A Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) anunciou, na noite de segunda-feira (26), os vencedores da sua tradicional premiação anual, que distingue os principais destaques das artes em 2025. A decisão foi tomada durante assembleia geral no Sindicato dos Jornalistas de São Paulo, reunindo críticos de diversas áreas culturais. Para as categorias de cinema, participaram da votação Flavia Guerra, Francisco Carbone, Luiz Carlos Merten, Orlando Margarido e Walter Cezar Addeo.
“O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho, despontou como o grande vencedor da noite, arrebatando o prémio de Melhor Filme, o de Melhor Ator para Wagner Moura e o Prémio Especial do Júri entregue a Tânia Maria.
Situado no Recife de 1977, o thriller político acompanha Marcelo, interpretado por Moura, um homem que procura apagar o próprio passado num país sob a vigilância constante da Ditadura Militar. O filme conquistou os críticos pela combinação rara de suspense noir com uma crítica social incisiva, sustentada por uma reconstituição histórica de precisão exemplar que confirma o talento singular do realizador e da sua equipa.
O êxito da crítica refletiu-se também nas bilheteiras brasileiras, com receitas a rondar os 4,32 milhões de reais e mais de um milhão e meio de espectadores. No último fim-de-semana, para assinalar as quatro nomeações aos Óscares 2026, a Vitrine Filmes e Kleber Mendonça Filho promoveram uma ação especial, com bilhetes a meia-entrada em 25 salas espalhadas pelo país.
Mundo afora, “O Agente Secreto” já acumula uma impressionante sucessão de prémios, incluindo Melhor Direcção e Melhor Ator em Cannes, Prémio FIPRESCI e distinções em Zurique, Colónia, Hamburgo, Chicago, Nova Iorque, Londres, Estocolmo, Los Angeles, Havana e Santa Bárbara, entre muitos outros festivais europeus e latino-americanos.
O filme mantém-se em competição em diversas premiações de prestígio, como Spirit Awards, Astra Film Awards e Óscares 2026, tendo sido, nesta terça-feira (27), indicado ao Bafta em duas categorias: Melhor Filme em Língua não-inglesa e Melhor Argumento Original.
Outros vencedores
A realização de Érico Rassi, “Oeste Outra Vez”, venceu o prémio de Melhor Direcção. Este western sertanejo, filmado na Chapada dos Veadeiros, mergulha na solidão e brutalidade de homens marginalizados, explorando a masculinidade tóxica e a vingança. A direção foi elogiada pela criação de uma atmosfera densa, onde o silêncio e a vastidão da paisagem comunicam tanto ou mais que os diálogos.
No campo da escrita cinematográfica, “A Natureza das Coisas Invisíveis”, de Rafaela Camelo, foi reconhecido com o prémio de Melhor Argumento. A narrativa explora os vínculos invisíveis que unem as pessoas e o mistério das relações humanas, destacando a sensibilidade e profundidade da autora na construção de diálogos e estrutura dramática.
Entre as interpretações, Shirley Cruz foi distinguida como Melhor Atriz por “A Melhor Mãe do Mundo”, pela sua performance visceral de uma mãe que enfrenta as dificuldades do quotidiano e do sistema para proteger os filhos. Wagner Moura, já mencionado, levou o prémio de Melhor Ator, consolidando o seu regresso triunfal ao cinema nacional com um papel de protagonismo absoluto.
No segmento documental, “A Queda do Céu”, de Eryk Rocha e Gabriela Carneiro da Cunha, recebeu o prémio de Melhor Documentário. Baseado na obra do xamã Davi Kopenawa e do antropólogo Bruce Albert, o filme oferece um manifesto poético e político sobre a cosmologia Yanomami e a luta pela preservação da Amazónia, transformando o documentário numa experiência sensorial e crítica à civilização ocidental.
Prémio APCA
Fundado em 1956, o Prémio APCA chega a 2026 assinalando sete décadas de actividade ininterrupta, afirmando-se como uma das distinções artísticas de maior prestígio no país. Ao longo destes 70 anos, a associação destacou-se pela independência crítica e pela capacidade de perscrutar a produção cultural brasileira, reconhecendo obras e criadores que refletem o presente e, simultaneamente, desenham os contornos do porvir das artes.
Celso Curi, presidente da APCA, recorda que esta edição consagra o valor da crítica como força viva e participante da cena cultural:
“a APCA celebra 70 anos de actividade ininterrupta na defesa, reflexão e valorização das artes no Brasil. Sete décadas caracterizadas pela independência crítica, pelo reconhecimento da excelência artística e pelo diálogo contínuo com a cena cultural”.
A 70.ª cerimónia de entrega dos troféus decorrerá em maio, no Teatro Sérgio Cardoso, em São Paulo, em colaboração com a Associação Paulista Amigos da Arte e a Secretaria de Estado da Cultura.
Os vencedores na área do cinema, segundo os críticos de São Paulo:
Melhor filme: “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho
Melhor direcção: “Oeste Outra Vez”, de Érico Rassi
Melhor argumento: “A Natureza das Coisas Invisíveis”, de Rafaela Camelo
Melhor actriz: Shirley Cruz, por “A Melhor Mãe do Mundo”
Melhor actor: Wagner Moura, por “O Agente Secreto”
Melhor documentário: “A Queda do Céu”, de Eryk Rocha e Gabriela Carneiro da Cunha
Prémio especial do júri: Tânia Maria, por “O Agente Secreto”

