O livro Frankenstein, escrito por Mary Shelley no início do século XIX, foi um marco da literatura, criando praticamente as bases do género da ficção científica. Desde então, influenciou e inspirou centenas de adaptações para as mais diversas mídias, pelo que era de esperar que chegasse a vez de Guillermo Del Toro mostrar a sua versão.
Na versão de Frankenstein de um dos principais realizadores de fantasia da actualidade, acompanhamos a dramática história de um médico ambicioso por dominar a morte e do monstro que ele criou, um ser composto por partes mortas de outros humanos, que aos poucos descobre quem é e o que pode ser.
O Prometeu Moderno, outro nome para o livro de Shelley, investiga sentimentos e horrores intimamente ligados à sociedade, como moral, preconceito e os conflitos entre criador e criatura que levam à queda, resultado da arrogância.
Com algumas poucas liberdades de enredo, o filme é bastante fiel à obra original, com excepção de um elemento: o tom da narrativa. Apesar de manter a carga dramática, o horror apresentado por Del Toro assume muito mais a forma de fábula, uma fantasia sombria que explora a liberdade dos sonhos.
Para contar a história, o realizador optou por dividir o filme em vários capítulos, como se quisesse simular a fragmentação da mente e do corpo do monstro. Mas as escolhas sobre o que contar e os tempos destinados a cada segmento nem sempre funcionam, a ponto de os capítulos não serem orgânicos e se desgastarem rapidamente ao longo da narrativa.
Plasticamente, o filme é muito bonito. Abusa da saturação, com cores sempre muito fortes em alto contraste, e apresenta uma nitidez quase sobrenatural. Infelizmente, isto contrasta com a sujeira que a história exige. Tudo parece demasiado limpo, quando o texto e os personagens querem discutir degradação e deterioração.
Ainda assim, chama a atenção o cuidado com os efeitos especiais e a maquilhagem, muitos deles responsáveis por criar uma ambientação alheia à realidade, dando vida à criatura e a todo o cenário fantástico. A estética do belo conduz a produção, uma busca pela feiura harmoniosa, como num conto de fadas.
No fim, Del Toro, que sempre se destacou pela imaginação e pela capacidade de manipular o estranho, acaba por cair na armadilha de repetir fórmulas que ele próprio já usou várias vezes e melhor. Ainda assim, é um filme correcto, presta uma bonita homenagem ao clássico, mas dificilmente ficará na memória.

