro Kornél Mundruczó, à partida, candidatos putativos na lista dos 22 filmes à conquista do Urso de Ouro, revelam meros esboços gélidos (e inertes) do espetáculo das elites entediadas e ociosas. Seja nas suas vilas palacianas, nos arredores de Barcelona, como sucede no filme Karim, ou nas moradias costeiras, da elite de Cape Cod, no Massachusetts, no caso de Kornél), onde a nossa atenção se dissolve em pequenos escândalos íntimos e rituais vazios.
Compreender-se-á até um eventual contexto alimentar, ditado até por razões de produção, embora menos a cedência pronunciada a um cinema que acena um isco de excessos burgueses, convidando o espectador a acomodar-se — seja no sofá do streaming, ou na sala escura — na contemplação desses mundos fechados. Ainda que esse fascínio e ousadia não se traduza em empatia: as personagens são, em grande parte, figuras de manequim emocional, usadas para encenar excessos diletantes e auto-absorção sem limites.
Ainda que “Rosebush Pruning” evoque um diálogo de proximidade com o filme estreia de Marco Bellochio (I Pugni in Tasca, de 1965 – a que o próprio se referiu na conferência em Riade, em novembro passado), a verdade é que o autor de “Motel Destino” (2024) e “Praia do Futuro” (2014), deixa-se levar pelo guião feroz de Efthimis Filippou, habitual escriba do também grego Yorgos Lanthimos. E pelo niilismo que domina esta família inerte de herdeiros americanos, instalados em Barcelona, a usufruir da forma mais diletante do prazer das griffes e product placement facilitado pela milionária fortuna da mãe (Pamela Anderson), aparentemente, dilacerada por lobos do bosque local. Uma matilha que passa a ser diariamente alimentada com um cordeiro diário, exigência do Pai cego (Tracy Letts), uma figura autoritária com tiques de depravação (em vez da mãe a domina na família do filme de Bellochio).
Este quarteto de quatro irmãos, infelizes e preguiçoso, vive numa mansão na Catalunha, é narrado por Ed (Callum Turner) como um podcast familiar, acomodando ainda Jack (Jamie Bell), o mano mais velho, e responsável, namorado de Martha (Elle Fanning), embora também alvo e tensão permanente com os mais jovens, Robert (Lukas Gage), a irmã insinuante Anna (Riley Keough). Pelo meio haverá ainda um segredo maternal a revelar, bem como a ‘poda’ das ‘pétalas’ a que refere o título original de Bellochio.
É, aliás, a propósito de Martha que despoleta a discussão e a cena mais interessante do filme, justamente quando o patrão da casa solicita, à mesa, uma descrição física de Martha, incluindo, em particular, os seios dela, acabando por gerar a divertida comparativa com o peito de Anna. Lá mais para o meio do filme acontecerão ainda outros excessos, muito mais gráficos (e abjetos) que evitamos descrever.
Digamos que Karim Aïnouz faz o que pode a partir do guião de Filippou, onde se sente um prolongamento da excentricidade narrativa dos primeiros filmes de Lanthimos, e, por isso mesmo, ficando-se por uma mera (e discreta) aproximação a Bellochio.
Passemos então a “At the Sea” e a Mundruczó, um outro candidato putativo a prémios e já com uma carreira considerável fora do seu país. Seguramente, até, pela pouca simpatia que nutre por Victor Orbán. O húngaro serve-nos então um drama seco e narcisista, escrito por Kata Wéber (sua mulher), apesar de ‘meter alguma água’. Laura, a personagem competentemente defendida por Amy Adams, é uma ex-bailarina presa à sombra do progenitor, encenador brilhante de quem herdou a paixão pela dança, mas também pelo álcool. Regressa a casa após seis meses de reabilitação numa clínica, após o acidente causado por condução sob efeito de álcool, resultando numa colisão quando conduzia o seu filho Felix (Redding Munsell). Esse episódio regressará, em alguns flashbacks, embora, infelizmente, sem que isso contribua para a complexidade da personagem de Adams. Desbarata-se assim todo esse potencial, num filme rendido aos problemas existenciais da elite de Cape Cod. Assim vai o charme, pouco discreto, desta burguesia.

