A estreia da cinebiografia “Michael”, dedicada à vida de Michael Jackson, ficou marcada por episódios de desordem em várias salas de cinema no Brasil, com destaque para o Rio de Janeiro, onde uma sessão terminou em confronto entre espectadores.
O incidente ocorreu a 22 de Abril e rapidamente ganhou dimensão nas redes sociais após a divulgação de vídeos gravados por pessoas presentes na sala. As imagens mostram o momento em que a exibição é interrompida por discussões que evoluem para empurrões, gritos e troca de ofensas, levando à intervenção de funcionários do cinema.
Segundo relatos de espectadores, o ambiente de expectativa pela estreia terá sido substituído por uma tensão crescente durante os trailers, com reacções exaltadas de alguns fãs, incluindo gritos e imitações do cantor. A situação terá escalado até à expulsão de alguns intervenientes da sala, já no início do filme. Não há registo de feridos.
A causa exacta da confusão permanece por esclarecer. Até ao momento, não foram divulgadas informações oficiais por parte das autoridades ou dos responsáveis pela sala de exibição.
O caso do Rio de Janeiro não terá sido isolado. Em diferentes cidades brasileiras, outras sessões do mesmo filme registaram episódios de desordem, com relatos de discussões entre espectadores, interrupções da exibição e comportamentos considerados inadequados, como gritos, dança no interior da sala e uso excessivo do telemóvel.
Em algumas situações, funcionários foram chamados a intervir para repor a ordem. Há ainda registos de sessões em que o nível de ruído terá levado à interrupção temporária do filme.
Filme divide opiniões e regista avaliação negativa da crítica
A cinebiografia de Michael Jackson, protagonizada por Jaafar Jackson, acompanha o percurso do artista desde a infância no grupo Jackson 5 até ao auge da carreira a solo. A produção tem sido aguardada por fãs em todo o mundo, mas também alvo de críticas na imprensa especializada, o que contribuiu para intensificar a polarização em torno do seu lançamento.
No plano crítico, o filme regista actualmente cerca de 38% de aprovação entre 244 críticas profissionais agregadas pelo Rotten Tomatoes, pontuação que o coloca na designação de “podre”, a classificação mais baixa atribuída pelo agregador. A situação é semelhante no Metacritic, que calcula a média das notas atribuídas por críticos de vários portais. Na plataforma, “Michael” soma apenas 39 pontos em 100 possíveis, com base em 50 críticas contabilizadas.
O filme estreou em primeiro lugar na bilheteira brasileira e já foi visto por mais de 1,6 milhões de pessoas no país. Segundo dados da Comscore, a produção arrecadou cerca de 40,2 milhões de reais, consolidando um arranque expressivo em termos comerciais.
Em Portugal, “Michael” entrou directamente para a liderança do top nacional, com 62 088 espectadores no fim-de-semana e 70 882 no total, incluindo as pré-estreias, segundo dados do ICA – Instituto do Cinema e do Audiovisual.
Entre entusiasmo e contestação, a estreia acabou por ficar envolta não apenas na discussão sobre o filme, mas também sobre os limites do comportamento em espaços partilhados.
Num artigo de opinião publicado a 29 na Rolling Stone, Angelo Carneiro sublinhou precisamente essa tensão, defendendo que, embora o cinema convide à emoção e à reacção, existe uma fronteira clara entre viver o filme e transformar a sessão num espectáculo paralelo. Na sua leitura, o ingresso pressupõe um pacto de convivência que exige respeito pelo espaço e pelos restantes espectadores.
Em resposta, o realizador Kleber Mendonça Filho escreveu no seu perfil de Instagram, sugerindo que o debate deveria também considerar as sessões de cinema como experiências colectivas intensas. Segundo referiu, na exibição de “Michael” a que assistiu, cerca de 400 pessoas reagiram em conjunto às músicas, exibidas com uma intensidade sonora próxima de um concerto, num ambiente de forte envolvimento do público.
Para o realizador, importa distinguir comportamentos de desrespeito de manifestações colectivas de entusiasmo. Ainda que reconheça que a falta de educação não é um fenómeno recente, sublinha a dimensão popular e vibrante da experiência cinematográfica, que considera insubstituível.
Nesse contexto, descreve sessões marcadas por aplausos, assobios, gritos e comentários espontâneos, defendendo que essa energia faz parte da relação do público com determinados filmes. Sugere ainda que os exibidores ajustem o som das salas quando tal se justifique, de modo a acompanhar a natureza da experiência proposta.

