Comecemos pelo final do filme “Whiplash – Nos Limites”, que merece toda a atenção, pois exibe uma grande cena de cinema, ritmo, esforço, paixão que só na relação com a música o cinema é capaz de edificar.

Os desejos de Andrew Neyman (Miles Teller) e Terence Fletcher (J.K. Simmons), aluno e professor, trazem-nos a este filme a grandiosidade performativa conseguida pelo êxtase do solo final: o entusiasmo libertador da bateria e a exaltação desconcertante do “ritmo certo”, eloquentemente referido durante todo o filme. A pulsação da música, o compasso dos tambores, os pratos ritmicamente quentes, graves e brilhantes, a beleza nos pormenores das baquetas, num momento de percussão perfeita, distinguem este extraordinário final, embora haja um equilíbrio de intensidades bastante conseguido ao longo do filme.

Charlie Parker (1920-1955), conhecido como “Bird” pelo seu solo – o êxtase do jazz, considerado pelo desmedido professor Fletcher – e tornado lenda pela sua técnica virtuosa e pelo seu lado de improvisação, representa aqui as ambições de ambos os protagonistas, que procuram constantemente a perfeição através da sofreguidão e da avidez profunda.

O filme começa com o som da bateria e um travelling que nos leva até Newman: a entrada de Fletcher cria o primeiro contacto entre os dois, uma simbiose inicial que se desenvolverá durante a acção narrativa, tal como a música e a imagem sincronizadas na perfeição, numa montagem por vezes em vídeo clip.

Relatando uma relação de amor-ódio e obsessões fortes, Whiplash junta, separa e coloca-os no mesmo palco, em confronto e harmonia, aluno e professor, em busca do mesmo sonho mas com contratempos necessários pelo meio até ao momento final. O desconforto causado pelo filme em determinadas alturas, quando Fletcher usa os seus métodos de ensino argutos e pouco ortodoxos, criando cenas irónicas, de humor sádico e que aterroriza os silenciosos alunos do Conservatório de Música de Schaffer (a melhor escola de música dos Estados Unidos) é duas ou três vezes interrompido por momentos de pura surpresa no comportamento de Fletcher, quando demonstra simpatia, ou expressa sentimentos de tristeza.

Segunda longa-metragem do jovem realizador Damien Chazelle, o título do filme “whiplash” tem vários significados que se cruzam na narrativa: a música composta por Hank Levy para a Don Ellis band, composição de uma notória dificuldade; mas também significa um golpe dado por um chicote; e está associado a um ferimento causado por um mau movimento no pescoço devido, por vezes, a um acidente de viação, aspectos evidentes em Newman, nos dedos aleijados a sangrar, bem como no acidente que o atrasa para o concerto que tanto anseia.

O filme faz jus à afirmação de que só com trabalho se consegue alcançar momentos plenos. Os planos aproximados da câmara que acontecem quando Neyman está a tocar, a câmara ao aproximar-se da bateria e do músico, conseguindo assim detonar a música, o esforço, a obsessão de querer ser o melhor, são os momentos mais marcantes de Whiplash.

Realização: Damien Chazelle

Argumento: Damien Chazelle

Elenco: Austin Stowell, J.K. Simmons, Jayson Blair, Melissa Benoist, Miles Teller, Paul Reiser

EUA/2014 – Drama

Sinopse: Sob a direção do impiedoso professor Terence Fletcher, Andrew Neiman, um jovem e talentoso baterista, procura a perfeição a qualquer custo, mesmo que isso signifique perder a sua humanidade. Um filme escrito e realizado por Damien Chazelle.

«Whiplash - Nos Limites» – Obsessões fortes
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