No segundo dia, Cannes abriu-se para as mulheres, ou pelo menos tentou. Muito se tem falado da sua ausência na Competição: 22 filmes, apenas cinco realizados por elas. Talvez seja por isso que as mulheres não ocupam a vitrine principal do festival mas estão por toda a parte de forma mais simbólica: no belíssimo cartaz deste ano, uma homenagem a “Thelma & Louise”, e nos dailies, o programa impresso distribuído diariamente pelo festival. O diretor artístico Thierry Frémaux declarou logo no primeiro dia que jamais programaria um filme apenas por ter sido dirigido por uma mulher. Será então por isso que elas acabaram por ocupar tantos espaços simbólicos ao redor do festival, sem que a questão da representação chegasse verdadeiramente a entrar pela porta principal?
Neste segundo dia elas foram o centro das histórias. Coube ao japonês Koji Fukada inaugurar a Competição de 2026 com o muito inofensivo Nagi Notes. O filme acompanha o reencontro de duas ex-cunhadas numa cidade rural do interior japonês: Yoriko (Takako Matsu), escultora que vive reclusa em Nagi, convida Yuri (Shizuka Ishibashi), arquiteta de Tóquio recém-separada, para lhe servir de modelo para uma escultura. À medida que os dias passam, antigas tensões familiares e afetos não confessados retornam à superfície, com a delicadeza quase vegetal de quem não quer perturbar o silêncio que os rodeia. Fukada percorreu um longo caminho até aqui: passou pela Un Certain Regard com “Harmonium” em 2016, vencendo o Prémio do Júri; recebeu o “selo Cannes” em 2020 com “The Real Thing” naquela edição cancelada pela pandemia e esteve em Cannes Première no ano passado com “Love on Trial”. Esta é, portanto, a sua primeira entrada na Competição, um momento que deveria sentir-se como uma espécie de descoberta mas que não entusiasma. E talvez seja precisamente por isso que decepciona: o que deveria ser um salto revela-se mais um processo de cumprimento de formalidades, o gesto de quem finalmente ocupa o lugar que lhe estava reservado sem grande urgência de o conquistar. “Nagi Notes” é um filme que procura encontrar o sublime nos pequenos nadas do quotidiano, sereno na sua delicadeza e capaz de momentos de genuína ternura, mas sem a ambição de ser muito mais do que isso. Agradável, sim. Inesquecível, não.
Se o japonês nos deixa com a sensação de um filme que existe na surdina, o francês que se seguiu subiu um pouco o tom sem chegar propriamente a causar algum tipo de comoção. La Vie d’une Femme, segundo longa-metragem de Charline Bourgeois-Tacquet depois de “Les Amours d’Anaïs”, exibido na Semaine de la Critique em 2021, acompanha Gabrielle (Léa Drucker, sempre mgnética), cirurgiã maxilofacial de 55 anos completamente absorvida pelo trabalho e pelas responsabilidades familiares. O equilíbrio precário do seu quotidiano começa a vacilar quando uma escritora, Frida (Mélanie Thierry), se instala no seu turno hospitalar durante semanas para recolher material para um romance, observando-a de perto como quem estuda um espécime em laboratório.
É aqui que o filme convida, quase involuntariamente, a um confronto com referências que acabam por pesá-lo. Pensamos inevitavelmente num outro título recente de Cannes, o “May December” de Todd Haynes, onde uma atriz mergulhava na vida da mulher que vai interpretar e a relação entre observadora e observada vai se tornando cada vez mais ambígua e perigosa. Haynes sabia que esse jogo entre as duas mulheres precisava de fricção moral para funcionar, e foi buscar a tensão ao “Persona” de Bergman, onde a identidade de uma se dissolvia na da outra até as fronteiras entre elas se tornarem impossíveis de traçar.
Bourgeois-Tacquet tem uma premissa muito interessante, a mesma estrutura de duplo feminino, e a câmera nervosa que cola à protagonista para transmitir o caos de um hospital em permanente ebulição. Mas aqui trata-se de um filme de procedimentos. Falta-lhe a necessidade de se desvencilhar destes códigos, de ser um filme menos ansioso em entregar um manifesto, para deixar verdadeiramente a observadora contaminar a observada ou vice-versa. Nesse sentido, a ambição do título faz parte do problema: “A vida de uma mulher” parece prometer uma universalidade que o filme não tem como sustentar, e os capítulos em que está dividido, com títulos que traçam uma progressão quase programática da trajetória de uma mulher, confirmam essa ansiedade didática.
Há aqui e ali, momentos de verdadeira graça, como na sequência em que as duas protagonistas se perdem no meio dos dançarinos durante um espetáculo de dança, onde Bourgeois-Tacquet parece momentaneamente disposta a subverter as suas próprias regras. Mas é apenas um momento, e o filme volta a fechar-se sobre si mesmo. Foi um dia de boas intenções e papéis cumpridos. Que venham dias melhores

