“Crónicas de França”: a identidade reduzida a caricatura

Wes Anderson apresenta uma interessante reflexão sobre os tempos do jornalismo, mas é atropelado pelo próprio “modo de fazer” que o tornou conhecido
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"Crónicas de França" (2021), de Wes Anderson

Em “Crónicas de França”, Wes Anderson convida o espectador a conhecer o último número da fictícia revista de variedades “The French Dispatch” após a morte do editor e criador da publicação. O desejo desse editor é que a revista fosse encerrada assim que ele não estivesse entre os vivos, com a pequena “brecha” contratual de uma edição de despedida triunfal.

Assim, a partir de uma estrutura antológica, percorremos as matérias mais importantes da revista ganhando vida em ecrã. Ao longo de quatro capítulos, a introdução, o epílogo e várias pequenas histórias orbitais permitem-nos descobrir mais sobre os bastidores do periódico e as diferentes abordagens que os jornalistas davam às reportagens.

É desta forma que acompanhamos as mudanças urbanas de Paris registadas por um cronista de bicicleta, um novo conceito de arte a nascer numa prisão de alta periculosidade, o manifesto de um universitário que se confunde com o início de uma paixão e até uma pauta culinária a transformar-se num caso de polícia. É uma comédia dramática, mas que custa a empolgar pela escolha de uma condução em tom blasé e desenvolvida a partir de um sentido estético físico e narrativo bastante teatral. De forma que as acções dos personagens são sempre demasiadamente enfáticas e a alternância no uso e não uso das cores para cenários e figurinos, ao sublinhar a atmosfera excêntrica sempre perseguida por Anderson, acaba por trazer texturas artificiais.

O excesso de uma narrativa blasé, chegando em alguns momentos a ser até esnobe, enfatiza o carácter nada convencional de cada personagem das reportagens retratadas, compondo a grande homenagem ao editor da revista. O filme também é uma declaração de amor de Anderson ao jornalismo de tempos pré-redes sociais, colocando-se em oposição ao ritmo actual de produção, onde as matérias são escritas em linha de montagem e passam longe de qualquer maturação.

No entanto, o apelo por uma técnica menos atabalhoada esbarra na própria estrutura rítmica do realizador, que é acelerada. Anderson parece ter a necessidade de “metralhar” diálogos para preencher cada pedaço do filme, mas isso nem sempre ocorre de forma necessária, servindo apenas para compor a atmosfera caótica.

Tal atropelo narrativo esbarra na relação de tempo de ecrã do elenco, composto por grandes estrelas, mas que acaba por ser diluído, de forma que, no fim, poucos têm realmente algum destaque. Bill Murray costura a trama mesmo quando não está em cena e funciona ao interpretar-se a si próprio; Adrien Brody e Benicio del Toro trazem bons complementos entre os críticos e artistas; e Jeffrey Wright e Frances McDormand são os jornalistas com maior presença.

Repare-se que já foram mencionados vários nomes de peso do cinema contemporâneo, mas a eles juntam-se ainda pelo menos mais duas dezenas de grandes nomes, muitos dos quais passam praticamente despercebidos em cena.

Além disso, este ritmo acelerado faz com que se tenha a sensação de que cada “matéria” poderia, por si só, dar origem a um filme, e, para não perder informação, a narrativa torna-se extremamente descritiva e cansativa.

Talvez “Crónicas de França” resultasse muito mais se tivesse sido concebida como uma minissérie, dando mais espaço para o desenvolvimento de cada capítulo, sem atropelos, com mais tempo para os actores e até a possibilidade de mais episódios.

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“Crónicas de França”: a identidade reduzida a caricatura
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