A corrida aos Óscares não se resume apenas às equipas que produziram os filmes. Pelo mundo fora, milhares de cinéfilos assumem também uma pequena missão pessoal: assistir ao maior número possível de nomeados do ano. A tarefa, porém, não é simples, e torna-se ainda mais complicada quando falamos de curtas-metragens.
Neste especial apresento duas obras que concorrem na categoria de curta-metragem com actores reais e que podem ser vistas gratuitamente no YouTube.
Para a Academia, um filme é considerado curta-metragem sobretudo pela sua duração. Deve ter, no máximo, quarenta minutos, já contando os créditos finais. Além disso, a obra precisa contar uma história ou transmitir um conceito completo e ter realizado alguma exibição pública regular, durante sete dias consecutivos, em múltiplos horários.
A limitação de tempo, no entanto, não significa que estas obras tratem de temas menos importantes. Pelo contrário, transforma-se num verdadeiro desafio criativo para toda a equipa envolvida. Aliás, não são raros os casos em que um curta-metragem bem-sucedido acaba por dar origem a um filme que marca o cinema. Foi o que aconteceu, por exemplo, com “Whiplash” ou com a franquia de terror “Saw”.
As cinco curtas nomeadas aos Óscares
Nos Óscares de 2026, as curtas-metragens nomeadas nesta categoria percorrem um território amplo de emoções, oscilando entre o drama e a comédia.
Entre eles está “Butcher’s Stain”, de Meyer Levinson-Blount e Oron Caspi, uma produção de Israel que apresenta um drama político centrado na vida de um trabalhador palestiniano empregado num supermercado, revelando tensões sociais e humanas que atravessam o quotidiano.
Também figura “A Friend of Dorothy”, de Lee Knight e James Dean, do Reino Unido, uma história delicada sobre a amizade improvável entre um adolescente e uma senhora solitária, explorando a forma como encontros inesperados podem transformar a solidão em companhia.
Já “The Singers”, de Sam A. Davis e Jack Piatt, dos Estados Unidos, segue por um caminho mais leve. A curta aposta na comédia ao acompanhar um grupo de músicos que se reúne num bar, encontrando no humor e na música o fio condutor para as situações que se desenrolam ao longo da narrativa.
Entre as cinco nomeadas, duas produções podem ser vistas gratuitamente no YouTube. Uma delas é “Jane Austen’s Period Drama”, de Julia Aks e Steve Pinder, dos Estados Unidos, que aposta numa abordagem humorística ao construir uma paródia inspirada nos tradicionais dramas de época, brincando com os códigos e clichés desse tipo de narrativa.
A outra é “Two People Exchanging Saliva”, de Alexandre Singh e Natalie Musteata, uma coprodução entre França e Estados Unidos. A curta apresenta um romance de tom distópico, situado num universo em que as relações humanas se entrelaçam com uma forma peculiar de capitalismo, propondo uma reflexão irónica sobre afecto, consumo e intimidade.
Falarei com mais detalhe sobre estas duas obras na secção seguinte.
Duas nomeadas aos Óscares disponíveis no YouTube
“Jane Austen’s Period Drama”, de Julia Aks e Steve Pinder (EUA)
Os romances escritos por Jane Austen no início do século XIX sempre brincaram, de forma irónica, com as convenções sociais patriarcais e com as “obrigações” femininas associadas ao cuidado da casa, ao casamento e à esperança de um amor romântico que frequentemente surgia em tensão com interesses financeiros. Não é por acaso que, ao longo dos anos, inúmeras adaptações e paródias foram produzidas nas mais diferentes mídias. O universo da autora chegou mesmo a comportar versões inusitadas, incluindo uma adaptação com zombies.
“Jane Austen’s Period Drama” insere-se precisamente nessa tradição paródica, mas decide abordar um tema bastante íntimo e raramente explorado em narrativas de época: a menstruação. A história começa num belo campo, onde o senhor James Dickley se prepara para pedir a senhorita Estrogenia Talbot em casamento. O diálogo romântico aproxima-se do momento decisivo quando é abruptamente interrompido por uma mancha de sangue na saia de Talbot.
James entra em pânico e imagina que ela está ferida. Sem hesitar, pega-a ao colo e corre para a casa da jovem em busca de ajuda. O que se segue é uma sequência de constrangimentos diante da família, até que Talbot decide explicar que aquilo que ele está a ver é algo perfeitamente normal, que acontece com todas as mulheres. O problema é que James simplesmente nunca ouviu falar disso. Afinal, como poderia compreender o fenómeno se esse tipo de assunto não pode sequer ser mencionado na presença de homens?
A curta aposta num humor sarcástico e consegue arrancar alguns sorrisos ao brincar com a forma como o machismo impede muitas pessoas, especialmente os homens, de conhecer o corpo feminino para além da sua dimensão sexual. A narrativa trabalha também com a ideia de normalizar algo que, na realidade, já é perfeitamente natural.
Do ponto de vista estético, o filme reproduz com cuidado vários elementos típicos das adaptações de Jane Austen. Há a fotografia mais saturada, os figurinos pomposos, as interpretações deliberadamente exageradas e diálogos cheios de jogos de palavras que evocam o estilo das narrativas de época.
Ainda assim, a curta acaba por não explorar plenamente o potencial do seu próprio conceito. O resultado é algo superficial, que por vezes se aproxima mais de um sketch humorístico de programa televisivo. Existem momentos genuinamente engraçados e a brincadeira com o total desconhecimento masculino sobre o ciclo menstrual é interessante, mas a ideia não consegue sustentar completamente os doze minutos da obra.
“Two People Exchanging Saliva”, de Alexandre Singh e Natalie Musteata
As moedas que utilizamos para fazer as nossas compras não passam, em grande medida, de uma convenção social que atribui valor a papéis e a dados abstractos. Mas e se, em vez de dólares ou euros, as pessoas pagassem as suas dívidas com bofetões?
Em “Two People Exchanging Saliva” somos conduzidos a um mundo paralelo e distópico onde os beijos são punidos com a morte e as dívidas se pagam com estalos na cara. Nesse universo peculiar, a velha ostentação deixa de se limitar à exibição de bens caros e passa a manifestar-se nas marcas deixadas pelo consumo.
Neste lugar insólito, os hematomas tornam-se um verdadeiro marcador social. Quanto mais roxos no rosto, maior é o estatuto económico da pessoa.
A história acompanha a jovem Mal-estar no seu primeiro dia de trabalho como vendedora numa loja de luxo. Sob a vigilância constante de uma supervisora que não a larga, ela acaba por conhecer Angina, uma mulher da alta sociedade por quem se apaixona.
Trata-se de um romance dramático dividido em três capítulos, que explora costumes excêntricos enquanto acompanha um casal apaixonado obrigado a enfrentar inveja e preconceito social. O argumento revela-se particularmente interessante ao apresentar um triângulo amoroso disfuncional que serve de base para uma reflexão sobre as hipocrisias sociais num cenário marcado por um autoritarismo moralista.
Ao optar pela fotografia a preto e branco, o filme reforça a sensação de uma sociedade fria, rígida e quase desprovida de alma. A despeito disso, o amor improvável entre as protagonistas surge como uma pequena centelha de esperança, mesmo quando uma terceira pessoa insiste em intrometer-se no seu caminho. No fundo, tudo depende da coragem que terão para resistir às regras do mundo em que vivem.
