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A saga de Harry Potter vista por Leonor Reis

Não há dúvidas de que a saga de Harry Potter é um fenómeno, mas ao contrário do que a imprensa gosta de realçar, não é somente um fenómeno comercial, ou a saga mais rentável da história; é também uma das sagas mais acarinhadas de sempre, e talvez aquela que mais saudades irá deixar, ou deixa já. Os Talismãs da Morte parte 2 não significa só o fim das adaptações cinematográficas da série, mas o encerrar de um fenómeno que durou mais de 14 anos, desde a publicação do primeiro livro da saga e de toda a expectativa que precedeu cada publicação e consequentemente cada estreia. O que resta agora são as memórias de quem contou os meses, os dias e as horas até que saísse o próximo livro ou o próximo filme; as memórias de quem cresceu, lado a lado, com as suas personagens favoritas, e de quem chorou com a sua morte; as memórias de quem fez de Harry Potter a sua infância.

 

Como fã da série devo dizer que os filmes nunca me entusiasmaram tanto como os livros, pelo contrário, houve alguns que desiludiram bastante, e não creio ser a única a pensar de tal forma. A verdade é que os filmes nunca conseguiram aquela magia que nos livros existia em cada passagem e que nos deixava literalmente presos página após página. Houve também muitas falhas e erros que comprometeram alguns dos filmes, quer em termos de argumento ou mesmo de escolha de realizador. Pergunto-me se terá havido alguma evolução desde o primeiro até este último filme, e se essa evolução, a existir, foi positiva ou não.

Harry Potter e a Pedra Filosofal foi o primeiro filme da série, tendo a difícil tarefa de transpor todo um mundo que, até então, existia somente nas páginas dos livros e no imaginário de milhões de crianças. Tudo desde a escolha dos locais, dos actores, a criação de todos os adereços, feitiços, criaturas, tudo aquilo que, no fundo, define este mundo tão maravilhosamente descrito nos livros de J. K. Rowlings, era o grande desafio deste primeiro filme e de Chris Columbus, seu realizador, que, a correr mal, podia tão facilmente ter condenado logo à partida toda a série. Tal não aconteceu. A Pedra Filosofal foi um bom ponto de partida para a série, conseguindo criar um ambiente verdadeiramente mágico, algo que se viria a perder, de certa forma, com o decorrer da saga. Mágico, talvez, pela novidade. Lembro-me do tecto encantado do Salão, das escadarias que se moviam sozinhas, os fantasmas das equipas, pequenos pormenores a que nos acabámos por habituar. Mas mágico também pela simplicidade dos efeitos especiais que, ao contrário de outros filmes da saga, existiam em segundo plano, coexistindo com a maior das naturalidades com os actores e própria acção, não se sobrepondo a estes. De realçar também a fantástica banda sonora criada por John Williams, com um tema principal que será, para sempre, sinónimo de Harry Potter. O tom “naive” de Pedra Filosofal demarca-o de todos os outros filmes da saga, que, rapidamente, se foram tornando cada vez mais negros e menos “infantis”. Essa “evolução”, chamemos-lhe assim, começou com O Prisioneiro de Azkaban, quiçá o melhor da série. Realizado por Alfonso Cuarón, Azkaban demarca-se, também ele dos seus antecessores, possuindo um estilo próprio e bastante distinto do anterior. Com um tom mais negro e sério, mostra o crescimento dos protagonistas, conseguindo impor um ritmo interessante com base num argumento bastante sólido.

 

Mike Newell sucedeu a Cuáron no lugar de realizador e isso notou-se no ecrã; de regresso ao mesmo estilo de realização, com um argumento menos conseguido e algo previsível, começa-se a notar algum “abuso” dos efeitos especiais, que embora espectaculares, distraem em demasia (algo que se viria a notar ainda mais no 5º filme). Cálice de Fogo tem, no entanto, alguns pontos bastante positivos, desde logo, a banda sonora de Patrick Doyle com o excelente “Cedric’s Theme”, mas principalmente, a introdução de (mais um) grande actor, desta vez, Ralph Fiennes no papel de Lord Voldemort. Embora ainda algo “tímido” nesta primeira aparição, Fiennes consegue, numa única cena, roubar, completamente, com a sua interpretação raivosa e maquiavélica do vilão.

O primeiro filme da série, realizada por David Yates, que viria ainda a realizar os 6º e 7º filmes, foi, para mim, o pior de toda a saga. A Ordem da Fénix foi um verdadeiro fracasso por diversas razões: pelo péssimo argumento, terrivelmente compactado (Yates conseguiu transformar o livro mais longo, no filme mais curto) e muito inconsistente em termos não só de ritmo como de relevância, cortando ainda uma imensidão de passagens importantes do livro; também o tal abuso dos efeitos especiais, que sobrepondo-se aos próprios actores e à acção, despojaram o filme de algum do seu humanismo e da condição de história, tornando, por vezes, em mero “espectáculo digital”. A estreia de Yates não foi então, nada auspiciosa e assim se manteve em O Príncipe Misterioso que nem no argumento e na forma como o filme é construído, o seu ponto mais fraco. Ao ver o filme, senti um enorme vazio em termos de história, de informação, e ao mesmo tempo, notei a perfeita futilidade de inúmeras cenas. De um livro repleto de informação e de background de personagens como Voldemort e Snape, ficou um filme repleto de futilidades e oco de história. Mesmo uma das cenas mais emotivas relatada no livro, nomeadamente, a morte de Dumbledore parece algo apressada e fria no ecrã. Salva-se em O Príncipe Misterioso, a fotografia, bastante mais interessante que as anteriores e, como sempre, os actores secundários: Michael Gambon, Alan Rickman, Ralph Fiennes, Maggie Smith, que nunca, até à 2ª parte de Talismãs da Morte, tiveram o tempo de ecrã que o seu talento merecia. E esse é para mim, uma das falhas da saga, o facto de contar com alguns dos melhores actores do cinema, alguns deles que ainda por cima interpretavam algumas das personagens mais complexas, interessantes e importantes, diga-se, e de lhes ter reduzido, em alguns filmes, a duas ou três linhas é realmente uma pena e um desperdício de talento. Enfim, começava-se a aproximar o grande final da saga, com rumores de 3D e divisão do filme em duas partes. Confirmou-se a divisão, para alguns, escusada, para mim, justificada depois de ver a 2ª parte, que ao contrário da 1ª foi, então, a 3D. Sinceramente não creio que uma ou duas cenas com maior impacto justifiquem o uso do 3D, principalmente quando essa particularidade acresce o valor do bilhete em 2,50€. Mas este abuso do 3D tem ultimamente sido recorrente e são inúmeros os casos de filmes em que a sua utilização não se justifica, verdadeiramente. Enfim, Talismãs da Morte parte 2 é um filme quase de preparação para a parte 2. Apesar de ter pouca acção e muita informação, consegue manter o interesse apesar do ritmo lento, fruto sobretudo de um bom argumento, equilibrado, e do bom trabalho de câmara, para não falar do excelente trabalho a nível de direcção de fotografia do “nosso” Eduardo Serra. O final algo inconclusivo do filme ajuda à “missão” de nos deixar ainda mais na expectativa para a 2ª parte, o grande final.

 

Chegamos então ao último capítulo de Harry Potter, com um final digno para a saga. Não é certamente tão bom como o livro, nenhum deles é, mas Talismãs da Morte parte 2 é um bom filme, com momentos muito bem conseguidos, de grande emotividade; com enormes interpretações dos secundários Alan Rickman e Ralph Fiennes (fala-se muito da nomeação de Rickman, principalmente, ao Óscar), além das de Helena Bonham Carter, Michael Gambon e Maggie Smith, confirmando, mais uma vez, que apesar do esforço dos mais novos (Daniel Radcliffe, Rupert Grint e Emma Watson), é deles o ecrã. Não só a fotografia e as interpretações, o filme é também forte a nível de argumento, conseguindo impor um ritmo forte e constante e, como já tinha dito, uma emotividade e um sentido de dramatismo que sempre faltou nos filmes anteriores. Mas mais do que graças à realização, é graças a Alan Rickman e à forma como soube explorar aquela que é sem dúvida a personagem mais complexa e interessante de Harry Potter, Snape. E é nos pequenos momentos, como a morte de Snape ou a de Lily, e não nas grandes cenas de batalha com grandes efeitos especiais, que está o grande trunfo deste Harry Potter e é principalmente graças a estas e outras cenas que este último capítulo é um filme bem conseguida, mas mais importante do que isso, é um bom final para uma saga que teve os seus altos e baixos, com filmes bons e maus, mas que pelo menos acaba com dignidade e é digna dos livros que lhe deram origem.

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