Hasan Hadi marca geográfica e temporalmente o filme através de simbolismos políticos marcantes — principalmente os retratos e slogans onipresentes de Saddam Hussein espalhados por todo o ambiente, suficientes para sobrecarregar e desencorajar qualquer desejo de liberdade.
Paralelamente, Hadi concentra-se inteiramente na história de Lamia (Baneen Ahmed Nayyef), uma menina de nove anos que vive num pântano com a sua avó, Bibi (Waheed Thabet Khreibat). A utilização da família como um microcosmo para espelhar conflitos sociopolíticos é uma ferramenta frequente no cinema do Médio Oriente, humanizando narrativas de opressão e resistência. Esta estrutura familiar serve para preservar a memória, desafiar representações ocidentais e destacar a humanidade em contextos de guerra ou censura.
O filme começa com uma serenidade, tanto na ação como na fotografia de Tudor Vladimir Panduru, criando um ambiente que não nos prepara para a tensão e agitação que em breve dominarão esta família. Numa série de infortúnios, Lamia vê-se escolhida para a “honra” de ter de preparar, na sua escola, um bolo para o aniversário do Presidente. Devido aos embargos, a escassez é total e o preço dos produtos é proibitivo.
A partir da receita recitada pela avó, o realizador transforma a simplicidade da mistura dos ingredientes de pastelaria num ensaio devastador sobre o totalitarismo. Cada ingrediente representa um toque de humanidade, e o filme brilha ao contrastar a inocência infantil com a corrupção moral exigida pelo sistema — uma sociedade onde cada um tenta sobreviver como pode, com poucos escrúpulos e muita hipocrisia.
Num cenário dominado pelo peso religioso e pelo autoritarismo, as contradições da práxis saltam à vista: o machismo, a exploração sexual, a corrupção sistémica e a libertação obtida pelo poder monetário cruzam-se no caminho de Lamia. A sua jornada não é apenas uma busca por ingredientes; é o retrato de um povo forçado a celebrar o seu próprio opressor para evitar castigos. Ao mesmo tempo, o filme não omite o papel castrador da violência bélica do suposto país libertador — os Estados Unidos da América — no quotidiano das pessoas.
A performance de Nayyef como Lamia impede o filme de se tornar meramente panfletário. A sua atuação não é de vitimização, mas de uma curiosidade resiliente. Através dos seus olhos, as sanções deixam de ser estatísticas geopolíticas para se tornarem obstáculos físicos e morais. Quando ela negoceia o que resta da sua infância e da sua escassa memória familiar por um punhado de açúcar, o filme justifica a sua crítica: o totalitarismo não rouba apenas a liberdade de expressão, rouba a própria substância da vida quotidiana. Ao unir a crueza das sanções à naturalidade da protagonista, Hasan Hadi constrói uma narrativa onde o ato de cozinhar se torna um gesto de resistência silenciosa.

