Foi há 90 anos, a 6 de janeiro de 1928, em Nova Iorque, que estreou uma das comédias mais divertidas e criativas de sempre de Charles Chaplin, “O Circo”, um dos filmes que Chaplin menos gostava, tendo mencionado-o apenas uma vez na sua autobiografia.

“O Circo” (inicialmente com o titulo provisório de “O Palhaço”) presta homenagem à arte popular, que sempre inspirou Chaplin, a arte de fazer rir. Chaplin faz uma reflexão sobre o espectáculo e mostra as duras condições de se trabalhar num circo.

A terceira longa-metragem de Chaplin é uma deliciosa comédia sobre um circo impopular que contrata o pequeno vagabundo como palhaço, mas o dono do circo descobre que ele só tem piada inconscientemente, ou seja quando ele não tenta ter piada.

Este foi o último filme de Chaplin rodado a 16 imagens por segundo. Foi o último filme da era do mudo. O cinema sonoro surgiu em 1927, o que obrigou a aumentar a velocidade para 24 imagens por segundo. Chaplin manteve-se no cinema mudo durante mais doze anos, tendo “O Grande Ditador” (1940) sido o seu primeiro filme totalmente sonoro.

O filme está recheado de gags visuais, onde o talento de Chaplin na expressão corporal, está presente em grande força em cada cena. Destacam-se as cenas clássicas da jaula do leão, onde tudo o que vemos é verdadeiro, sem nenhum truque. A expressão de medo de Chaplin é real. Ou a cena dos macacos que atacam Charlot. Só Chaplin se lembraria de um cão a ladrar quando ele estivesse numa jaula com um leão. É nesta cena da jaula do leão que temos um ‘olhar de Charlot’, um procedimento bastante comum nos seus filmes, em que ele olha, a determinada altura, para a objectiva da câmera, questionando o espectador ou a si próprio.

“O Circo” é uma das obras-primas de Charles Chaplin, que apesar de não ter o poder de emocionar de “O Garoto” e o subtexto crítico e político de “O Grande Ditador”, é uma das suas comédias mais eficientes de sempre. “O Circo” foi a produção mais complicada que Chaplin já teve, daí que o próprio nunca tenha estimado este filme, tentando mencioná-lo o menos possível. Foram vários os obstáculos que dificultaram a rodagem nos estúdios de Chaplin, a começar por um grande incêndio ter destruído parte da tenda do circo, uma tempestade que levou parte dos cenários e as películas foram riscadas no laboratório. Para agravar tudo isto, a sua ex-mulher processou Chaplin e provocou um escândalo mediático, levando a que os seus filmes fossem boicotados. O filme chegou a ultrapassar os 950 mil dólares de orçamento, devido aos constantes atrasos na produção e à reconstrução de cenários. Ao fim de dez meses de paralisação, as rodagens recomeçaram e Chaplin terminou o filme, estreando-o em 1928. O filme sobreviveu estes 90 anos e continuará a ser uma obra obrigatória da filmografia de Chaplin. Chaplin chegou a receber um prémio especial da Academia (dos Óscares) na cerimónia de 1929, pela sua “versatilidade e génio na escrita, interpretação, realização e produção de O Circo”.

Já se escreveu imenso sobre a obra de Chaplin, pelo que neste artigo que comemora o 90º aniversário de “O Circo” pretende-se lembrar a belíssima banda sonora composta por Chaplin em 1968, quando decide relançar o filme com música composta pelo próprio. Ele escreveu e cantou, aos 79 anos de idade, a música ‘Swing Little Girl’. A voz que ouvimos logo no inicio do filme é a de Chaplin, a cantar uma das suas mais belas músicas, com uma letra encantadora: “olha para cima, para o céu e nunca, mas nunca olhes para baixo”. Uma mensagem de esperança, que Chaplin sempre adotou na sua obra. Um sorriso de esperança.

O filme vai ser exibido hoje (17 de fevereiro) no Festival Internacional de Cinema Infantil & Juvenil de Lisboa, no Cinema São Jorge, pelas 17h. “O Circo” será musicado ao vivo pelos artistas Márcia e Tomara.

A melhor forma de comemorar o 90º aniversário da estreia de “O Circo” é sem dúvida (re)vendo a obra, mas também ouvindo a sua banda sonora. Quem já viu o filme muitas vezes consegue “vê-lo” através da música que Chaplin escreveu. São 90 anos de uma das mais importantes obras do cinema, criada por um dos maiores génios do século XX, Charles Chaplin. Em 2018, “O Circo”, continua a fazer-nos rir e a emocionar-nos. Chaplin continua hoje a ser único e um dos artistas mais sensíveis de sempre.

Letra “Swing little girl”

Swing little girl
Swing high to the sky
And don’t ever look at the ground
If you’re looking for rainbows
Look up to the sky
You’ll never find rainbows
If you’re looking down

Life may be dreary
But never the same 
Some day it’s sunshine
Some day it’s rain

Swing little girl
Swing high to the sky
And don’t ever look to the ground
If you’re looking for rainbows
Look up to the sky
But never, no never, look down