“A Criada”: vale tudo por um emprego?

Um suspense sobre trabalho, poder e as fronteiras éticas de um emprego aparentemente perfeito
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"A Criada" (2025), de Paul Feig

Dentro de um sistema cada vez mais precarizado de trabalho, somos desafiados a aceitar os empregos mais controversos e psicologicamente tóxicos. Mas até que ponto vale a pena aceitar um emprego?

Em “A Criada”, acompanhamos Nina Winchester e Millie Calloway, uma dona de casa rica e a empregada/babá contratada para cuidar da casa e da pequena Cecelia. Após uma contratação relâmpago e inesperada, a jovem rapidamente é desafiada a repensar o novo trabalho que acabou de aceitar.

O filme não demora a mostrar como as protagonistas não são muito compatíveis, com uma jovem que esconde um passado fugitivo e a dona da casa que certamente tem algum descontrolo emocional. Mas qual o motivo por trás desse descontrolo? A história aos poucos revela-se mais torpe do que o esperado, e o conflito feminino que assistimos inicialmente logo se mostra apenas a superfície de um problema muito maior.

Logo somos apresentados ao “marido perfeito”, um empresário rico e atencioso que é inteiramente dedicado à filha e à esposa. Mas compadece-se de Millie ao ver como Nina a trata e passa a apoiar a nova empregada às escondidas. Já se imagina onde isto pode ir parar, mas não vale a pena tirar conclusões apressadas.

Um suspense que inicialmente parece apenas mais uma “trama perigosa”, aquela típica história de folhetim que mistura triângulo amoroso com alguém a matar alguém. E sem negar totalmente essa premissa, acaba por subverter expectativas e levantar o (infelizmente muito actual) debate da violência doméstica.

É interessante como Paul Feig conduz as mais de duas horas de duração sem tornar o filme cansativo, reservando toda a primeira parte para o conflito entre Nina e Millie numa escalada de tensão; depois, ocorre uma viragem de enredo tão grande que parece que um novo filme começou, ainda que mantenha a tensão das pistas lançadas desde o início.

As actrizes Sydney Sweeney e Amanda Seyfried brilham do princípio ao fim, desde os surtos mais intensos aos momentos de fragilidade e cumplicidade que surgem ao longo do argumento. É como se partilhassem a mesma loucura, mas em fases diferentes, de forma que uma não consegue revelar a verdade à outra, que só a compreende no momento certo.

A narrativa ganha ainda mais força com a fotografia, que explora uma ambientação clara e quase estéril da mansão, mas que esconde um quarto suspeito no porão, que faz lembrar a série The Handmaid’s Tale. Um espaço que funciona como pista para o espectador, sugerindo que a perfeição não passa de uma camada de máscaras sobrepostas.

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