“Project Hail Mary” é o filme baseado no livro homónimo de Andy Weir, produzido e protagonizado por Ryan Gosling e realizado por Phil Lord e Christopher Miller. À semelhança de “The Martian” (2015), de Ridley Scott, que é também baseado num livro de Andy Weir, o argumento volta a ser adaptado por Drew Goddard.
Nesta obra, acompanhamos o professor de ciências Ryland Grace que acorda numa nave espacial a anos-luz da Terra. À medida que vai recuperando a memória, ele é a única esperança para salvar a humanidade de um decréscimo repentino da temperatura do planeta causada por uma nova espécie que consome as estrelas do Universo, incluindo o Sol.
Com referências a inúmeros clássicos da ficção científica desde “2001: A Space Odyssey” (1968), de Stanley Kubrick até “Interstellar” (2014), de Christopher Nolan, esta longa-metragem é mais uma demonstração da capacidade de Ryan Gosling não só arrastar multidões para as salas de cinema mas também de entregar um trabalho muito competente e completo, solidificando-o não apenas como uma grande estrela de Hollywood mas também como um dos melhores atores no ativo.
É certo que os realizadores são já bastante conhecidos pelos seus filmes de comédia e esse elemento não foi posto de parte nesta adaptação, havendo um equilíbrio perfeito entre o humor e o drama e os riscos sentem-se constantemente, apesar do filme nunca atingir um nível de tensão extrema como acontece em “Gravity” (2013), de Alfonso Cuarón ou em “Arrival” (2016), de Denis Villeneuve, que são também aqui referenciados.
Enquanto que o protagonista acarreta grande parte desta carga humorística, o principal responsável por estes momentos cómicos acaba por ser Rocky, o extraterrestre simpático que estabelece uma grande amizade com Grace, e pela qual ambos lutam até ao final, sendo também importante destacar a performance de James Ortiz que dá voz a este ser carismático do planeta Erid. A atriz Sandra Huller entrega também um excelente desempenho como a principal responsável pelo projeto, posicionando-se como uma figura de autoridade mas empática e com vários momentos de vulnerabilidade.
Enquanto que a amizade talvez seja o tema principal do filme, remetendo também para “E.T. the Extra-Terrestrial” (1982), de Steven Spielberg, o filme aborda inúmeros temas como a resiliência, a ética e o nosso propósito na vida, havendo momentos bastante emocionantes que proporcionam ao espectador uma experiência não só completa, mas clássica das salas de cinema. É um filme para ver no maior ecrã possível – tendo sido gravada especificamente para as salas de IMAX – e garante arrancar gargalhadas e choros à audiência.
No que toca aos aspetos mais técnicos, é de sublinhar o esforço notável da equipa de efeitos especiais que, ao invés de optarem pelo CGI habitualmente usado neste tipo de filmes, preferiram focar-se nos efeitos práticos. O resultado é espantoso e a cinematografia de Greig Fraser – já habituado a filmar este género – captura imagens inacreditáveis das estrelas, dos planetas e da imensidão do espaço. A direção artística transporta-nos totalmente para aquele universo e, apesar de estarmos a assistir a um grande blockbuster – o primeiro com selo de qualidade de 2026 – notam-se, de forma esporádica, algumas sequências bastante autorais que quebram as regras do género e acrescentam valor, como a abordagem diferenciada que é feita às espécies alienígenas e à relação do protagonista com a restante equipa responsável pela missão.
Mesmo não estando ao nível do melhor sci-fi que tem sido feito em Hollywood, muito pela mão do canadiano Denis Villeneuve, “Project Hail Mary” é o primeiro blockbuster sofisticado de 2026 e, estando bastante agarrado a algumas fórmulas sempre eficientes e a outras obras incontornáveis do género, está muito bem realizado e entrega uma excelente experiência cinematográfica que garante, desde já, uma entrada garantida nas listas dos bons filmes sci-fi do século XXI.


