O Cinema Sétima Arte esteve à conversa com o autor e investigador Carlos Melo Ferreira, a propósito do lançamento do seu livro “Pedro Costa”, editado pela Edições Afrontamento, que contou com a colaboração do cineasta. O também professor de cinema tem dedicado a sua vida ao serviço do cinema, através do ensino, da publicação de artigos e livros e da investigação.

Carlos Melo Ferreira é natural de Lisboa, Doutorado em Ciências da Comunicação, especialidade de Cinema, pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa.

É Professor jubilado da Escola Superior Artística do Porto e investigador integrado do Centro de Estudos Arnaldo Araújo (Unidade de I&D da FCT), foi também docente convidado do Mestrado em Comunicação Audiovisual da Escola Superior de Música e das Artes do Espetáculo do Instituto Politécnico do Porto.

É membro da Associação de Investigadores da Imagem em Movimento (AIM). Publicou “O cinema de Alfred Hitchcock” (1985), “Truffaut e o cinema” (1991), “As poéticas do cinema” (2004) e “Cinema – Uma arte impura” (2011) nas Edições Afrontamento, mais “Cruzamentos – Estudos de Arte, Cinema e Arquitectura” (2007), “Corte e Abertura” (2015) e “Cinema Clássico Americano: Géneros e Génio em Howard Hawks” (2018) nas Edições 70. Em 2012 criou o blogue Some like it cool, que, em 2017, deu lugar ao seu novo blogue Some like it hot.


Cinema Sétima Arte: Publicou recentemente o livro “Cinema Clássico Americano: Géneros e génio em Howard Hawks”. No caso do cinema clássico português, quem é que seria o Hawks português?

Carlos Melo Ferreira: Jorge Brum do Canto foi Howard Hawks e John Ford no cinema clássico português.

C7A: Tem dedicado e continua a dedicar a sua vida ao ensino e ao cinema. Inspirou muitos que beberam da sua cinefilia. Conte-nos um pouco do que significa para si o ensino e, em particular, o ensino do cinema. 

CMF: Essencialmente trata-se de transmitir informação e conhecimentos sobre o cinema aos meus alunos, incentivando-os a desenvolver o seu gosto pessoal.

C7A: Hoje em dia assistimos à publicação de vários trabalhos de investigação sobre cinema em Portugal. Há quem afirme que os cursos de cinema são irrelevantes e que o cinema nasce e tem mais valor pela experiência do que pela teoria. Como investigador, qual a sua opinião?

CMF: O ensino do cinema deve aliar história, teoria e prática por forma a cumprir a sua função junto dos alunos, embora a experiência fora do ensino possa apresentar valor próprio.

C7A: Fale-nos um pouco da sua relação com Pedro Costa e com o seu cinema.

CMF: Aproximou-nos termos seguido assiduamente os grandes ciclos de cinema da Fundação Gulbenkian, programados por João Bénard da Costa na década de 70, depois entre a Cinemateca e a Gulbenkian. De resto, acompanhei desde o seu início a obra de Pedro Costa como cineasta e também, tanto quanto possível, como artista visual. O que penso a seu respeito consta do livro que agora lhe dediquei.

C7A: Quanto à nova geração de cineastas portugueses, existem já grandes realizadores e realizadoras. No entanto, em Portugal, continuam sem público. Como poderíamos colmatar isto? Como é que a educação e, por exemplo, o plano nacional de cinema poderiam fazer renascer uma cinefilia que tem vindo a desaparecer?

CMF: É importante a informação sobre o que o cinema foi, tal como o conhecimento daquilo que ele é na atualidade. Trata-se do desenvolvimento de um gosto pessoal em cada um e do aperfeiçoamento da relação com a vida, a arte e o próprio cinema. Bem orientado, o plano nacional de cinema pode ser favorável, mal tratado pode ser contraproducente como um “cinema obrigatório”.

C7A: Quanto à nova geração de crítica de cinema, passa essencialmente por blogues do que pelos grandes jornais. Qual o peso dos blogues nesse papel educativo?

CMF: Depende da informação, do conhecimento, da exigência, da dedicação e do gosto dos autores de cada blogue.

C7A: Quanto à sala de cinema e o seu desaparecimento gradual e a proliferação do cinema digital dito doméstico ou privado, como é que isto afeta a perceção do público em relação ao cinema e à sala de cinema?

CMF: Permite o acesso a filmes, mesmo a filmes essenciais da história do cinema, enquanto se dilui a ideia de cinema como espetáculo público, que o tem acompanhado desde a sua origem.

C7A: Em 2011 publicou “Cinema, uma arte impura”. Na capa desse livro usou um frame de “Juventude em Marcha”, de Pedro Costa. Ou seja, o cinema de Costa sempre esteve ligado à sua escrita… Que outros realizadores, para além de Costa, Howard Hawks e os irmãos Coen, mais ficaram consigo?

CMF: Desde antes desse livro que o cinema de Pedro Costa me interessa pois me permite descobrir todas as referências de cada filme e acompanhar o desenvolvimento de uma temática e de uma estética que me interessam. Seria longo e fastidioso fazer uma lista. Permito-me, mesmo assim, responder que me acompanham no cinema mudo David W. Griffith, Charlie Chaplin, Buster Keaton, Erich Von Stroheim e Robert Flaherty, Friedrich W. Murnau e Fritz Lang, Sergei Eisenstein e Alexandr Dovjenko; no cinema clássico Alfred Hitchcock (sobre o qual escrevi um livro) e Fritz Lang, Jean Renoir e Jean Vigo, Kenji Mizoguchi e Yasujiro Ozu, Raoul Walsh e King Vidor além dos já mencionados John Ford e Howard Hawks; no cinema moderno Orson Welles, Anthony Mann e Nicholas Ray, Ingmar Bergman e Michelangelo Antonioni, Robert Bresson e Manoel de Oliveira, François Truffaut (sobre o qual também escrevi um livro), Alain Resnais, Jean-Luc Godard, Jacques Demy e Jean Marie Straub/Danièle Huillet, John Cassavetes, Frederick Wiseman e Abbas Kiarostami, Edward Yang e Hou Hsiao-hsien; no cinema contemporâneo, sobretudo os asiáticos Jia Zhang-ke e Wang Bing, Hong Sang-soo, Tsai Ming-Liang e Apichatpong Weeresathakul, mas também Béla Tarr, David Cronenberg e James Gray, para além dos mencionados na pergunta. Mas tenho uma estima especial pelos realizadores que melhor trabalharam na Série B, como Edgar J. Ulmer e Jacques Tourneur, Joseph H. Lewis, Sam Fuller, Donald Siegel e Budd Boetticher, mais recentemente John Carpenter.

C7A: Por último, de que forma é que podemos unir o cinema dito popular ao cinema de autor de uma forma saudável na programação dos nossos cineclubes? Isto porque encontramos muito de um lado e pouco do outro. Como é que se pode atingir um equilíbrio?

CMF: Seria preciso mostrar o melhor de cada um, sem minimizar o cinema comercial nem sobrevalorizar o cinema de autor. Sem desprezo pelo primeiro nem receio do segundo, mas tendo em atenção que o cinema de autor é menos conhecido porque menos divulgado.