“As Guerreiras do K-pop” nasce de uma ideia que, à partida, parece irresistível: cruzar o universo hiper-codificado do K-pop com a lógica clássica do filme de caçadores de monstros. Ídolos pop que, entre concertos e coreografias milimetricamente ensaiadas, combatem forças demoníacas que ameaçam o mundo. O conceito é forte, imediatamente comunicável e perfeitamente alinhado com uma cultura audiovisual onde identidade, performance e fantasia coexistem sem fricção aparente.
O problema do filme não está na premissa, mas na forma como ela é explorada.
A animação é vibrante, tecnicamente competente, por vezes impressionante no uso da cor, do ritmo e da montagem musical. O filme entende bem a gramática visual do K-pop: o excesso, o brilho, a frontalidade do espetáculo, a energia coreografada até ao último gesto. No entanto, essa mesma fluidez torna-se o seu maior limite. “As Guerreiras do K-pop” raramente abranda o suficiente para permitir que as imagens respirem ou que as personagens ganhem espessura. Tudo acontece com a eficiência de um videoclipe estendido.
As protagonistas são desenhadas como arquétipos claros: a líder confiante, a rebelde, a sensível, e nunca verdadeiramente ultrapassam essa condição. O filme parece mais interessado em manter o ritmo do que permitir contradições, falhas ou ambiguidades. O conflito interior é sempre resolvido de forma funcional, quase administrativa, para que o espetáculo possa continuar sem sobressaltos.
Há, no entanto, uma ironia curiosa que o filme não nega explorar: o paralelismo entre o mundo do entretenimento pop e o combate aos demónios. Ambos exigem máscaras, controlo de imagem, disciplina extrema e uma constante repressão da fragilidade. Esta poderia ser a zona mais interessante do filme. A ideia de que o verdadeiro inimigo talvez não esteja fora, mas na lógica de perfeição imposta às próprias heroínas. Mas “As Guerreiras do K-pop” recua sempre que se aproxima dessa possibilidade, optando por soluções mais seguras e narrativamente previsíveis.
Nesse sentido, o filme sabe demasiado bem o que é. Conhece o seu público, conhece as suas referências, conhece os seus limites comerciais. Não arrisca falhas, e por isso raramente surpreende. Prefere neutralizar qualquer tensão potencial através do humor, da música e da ação contínua.
Isto não significa que o filme falhe completamente. Pelo contrário, cumpre eficazmente aquilo a que se propõe. É dinâmico, acessível, visualmente apelativo e atento culturalmente. Mas permanece à superfície daquilo que poderia ter sido um comentário mais incisivo sobre identidade, performance e consumo. A luta contra os demónios é demasiado literal. Nunca se transforma verdadeiramente numa metáfora inquietante.
No final, “As Guerreiras do K-pop” deixa a sensação de um produto bem afinado, mas excessivamente polido. Um filme que entende o poder do espetáculo, mas não se permite questioná-lo. Vemos personagens que combatem monstros com convicção, mas raramente vemos o peso real dessa batalha inscrito nos seus corpos ou nas suas escolhas. Tudo regressa rapidamente ao brilho, à música, à pose.
Talvez seja essa a sua maior fragilidade e, paradoxalmente, a sua maior honestidade. “As Guerreiras do K-pop” é um filme que acredita no espetáculo como resposta suficiente. E, ao fazê-lo, revela sem querer a dificuldade contemporânea em imaginar narrativas populares que não precisem de estar constantemente em palco.

