O actor argentino Guillermo Francella recebeu na passada sexta-feira, dia 8, o Troféu de Honra dos Prémios Platino XCARET 2026, distinção atribuída pelo conjunto da sua carreira e considerada uma das mais altas homenagens do cinema ibero-americano. Com mais de quatro décadas de actividade, Francella consolidou-se como uma das figuras mais populares e respeitadas da Argentina, reunindo sucessos no cinema, televisão e teatro.
A entrega da distinção aconteceu num evento que antecedeu a cerimónia principal dos prémios. Na ocasião, Francella recebeu a estatueta das mãos de Enrique Cerezo, presidente dos Prémios Platino e também presidente do Atlético de Madrid. Visivelmente emocionado, o actor destacou por diversas vezes a palavra “honra”, sublinhando que voltaria a repeti-la na gala oficial, agendada para sábado, dia 9.
Ao receber a distinção, o actor sublinhou a relevância crescente dos Prémios Platino no espaço ibero-americano e comparou a cerimónia aos prémios da Academia de Hollywood. “É uma iniciativa onde não falta ninguém deste universo: todas as plataformas, todos os meios de comunicação, toda a imprensa da América Latina, todo o universo hispanofalante. Como eu digo, é o nosso Óscar”, declarou.
Na nota oficial, o júri justificou a escolha, destacando “a versatilidade e a capacidade de transitar naturalmente entre a comédia e o drama”, além da contribuição do actor para o património cinematográfico ibero-americano e da sua constante procura por novos desafios interpretativos.
Esta não é a primeira vez que Francella recebe um galardão Platino. Em 2016, venceu o Prémio Platino de Melhor Actor pela interpretação em “O Clã”, de Pablo Trapero. Na categoria, superou Alfredo Castro, por “O Clube”, Damián Alcázar, por “Magallanes”, e ainda Javier Cámara e Ricardo Darín, ambos nomeados por “Truman”. Na ocasião, afirmou: “Estou muito feliz por receber esta distinção. Foi uma viagem extraordinária tudo o que vivi em ‘O Clã’.”
Em 2023, voltou a ser distinguido, desta vez na categoria televisiva, pelo seu desempenho em “Meu Querido Zelador”, série em que interpreta um porteiro manipulador e estratega, papel que lhe valeu elogios da crítica e grande popularidade junto do público.
Este ano, por “Homo Argentum”, filme de Gastón Duprat e Mariano Cohn, Francella disputou também o Prémio Platino de Melhor Actor, categoria vencida por Wagner Moura pela interpretação em “O Agente Secreto” (2025), de Kleber Mendonça Filho.
Versatilidade
Presença constante no audiovisual argentino desde meados da década de 1980, o actor construiu um percurso marcado pela versatilidade, alternando com naturalidade entre a comédia popular e o drama de maior densidade.
Entre os títulos mais conhecidos no seu país encontram-se “La Familia Benvenuto” (1989-1995), “Um Argentino em Nova Iorque” (1998), “Casados con Hijos” (2005-2006), “Rudo y Cursi” (2008) e “O Clã” (2015), obras que o transformaram num nome transversal a várias gerações.
Ao longo do percurso artístico, Francella conciliou o trabalho no ecrã com presença constante nos palcos portenhos, onde participou em montagens de autores como Mel Brooks e Neil Simon, mantendo em simultâneo a projecção no cinema.
Entre os pontos altos da carreira surge a interpretação em “O Clã”, de Pablo Trapero, drama inspirado em factos reais no qual encarnou Arquímedes Puccio, patriarca de uma família criminosa. A interpretação consolidou o reconhecimento internacional de Francella e confirmou a sua capacidade de transitar com êxito para registos dramáticos de grande intensidade. O filme registou a maior abertura de sempre do cinema argentino em número de espectadores e tornou-se o segundo título mais visto da história do país, superando “Nazareno Cruz y el Lobo” e “Relatos Selvagens”.
Francella construiu ainda colaborações relevantes com realizadores de referência do cinema argentino, participando em obras de Ana Katz, Daniel Burman e da dupla Gastón Duprat e Mariano Cohn, com quem voltou a ser premiado graças ao êxito televisivo “O Encarregado”.
Carreira internacional
Fora da Argentina, Francella alcançou projecção internacional graças ao filme “O Segredo dos Seus Olhos” (2009), realizado por Juan José Campanella e vencedor do Óscar de Melhor Filme Internacional. No aclamado thriller, contracenou com Ricardo Darín num dos maiores êxitos da cinematografia argentina contemporânea e num dos pontos mais altos da sua carreira.
Mais recentemente, voltou a conquistar grande visibilidade com a série “Meu Querido Zelador” (“El Encargado”), lançada em 2022, fenómeno de audiência no Disney+.
Segue a trabalhar
Aos 71 anos, o actor mantém intensa actividade profissional. O seu trabalho mais recente, “Homo Argentum” (2025), converteu-se num fenómeno de bilheteira na Argentina, ultrapassando um milhão de espectadores nos primeiros 11 dias em cartaz. Dirigido por Gastón Duprat e Mariano Cohn, o filme apresenta Francella em 16 papéis diferentes, numa estrutura episódica que recupera o seu talento para a sátira e para a composição de personagens.
Para o jornalista cultural argentino Federico Frau Barros, professor da Universidade Nacional de Avellaneda, a importância de Francella ultrapassa o êxito artístico. “Francella é conhecido de qualquer argentino e identificamo-nos com ele. Representa diferentes momentos da história e da cultura nacionais”, afirmou em entrevista a Isabela Vieira, repórter da Agência Brasil.
A homenagem a Guillermo Francella integra a edição de 2026 dos Prémios Platino XCARET, cerimónia dedicada a distinguir os principais talentos do cinema e da televisão ibero-americanos. Ao longo dos últimos anos, o Troféu de Honra foi entregue a nomes de grande projecção internacional, como Sônia Braga, Guillermo del Toro, Ricardo Darín, Eva Longoria, Benicio del Toro e Antonio Banderas, colocando agora Francella entre as personalidades maiores do audiovisual em língua espanhola e portuguesa.

