Figura incontornável do cinema português. Produtor, distribuidor, exibidor e amador de cinema, Paulo Branco abriu-nos as portas do seu escritório (de janela com vista sobre a Sé Velha) para nos confirmar o sucesso de programação na sua sala do Cinema Nimas. Há algumas semanas foi notícia o fecho de salas em Portugal, mas também se repetiam sessões esgotadas nos ciclos do Alfred Hitchcock e do João César Monteiro.
A conversa evoluiu ainda sobre a pegada de Branco na exibição independente em Paris, no seu encontro (e história particular) com Godard, e tantos talentos do cinema europeu, que viria a produzir, o período áureo dos cinemas King e o fenómeno da programação mensal do Nimas.
A terminar com os novos filmes e os ciclos: além de Jean Eustache e Phillip Garrel (já em exibição), seguem-se Agnès Varda, Michael Heneke e Otar Iosseliani. Além de novas estreias de produções suas, como o muito aguardado “Memórias do Cárcere”, do Sérgio Graciano, e “O Massacre de Gilles de Rais”, de Juan Branco. Vamos ao Nimas?
Revelou recentemente os números de espetadores do ano passado no Nimas. Foi um balanço incrível, não foi?
Sim, o ICA publicou números oficiais. E tivemos aqui na Medeia Filmes números absolutamente inesperados, mesmo para nós. Digamos que houve uma aceitação do público que ultrapassou o que podíamos imaginar. Mas isto foi fruto de um trabalho que começou a desenvolver-se há muitos anos.
E quais foram eles?
O ano passado fizemos exatamente, segundo os nossos números, 88.500 espectadores no ano. Quer dizer, cerca de 90.000 espectadores, o que dá uma média absolutamente extraordinária. Para mim, é um orgulho e ao mesmo tempo contentamento, ao ver que tive sessões do ciclo João César Monteiro esgotadas, algumas delas com alguns dias de antecedência, entre elas o “Branca de Neve”.
Eu fui ao “Branca de Nev”e, comprei o último bilhete. E tentei ainda bilhetes para o ciclo do João César Monteiro, mas deparei-me com diversas sessões esgotadas. Não me lembro de isso acontecer.
É verdade. Ficámos muito contentes. O César foi sempre um cineasta que ficou, que marcou e que está na memória das pessoas. Algumas vezes por motivos completamente errados. Mas marcou e existe.
Não estava à espera. E ninguém saiu da sala. Ou seja, havia uma vontade de ultrapassar aqueles ‘soundbites’, que todos conhecemos, da altura em que o filme estreou.
Foi uma sensação extraordinária também pela recepção do filme. Foi visto em silêncio e com uma atenção absoluta.
Com a intenção de compreender o projeto, de ir ao encontro da intenção do César…
Sim, de perceber o que é realmente a obra, não é? Agora, o tempo também ajuda nisso. Porque toda aquela parte mais polémica ainda existe, mas já não contamina.
Será ele também um cineasta ‘cool’, como o Paulo referiu no outro dia?
O João César é um cineasta ‘cool’, no sentido que nunca desapareceu dos radares. Havia um acesso difícil aos filmes deles por várias razões: uma por questões de direitos, outra porque as projeções de 35mm desapareceram. Enquanto não houve a digitalização, havia essa dificuldade. E depois ninguém se preocupava de manter viva a chama, tirando a Cinemateca. Mas eu sabia que o César era dos cineastas que eu produzi aquele que mais tocava aos espectadores.
Porque há novas gerações que não o viram, não é?
Sim, há novas gerações. É uma obra de tal maneira singular que as pessoas veem nos filmes dele algo que não há em qualquer outro filme da cinematografia portuguesa. Portanto, quando comecei a ter a possibilidade eu próprio de me ocupar da difusão dos filmes, com o acordo que fiz com a NOS…
Em relação ao César, mas não só…
Em relação ao César e a uma grande parte do cinema português.
Sente que com a digitalização do cinema português, existir um certo reavivar na cinefilia que leva as pessoas às salas para ver cinema de património (e não só)?
Vamos lá ver, a relação com o cinema não mudou por conta da digitalização. A relação com o cinema mudou. A questão da cinefilia tem a ver com o cinema enquanto objeto de arte. Mas não é só a relação com as imagens, sem haver um trabalho do espectador, por estar disponível para que os filmes lhe tragam algo mais do que um simples desfilar de imagens. O que me interessa na cinefilia é isso. É essa relação de criar e apoiar as pessoas para que vejam cinema.
Já agora, que vejam cinema português, certo?
A minha relação com o cinema português, mas também com as outras cinematografias, é essa. Mas acho que isso não vai revelar, contrariamente ao que se diz, obras fílmicas extraordinárias que tenham passado despercebido. Os filmes que resistem não tiveram uma grande modificação em relação àqueles que destacados pela história do cinema.
O Oliveira também, não é?
Alguns Oliveiras, porque a família recuperou outros. Percebi essa apetência, também ao nível internacional. Entretanto, o MOMA, em Nova Iorque, avançou com uma retrospetiva. A RAI também está a difundir os filmes. Noutros países também começa a haver um interesse pelo César. Achei que era a altura de avançar. Até porque já tinha feito uma ou duas projeções de alguns filmes e apercebi-me que havia necessidade de disponibilizar a obra toda para quem o quisesse ver de uma maneira contínua. Daí esta retrospectiva.
É até compreender o realizador e aquilo que ele disse, pois tinha razão de o dizer…
Foi importante também fazer essa explicação, fazer um enquadramento do filme na obra do João, porque era a primeira vez o filme que voltava à sala. O trabalho das salas de cinema é isso. De uma certa maneira, manter essa cinefilia na escolha dos filmes que passam. Os próprios multiplexes deviam ter mais cuidado a esse nível. E não têm…
E porquê?
Quando os espetadores começam a sentir que é perder tempo de ir ao cinema, porque podem ver na televisão, aí perdem os espectadores.
Tem que haver algo mais, não é? Algo que leve as pessoas verdadeiramente ao cinema.
Certo. E que haja uma escolha mais criteriosa dos filmes.
Sim, uma curadoria.
Até porque não é preciso estrear tantos filmes em Portugal. E devia haver uma escolha maior na cinematografia americana. As pessoas devem saber o que é que vão ver, para não saírem defraudadas. Por exemplo, às vezes, anuncia-se um filme português para o grande público. Mas as pessoas vão ver e percebem que aquilo, afinal, é uma fraude completa. Isso acaba por ser uma perda de espectadores para outros filmes que poderiam ter mais público, que poderiam ter um acesso ao grande público.
Acha que o acesso em suporte digital (DCP) ao catálogo de filmes portugueses pode alterar isso?
A digitalização do catálogo português não vai trazer grandes surpresas. E é preciso não esquecer, como eu dizia no outro dia, que a cinematografia portuguesa é mínima. Em 130 anos de cinema ter 450 longas metragens é absolutamente ridículo. Felizmente, dentro destas 450, posso dizer que há entre 50 a 100 filmes que valem realmente a pena. O que, para qualquer cinematografia, apesar de tudo, é uma média extraordinária. Agora é preciso trabalhá-los, para que não sejam esquecidos. Como o trabalho do Oliveira, do José Álvaro Moraes, é algo que tem que ser feito. Não se pode esquecer.

Ainda a propósito de cinefilia, pedia-lhe uma viagem no tempo: será que podemos fazer um rapport entre o seu trabalho de programação na sala do Nimas e aquele que fez, há umas décadas, no Action République, em Paris?
Há uma relação…
Isto já num período pós-maio de 68.
Sim, há uma relação muito importante em relação ao trabalho que fiz em Paris, em 1977, pois aí tive a possibilidade de poder programar uma, numa cidade onde a oferta cinematográfica era imensa. Quando isso se concretizou, percebi que podia algo distinto do que faziam as outras todas. E foi esse trabalho que me fez entrar em contato com a maior parte dos realizadores que vim a produzir depois: o Oliveira, através do “Amor de Perdição”, o Raúl Ruiz, ao longo de vários filmes, o próprio Alan Tanner, o Werner Schroeter, muitos outros… E outros cineastas franceses que, entretanto, apareceram e eu depois também promovi. Portanto, aquilo foi o início um pouco de tudo. Aliás, nessa altura eu nem sequer pensava alguma vez em ser produtor. Isso foi depois.
E quando regressou a Portugal, já sabia que haveria de ser também exibidor?
Eu nunca pensei ser distribuidor. Em Portugal, só a certa altura me percebi que era absurdo não ter uma sala. Isto numa altura em que a oferta era limitadíssima e quando me apercebo, de repente, que durante um mês só haviam filmes americanos nas salas. Nem um único filme europeu.
Isto foi exatamente quando?
Foi nos anos 80. Foi aí que eu decidi ir para o Fórum Picoas. Foi aí que começou a minha experiência de exibidor e distribuidor. E que percebi que tinha que arranjar um espaço para mostrar.
Sim, ainda muito antes dos cinemas King.
O King acontece depois de me expularem do Fórum Picoas. É aí que avanço para os Kings. O trabalho começa com a (distribuidora) Castello Lopes a desaparecer e uma grande concentração de salas na Lusomundo. Nessa altura, tive a ideia peregrina de resistir e de ter um multiplex. É, aliás, nessa altura que aparece o El Corte Inglés, que eu cheguei a tentar ficar, mas não consegui.
O Paulo Branco ainda chegou a ter um pequeno império de exibição.
Eu, com o King, o Freeport, o Alvaláxia, e com as salas espalhadas pelo país, deveria ter perto de 80 salas.
Uma espécie de Coronel (Luís Silva, o ‘patrão’ da Lusomundo) (risos)…
Eu, fazer concorrência ao Coronel? Logicamente, não fiz concorrência a nenhuma. Ele safou-se na altura certa. Mas tinha algum respeito por mim, tem piada. E fui dos primeiros a saber que ele tinha vendido a Lusomundo à PT. Eu tinha uma relação tensa com ele, mas ele respeitava-me muito. Entretanto, fui também reduzindo o espaço até àquele que tenho neste momento (o cinema Nimas). E estou já a começar a preparar a próxima programação.
É o Paulo que faz a programação?
Sim, sou eu que faço a programação toda do Nimas. É claro que ando sempre a ver ideias, aqui e ali. E depois o Tó (António Costa, gestor do cinema Nimas) tem um trabalho fantástico, no jornal, na escrita dos textos. O Tó é o grande editorialista a comunicar a minha programação. A programação mensal é pensada como se fosse uma…
Uma cinemateca.
Quase. Mas com a liberdade que a Cinemateca não tem. Porque incluímos os filmes novos. Por exemplo, se um filme corre bem, passamos várias vezes. Isso é algo que eu
aprendi com a programação na província, a explorar os filmes e ter uma relação diferente. E fui aprendendo à medida que ia vendo os resultados. E as pessoas também vão vendo aquilo que querem e gostam.
Isto num momento em que é notícia que fecham várias salas em todo o país…
Isso foi CinePlace. Algumas delas acho vão reabrir. Agora está numa fase de insolvência da sociedade, mas penso que grande parte das salas que fecharam vão abrir. O Alvaláxia também fechou quando fiz a insolvência, e reabriu depois, quando a NOS, a certa altura, decidiu comprar o Alvaláxia.
Mas esta é também numa altura em que o Nimas cria um período de sessões esgotadas e, claramente, com uma comunidade em redor dessa sala.
Os públicos criam-se. Lembro-me perfeitamente, quando peguei nos King’s, aquilo fazia, nas três salas, dez espectadores por dia.
O King? Dez espetadores por dia?…
Sim, nos primeiros seis meses, eram só dez espectadores. Toda a gente dizia que me tinha metido num buraco. Mas eu tinha confiança. Pouco a pouco, aquilo tornou-se um êxito estrondoso, com as três salas esgotadas e filmes esgotados durante várias semanas. O Nimas já existe há muitos anos, mas passou por várias fases.
Desde quando programa o Nimas?
Desde 1993. Numa altura de crise em que eu estava a fechar outras coisas. Até pensei a fechar também o Nimas. E o meu filho, José Maria, pegou naquilo e fez uma relação com concertos, coisas diferentes e manteve aquilo aberto. É preciso não esquecer que nessa altura não havia nenhum tipo de apoio do Estado às salas. Pouco a pouco fomos encontrando hoje a maneira de dar valor aos filmes.
Qual acha que é o seu segredo? O jornal mensal ajuda bastante.
Já lá vão cinco anos em que me lancei na programação mensal. Mas havia muita gente que não tinha o hábito de ver a programação mensal do Nimas, portanto, quando ia para ver um filme, já o filme tinha passado e já não podia ver. Agora a diferença é que as pessoas estão muito atentas.
O acesso ao cinema de património também tem ajudado. Veja-se esta recente operação Hitchcock…
Isso foi importante quando me lancei a comprar direitos dos filmes europeus. Os Bergmans, os Rossellinis. O Rossellini foi o nosso primeiro grande êxito; o Bergman, não foi surpresa, sabia que ia correr bem, tal como o Buñuel. Comecei a comprar os direitos destes filmes todos e comecei a programá-los à minha vontade. Isso permite diversificar a programação. Há muito trabalho nosso para que as salas estejam cheias.
Paulo Branco, a última vez que o entrevistei foi no lançamento do ciclo do Godard, aquele ciclo enorme, salvo erro, em 2016… Sei também que o conheceu. Gostava de recordar um bocadinho sobre este homem. Continua a ser um cineasta cool?
Para qualquer pessoa que é cinéfila, o Godard é uma personagem central na história do cinema, não é? Apesar de tudo, houve três ou quatro cineastas que revolucionaram, cada um no seu tempo, o Orson Welles – já nem falo do Griffith – mas o Rossellini, o Godard, e houve mais, mas estes são personagens marcantes. Falei uma vez, ao telefone, com o Orson Welles, conheci bem o Godard, e o Rossellini conheci muito bem, e conheço muito bem o Renzo, o Filho. Mas com o Jean-Luc, conheci-o bem. Por exemplo, quando abri o Action République queria abrir com os filmes ‘invisíveis’ do Godard…
Os seus filmes maoistas?
Sim, os filmes maoistas. Isso tudo. Só que ele não os mostrava a ninguém. E lembro- me que tinha havido um período de relações muito frias entre o Godard e os Cahiers, em que os Cahiers demoraram mais tempo a sair de Mao. Portanto, havia uma relação tensa com eles, o Serge Daney e o Serge Toubiana, na altura, uma criança, tal como eu, com os meus 26 anos, 27. Eles foram a Rolle (a sua casa. na Suíça), a casa do Jean-Luc, para o convidarem a fazer um número especial dos Cahiers, e o Serge diz-me: Paulo, vens connosco e fazes a tua proposta. Fui com eles, em 77, e fomos almoçar, em Rolle. Assustou-me muito, porque deles falavam pouco, havia silêncios enormes.
O Daney gozava com isso. Mas, pronto, fez-se o almoço, depois fomos para a casa dele. Foi nessa altura que lhe pedi se ele me podia ceder os filmes. Ele disse que sim e assim que foi. Abri a sala no dia 5 de outubro de 77, dia da República e um mês depois estava a fazer uma retrospectiva dos filmes do Godard. Algo que me deu algum impacto em Paris, sobretudo, porque há muitos anos não eram vistos. Era quase um gesto histórico. Depois também fui a Genève e conheci o Tanner. E pronto, foi o começo de uma relação. E lembro-me perfeitamente que um dia estava em Roterdão, para aí dois anos depois, para aí em 79, e conheci lá a viúva do Nick Ray, a Susan.
Isso no festival?
Sim, durante o festival. Ela foi lá passar o último filme dele, “We Can’t Go Home Again”. Eu perguntei-lhe porque não fazíamos uma projeção excecional no République. Ela concordou e viemos com a cópia 35mm do comboio, para Paris, para fazer a projeção. Ao sair do comboio, vejo o Godard, que também vinha no mesmo comboio. Viu-me com a Susan Ray e convidou-nos para um almoço. Ele tinha uma grande admiração pelo Nick Ray. O almoço foi excecional. Comecei a perceber que o Jean-Luc podia dar para qualquer lado, dependendo ou não do respeito que tinha pela pessoa que estava à frente. Voltei a vê-lo várias vezes.
Um dia, tive uma ideia de produzir um filme, na Lisboa Capital da Cultura. Ele disse que sim. Mas as coisas não correram bem. Já estava a implicar outros dinheiros, até que um dia cortei, disse-lhe que tinha de me devolver o dinheiro todo. E aí, durante dois anos, as relações foram muito tensas. Mas ele devolveu-me o dinheiro todo. A partir de aí voltámos a ter uma relação muito boa. Cheguei a estar duas vezes em casa dele.
Só para terminar, em relação à programação, o que teremos depois do Jean Eustache, do Philippe Garrell. A Agnès Varda, não é? E o que teremos mais?
Vamos ter ainda o Otar Iosseliani, o Michael Haneke. São grandes autores que ainda não tínhamos podido mostrar. Conheci muito bem a Agnès. Havia uma relação de amizade enorme, foi ela que me permitiu recomeçar a certa altura. O Otar também cá esteve várias vezes. É um cineasta imenso. Distribuí muitos filmes dele. Telefonou-me pouco antes de morrer. Eu senti, na altura, que ele estava a despedir-se. Foi terrível.
Como será o calendário, esse line-up?
O Garrel e o Eustache começaram a 19 de Fevereiro. A Varda é em Agosto e o Haneke no final do ano. O Ottar é que gostava de fazer ainda este ano, mas provavelmente vou guardá-lo para Janeiro, Fevereiro, ou ano que vem, não sei.

