Quanta pressão é uma pessoa capaz de suportar antes de colapsar? Esta é uma questão recorrente que todos já fizemos ou fazemos perante as dificuldades do dia-a-dia, desejando nunca atingir esse limite, embora a realidade, na maior parte das vezes, não se preocupe muito com isso.
“Se Eu Tivesse Pernas, Dava-te um Pontapé”, de Mary Bronstein, apresenta-nos Linda, uma mãe solteira não por escolha. Bem, oficialmente é casada, mas o trabalho do marido obriga-o a ficar fora de casa durante várias semanas, o que a força a assumir sozinha a responsabilidade da casa. Até aqui nada de extraordinário, mas a sociedade cobra homens e mulheres com pesos diferentes e, se Linda quer continuar a exercer a profissão de terapeuta, é obrigada a fazer turnos extra não remunerados em casa.
Ultimamente, esse “segundo turno” significa cuidar da filha, que sofre de graves distúrbios alimentares, exigindo não apenas vigilância constante, mas também a administração de medicamentos e da própria alimentação através de sonda. E aquilo que já não estava propriamente bem piora quando o tecto da casa desaba, obrigando-as a mudarem-se para um motel de beira de estrada.
Assim, acompanhamos Linda numa jornada angustiante de desespero para tentar equilibrar a própria sanidade entre as responsabilidades com a filha, a resolução das obras da casa e os pacientes emocionalmente dependentes. Tudo isto enquanto continua a ouvir do marido, da filha, dos colegas ou dos médicos do hospital que não está a fazer o suficiente.
Trata-se de um filme sobre um drama muito mais quotidiano do que gostaríamos de admitir, o de uma mulher que, além de não receber qualquer apoio, precisa de carregar o peso de responsabilidades que ninguém deveria suportar sozinho. Uma narrativa incómoda sobre um mundo, literal e metaforicamente, a desabar, sem válvulas de escape ou redes de apoio, um caminhar descontrolado rumo a uma inevitável depressão.
Embora mais inclinado para o humor surreal e, por isso, com um tom ligeiramente mais esperançoso, em 2024 a mesma temática do colapso mental surge também em “Nightbitch”, realizado por Marielle Heller e protagonizado por Amy Adams. No filme, o conflito entre ser mãe e ter uma vida independente leva a protagonista a alucinar que está a transformar-se num cão.
Ainda que alguns prémios tenham colocado “Se Eu Tivesse Pernas…” em categorias de comédia, e a própria Rose Byrne seja conhecida por trabalhar nesse género, desta vez a actriz surge num papel de maior intensidade dramática. Não por acaso recebeu várias nomeações e prémios de melhor actriz. Byrne apresenta, de forma visceral, uma espiral crescente de desespero e exaustão, com direito até a risos nervosos provocados pela absoluta falta de perspectiva vivida pela personagem.
Tecnicamente, como forma de potenciar essa angústia, a produção recorre a muitos planos fechados e close-ups na protagonista. Muitas vezes ouvimos apenas as vozes das pessoas à sua volta, questionando-a e cobrando-a, como um zumbido incessante do qual é impossível libertar-se. A câmara capta as variações de humor da personagem numa estratégia narrativa que sugere que ela está, literalmente, a ser isolada do mundo.
Este recurso é especialmente evidente na introdução do filme. Muito antes de qualquer apresentação de cenário, o espectador tem apenas Linda em cena e as vozes das outras personagens como ruído de fundo. Ao longo da narrativa, o artifício vai sendo suavizado, com uma única excepção: o rosto da própria filha, que só conhecemos no frame final.
O estado mental da personagem também se reflecte numa montagem acelerada que muitas vezes não conclui algumas das situações apresentadas. Ainda assim, não se sente falta dessas conclusões, porque o espectador já está completamente imerso na confusão vivida pela protagonista e, tal como ela, deseja apenas um momento para respirar. Paradoxalmente, é precisamente isso que dá ritmo ao filme e impede que se torne cansativo, apesar do mergulho profundo no caos emocional.

