De tempos em tempos, o mundo gosta de lembrar que a sociedade na qual vivemos está sempre a dois passos da destruição (muitas vezes menos).
“Missão: Impossível – O Ajuste de Contas Final”, de Christopher McQuarrie, é o fim apoteótico e épico de uma saga iniciada sem grandes pretensões há três décadas, como o começo de uma possível trilogia inspirada numa série de sucesso da década de 1960.
Passados tantos anos de correria, Ethan Hunt precisa salvar o mundo da destruição arquitectada por uma inteligência artificial conhecida como Entidade, que ele próprio ajudou a criar, ainda que sem querer, após tantas missões em que participou.
Assim, acompanhamos um filme estruturado em duas narrativas paralelas: a missão de Hunt em encontrar o submarino atómico que contém a perigosa IA, ao mesmo tempo que o resto da equipa cruza o mundo a bordo de um avião analógico e invisível para a criatura digital, com o objectivo de resgatar o agente no momento exacto. E tudo isto acontece apenas para percebermos que ainda estamos a meio da história.
E este é um dos grandes trunfos da franquia que se repete mais uma vez: não importa a duração do filme, os realizadores conseguem brincar com a percepção de tempo do espectador, de forma a despejar informação e sequências de acção sem dar sinais de cansaço.
E, por isso, talvez “Missão Impossível” seja a franquia suprema da acção, pois, pelo bem ou pelo mal, acaba por influenciar todos os filmes a partir de então, sendo referência para seguir ou para se afastar. Permite que acompanhemos quase três horas de pura acção num ritmo constante de alta velocidade que se inicia logo na “pequena” introdução de 20 minutos.
Desta forma, a produção fez questão de incluir duas excelentes sequências de acção que proporcionam dois grandes ápices sem se tornarem repetitivas. O submarino no fundo do oceano Pacífico oferece uma cena de suspense claustrofóbico e solitário, que brinca com desafios de quebra-cabeças; enquanto a perseguição de biplanos na conclusão é uma acção frenética entre desfiladeiros que nos prende a respiração.
Como encerramento da grande saga de oito longas-metragens, há um esforço para amarrar todas as tramas já utilizadas, seja com o regresso de uma personagem ou com uma nova explicação para acontecimentos anteriores.
Do mesmo modo, as sequências, já tradicionalmente impossíveis e cada vez mais extremas a cada novo filme, elevam agora os desafios de sobrevivência a patamares verdadeiramente sobre-humanos.
Infelizmente, talvez pelo receio de não conseguir conquistar público suficiente, já que o filme ultrapassou em várias centenas de milhões de dólares o orçamento esperado, a produção peca pelo exagero na exposição discursiva. Os planos e intenções de todas as personagens são repetidos vezes sem conta, o que (aí sim) pode cansar o espectador.
Outro problema do argumento é a entrega de uma conclusão que parece não ter as consequências prometidas ao longo da trama. Sendo suposto ser o último filme, esperavam-se perdas maiores para o protagonista.
Os riscos globais, por sua vez, vão perdendo impacto à medida que ficam demasiado confinados aos bastidores dos Estados Unidos, fazendo com que aquilo que deveria ser o clímax épico da saga acabe por soar algo superficial.

