“That’s How I Love You” – Mergulhar entre os signos da ruralidade

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O filme abre com um plano zenital sobre um curral. A câmara afasta-se lentamente. Algumas galinhas percorrem a tela castanha, preenchida por estrume. Uma criança atravessa o plano e agarra uma galinha, que a sua avó carregará no colo para a decepar, depenar e cozinhar. Este processo é retratado através de planos com uma composição cuidada, onde os detalhes visuais se tornam vestígios simbólicos da vida rural: a cabeça da galinha cortada; uma panela a fumegar com os vestígios das suas penas; um cepo ensanguentado, onde se encontra cravada a lâmina de um machado; a galinha depenada, reluzente, dentro de uma bacia, pronta para ser colocada na panela onde irá ser cozinhada. 

São os signos da ruralidade que rodeiam esta criança, que supomos ter sido deixada no campo ao cuidado dos avós. Se podemos apontar uma qualidade a esta curta-metragem é a sua capacidade em transformar a vida em cinema e o cinema em vida. Esta particularidade de realização remete para a ideia de Robert Bresson acerca de duas mortes e de três nascimentos: do filme que nasce na cabeça para morrer no papel; que ressuscita pelas pessoas e objetos filmados que morrem na película; e da projeção no ecrã, que reanima todas as coisas como «flores na água». Fazer cinema é colocar em acto aquilo que o filme traz em potência dentro de si. O fascínio de ver cinema não está na compreensão de uma história que nos é contada com imagens, mas na forma como essas imagens fazem reflorescer a vida interna de todas as coisas que habitam o filme. Assim, a vida quotidiana desta criança que aprende o que é a vida campestre está mais na forma como ela aparece mergulhada entre os signos que a rodeiam do que no retracto fiel de um facto, de uma narrativa, de uma memória.

Talvez o filme seja sobre as memórias de uma criança quando passou tempo com os avós no campo; ou sobre as conversas com o seu avô enquanto fumavam um cigarro; ou sobre o seu contacto com os animais e a compaixão que viu nascer dentro de si. Independentemente dos temas possíveis, entre a autobiografia e a ficção, um bom filme tem uma pulsação própria – que é o caso desta curta-metragem.