Em “Uma Grande, Corajosa e Bela Viagem”, Kogonada (realizador sul-coreano de “Columbus” (2017) e “After Yang” (2021)) apresenta-nos a jornada de David (Colin Farrell) e Sarah (Margot Robbie), duas pessoas solitárias que se conhecem no casamento de amigos em comum e acabam por embarcar numa viagem inesperada, “guiada” por um GPS de carro bastante verborrágico.
Ao longo do filme somos levados junto com a dupla para portas que parecem instaladas no meio do nada, debaixo das árvores numa floresta, em campos entre colinas e até dentro de construções ou em outdoors, mas sempre como elementos deslocados da realidade. Esses acessos estranhos transportam-nos para lugares e tempos que foram, de alguma forma, importantes para cada um deles, fazendo-os refletir sobre si mesmos.
É uma comédia romântica orientada por uma fantasia surreal que procura provocar reflexões a partir da aceitação natural dos acontecimentos, por mais estranhos que eles pareçam. Assim, somos conduzidos com os personagens por portas flutuantes que os fazem viajar no tempo, a memórias e até a momentos de que se arrependem por não os terem vivido.
A partir de uma narrativa com toques de surreal e contemplativa, a trama brinca com coincidências, que em outras situações seriam tratadas como conveniências, mas sem dar a sensação de quebrar as regras da realidade apresentada. Desta forma, o objectivo é sempre provocar a reflexão sobre limitações e medos, ao mesmo tempo que os personagens se conhecem melhor.
No entanto, essa estratégia desgasta-se rapidamente: o elemento fantástico das viagens entre portais, que poderia gerar os primeiros conflitos, é aceite pelo casal sem grandes questionamentos, tornando os momentos e as situações menos atrativos. Parece que a realização e o guião atingem um limite intransponível e o maravilhamento da descoberta transforma-se gradualmente num desenrolar cansativo até ao final.
Além disso, falta química entre Farrell e Robbie. O único elemento que têm em comum é o facto de afastarem as pessoas e sofrerem com isso de forma recorrente, sem nunca fazer nada a respeito, caindo sempre no mesmo vórtice depressivo. Mas é apenas isso, e sem mais nada que realmente os una; a união forçada pelo guião leva o filme a render-se a um drama meloso e cansativo.
Antes de concluir esta crítica depressiva, vale, porém, mencionar o pastiche de referências utilizado na produção, que pode funcionar como um “cata-piolhos” divertido. Sem prestar muita atenção, podemos encontrar desde uma IA intrusiva como em “Her”, manias de cupido à maneira do outdoor de L.A. Story, até chegar a uma Super Máquina que desafia os protagonistas a arriscar e sair do ciclo vicioso da rotina.

