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Berlim 2020: Confirma-se passado Nazi de Alfred Bauer, fundador do Festival

Em agosto, a direção do Festival Internacional de Cinema de Berlim tinha anunciado várias mudanças nos seus prémios, sendo uma delas a mudança de nome do antigo Prémio Alfred Bauer do Urso de Prata, para Urso de Prata do Júri. Estas mudanças seriam para aplicar já na 71.ª edição da Berlinale, que irá decorrer de 11 a 21 de fevereiro de 2021.

O prémio, que usava o nome do diretor fundador do Festival, foi suspenso devido à descoberta de ligações de Alfred Bauer ao movimento Nazi, tendo estado diretamente envolvido numa organização de propaganda criada por Joseph Goebbels.

O Festival encomendou uma investigação aprofundada sobre o passado nazi de Alfred Bauer (1911-1986), que veio a confirmar que o seu papel no corpo de propaganda do Terceiro Reich era mais significativo do que se sabia até hoje. O estudo também revelou que Bauer tentou sistematicamente encobrir o seu passado nazi.

A investigação de sete meses foi realizada pelo Instituto Leibniz de História Contemporânea (IfZ) após a publicação de um artigo polémico no jornal alemão Zeit na véspera da 70.ª edição do Festival de Berlim.

Com base nos documentos do German Federal Film Archive, o artigo do Zeit revelou que Bauer havia sido um nazi de alto escalão durante a Segunda Guerra Mundial. O estudo confirmou que Bauer desempenhou um papel fundamental no Reichsfilmintendanz, o órgão dirigente da política cinematográfica nacional-socialista, que foi criado por decreto de Joseph Goebbels, Ministro do Reich, em 1942. Bauer serviu como conselheiro do Reichsfilmintendant e continuou a sua carreira na indústria cinematográfica alemã muito tempo depois. Em 1951, ele tornou-se o primeiro diretor do recém-fundado Festival Internacional de Cinema de Berlim – cargo que ocupou até 1976.

Durante o seu processo de desnazificação de 1945 a 1947, Bauer “tentou ocultar o seu papel no regime nazi com base em declarações falsas, meias-verdades e reivindicações e, construiu uma imagem com a qual se apresentou como um oponente do regime nazi”.

“As novas descobertas, agora cientificamente pesquisadas, sobre as responsabilidades de Alfred Bauer no Reichsfilmintendanz e o seu comportamento no processo de desnazificação são surpreendentes. No entanto, eles constituem um elemento importante no processo de lidar com o passado nazi de instituições culturais fundadas depois de 1945”, disse a diretora executiva do Festival de Cinema de Berlim, Mariette Rissenbeek.

“…O novo conhecimento também muda a visão dos anos de fundação da Berlinale”, disse Rissenbeek, acrescentando que o estudo do IfZ destaca que continuam a existir imensas lacunas de pesquisa na análise histórica da indústria cinematográfica do pós-guerra.

O Prémio Alfred Bauer, atribuído desde 1987, já premiou filmes como “Romeu + Julieta” (1997), de Baz Luhrmann, “Herói” (2002), de Zhang Yimou, e “Tabu” (2012), de Miguel Gomes.