“A Meia-Irmã Feia”: aprender a ser invisível

“A Meia-Irmã Feia”, de Emilie Blichfeldt, expõe a violência da norma estética ao deslocar o foco da Cinderela para a figura excluída
A Meia-Irmã Feia A Meia-Irmã Feia
“A Meia-Irmã Feia” (2025), de Emilie Blichfeldt

A Meia-Irmã Feia” parte de um gesto simples, mas explosivo: deslocar o centro do conto da Cinderela para a figura que, tradicionalmente, existe apenas como uma caricatura. O filme de Emilie Blichfeldt não pretende corrigir a fábula nem humanizá-la através de uma mera inversão moral. O que lhe interessa é algo mais cómodo. Observar como o olhar normativo fabrica monstros e como esse processo é vivido, inscrito e sofrido no corpo.

Desde o início, o filme esclarece que não estamos perante um reinterpretação reconfortante. A encenação recusa um tom lúcido ou irónico que muitas versões contemporâneas do imaginário clássico adotam. Pelo contrário, Blichfeldt filma este universo com uma seriedade quase cruel, como se o conto de fadas fosse, afinal, um sistema disciplinar. A beleza, aqui, não é um atributo, é uma exigência.

A opção de centrar a narrativa na “irmã feia” transforma o filme numa crítica direta à pedagogia estética que atravessa o feminino desde a infância. Não se trata apenas de uma exclusão social, mas de uma interiorização progressiva deste desajuste. A protagonista não é rejeitada apenas pelos outros. Aprende a rejeitar-se a si própria. O horror do filme nasce precisamente aqui: quando o olhar exterior se transforma em voz interior.

Formalmente, “A Meia-Irmã Feia” trabalha numa zona de tensão entre o realismo psicológico e uma estilização perturbadora. O corpo é filmado como um território de conflito. Está presente uma insistência na materialidade (pele, peso, gestos, imperfeições) que impede qualquer leitura alegórica fácil. Quando o filme se aproxima do grotesco, fá-lo sem qualquer distanciamento irónico. O desconforto não é um efeito estético. É um posicionamento ético.

Um dos méritos do filme está na recusa de uma redenção fácil. A narrativa não se organiza à volta de uma vitória simbólica sobre o sistema que oprime a protagonista. Não existe a fantasia liberal do “aceita-te a ti mesma e tudo ficará bem”. Blichfeldt parece mais interessada em demonstrar como certos danos não se resolvem, apenas se transformam. A violência da norma deixa marcas que não desaparecem com um gesto de afirmação.

Assistimos também a uma dimensão crítica subtil na forma como o filme lida com o conto original. “A Meia-Irmã Feia” não destrói o mito, expõe a sua lógica interna. O príncipe, o baile, o sapatinho, todos os elementos permanecem, mas são filmados como dispositivos de seleção, quase clínicos. A fábula revela-se um ritual de triagem, onde só um corpo é considerado digno de futuro.

A estreia de Emilie Blichfeldt revela uma realizadora com uma consciência formal pouco comum para uma primeira obra. O controlo do tom é rigoroso, por vezes quase excessivo, mas nunca gratuito. Se o filme se fecha, por vezes, demasiado sobre o sofrimento da protagonista, fá-lo como uma escolha deliberada, como que dizendo que o mundo não se abre para quem não se encaixa.

A Meia-Irmã Feia” não é um filme fácil, nem aparenta querer sê-lo. A sua força reside precisamente na recusa do conforto, na insistência em olhar para aquilo que a tradição narrativa empurrou para fora do quadro. Mais do que recontar uma história conhecida, questiona o custo humano das histórias que escolhemos repetir.

No final, sobra um mal-estar persistente. A sensação de que, por trás de cada conto de fadas, existe alguém que aprende, cedo demais, que o mundo não foi desenhado para si. E que essa aprendizagem, uma vez feita, é quase impossível de esquecer.

A Meia-Irmã Feia
“A Meia-Irmã Feia”: aprender a ser invisível
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