Os melhores filmes de 2016

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Pela primeira vez a equipa do Cinema 7ª Arte juntou-se para criar uma lista conjunta dos melhores filmes do ano, contrariamente ao que sempre foi feito, com listas individuais. Os colaboradores do site votaram e elegeram “Ela” (“Elle”, 2016) do holandês Paul Verhoeven, como o melhor filme de 2016, uma das sátiras subversivas mais deliciosamente desconfortáveis que se viu no cinema este ano. “O Filho de Saul” e “The Revenant: O Renascido” ocupam o segundo e terceiro lugares, respectivamente.

A lista final pode não agradar a todos os colaboradores do Cinema 7ª Arte, mas resume bem as escolhas de cada um e aquilo que foi o ano em cinema. O balanço que fazemos deste ano cinematográfico de 2016 é muito positivo, num ano que foi bastante diversificado e criativo de filmes. Elegeram-se doze filmes como os melhores do ano, sendo que as posições nona e décima tiveram ambas ex aequo.

Certamente as listas nunca são consensuais e esta lista não fecha nada, é uma visão dos colaboradores deste site, dos filmes que foram possíveis ver por cada um. Uma lista não passa disso mesmo, uma lista. Esta reúne cinco produções norte-americanas, quatro europeias, duas portuguesas e uma asiática. Destaque para as duas produções nacionais “Cartas da Guerra” e “O Ornitólogo”, ambos os filmes portugueses mais badalados do ano, dentro e fora das fronteiras, pela crítica. Ficaram de fora filmes, que muito marcaram o ano, como por exemplo, A Assassina”, “Sítio Certo, História Errada”, “The Neon Demon”, “Cemitério do Esplendor”, “Tangerine”, “E Agora Invadimos o Quê?”, “A Infância de um Líder”, “Nostalgia da Luz”, “A Lagosta”“Dheepan”, que constaram nas listas individuais de vários colaboradores.

Para esta lista dos melhores filmes de 2016 só foram contabilizados filmes que estrearam nas salas de cinema portuguesas entre janeiro e dezembro de 2016.

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1º – Ela (Elle, 2016) de Paul Verhoeven (66 pontos)

No topo da lista dos melhores do ano encontra-se o filme “Ela”, de Paul Verhoven, que nos conta a história de uma mulher que, após ter sido violada, escolhe trocar as lágrimas por uma entrega completa à violência e à vingança, desde as suas mais  pequenas manifestações, para com o seu ex-marido, ou na forma mais sexual, para com o seu assíduo agressor. Esta personagem é o núcleo duro deste filme, e Verhoven parece encontrar nela a manifestação mais clara de um instinto fatal  – ou um instinto básico, se levarmos mais à letra a tradução do título do seu filme -, uma força que parece ter um motor próprio, cujo papel é dissolver a ilusão da omnipotência da consciência. “Ela” é um ponto de interrogação moral constante, e o que mais impressiona é o naturalismo com que brota toda a violência. E claro, Isabelle Huppert é a mulher coragem desta obra, que merece todos os prémios que vierem. 

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2º – O Filho de Saul (Saul fia, 2015) de László Nemes (63 pontos)

Um filme duro que leva o espectador a mergulhar num cenário de carnificina dos campos de concentração. Através do olhar de uma personagem, um judeu que é membro do Sonderkommando, o grupo de prisioneiros recrutados entre os recém-chegados, cuja função é a execução das tarefas mais difíceis dos campos de concentração, evitadas pelos alemães, László Nemes faz um cruel relato de um campo de concentração nazi. Uma impressionante estreia nas longas-metragens, do húngaro László Nemes que recria uma realidade dura da história do século XX, sendo assim um dos filmes mais marcantes de 2016.

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3º – The Revenant: O Renascido (The Revenant, 2015), de Alejandro G. Iñárritu (61 pontos)

Um filme baseado em factos verídicos, num cenário selvagem do território americano, no século XIX, é provavelmente a produção de Hollywood mais singular do ano. O cenário é violento e sujo e o caminho a percorrer é duro e perigoso, retratando o lado mais selvagem e frio do ser humano para a sobrevivência.Um western moderno, único e grandioso. “The Revenant: O Renascido”, que contava doze nomeações, venceu três Óscares, o de Melhor Realizador, de Melhor Ator e de Melhor Fotografia. A realização sublime de Iñárritu, a fotografia de Emmanuel Lubezki, que capta uma imaculada paisagem, ainda no seu estado bruto, a banda sonora discreta, mas soberba, de Ryuichi Sakamoto, e o desempenho extraordinário de Leonardo DiCaprio, o que demonstra bem a dedicação e a entrega que o ator teve para com este filme. Todos estes elementos fazem de “The Revenant” uma experiência extraordinária e que deve ser vivida e revivida. O resultado final deste filme é soberbo, demonstrando uma grande evolução e brilhantismo por parte de Iñárritu. É um dos melhores filmes do ano e ocupa o terceiro lugar desta lista.

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4º – Os Oito Odiados (The Hateful Eight, 2015) de Quentin Tarantino (60 pontos)

Depois de ter morto nazis em “Sacanas Sem Lei” (2009) e de ter debatido a escravatura e o racismo em “Django Libertado” (2012), Tarantino apresenta-nos um jogo com oito jogadores ressentidos e magoados com o passado e que terão de se resolver num único cenário, encurralados por uma tempestade de neve. Este é o seu oitavo filme e volta aproximar-se do Teatro, talvez mais do que nunca. O realizador volta a pegar em temas recorrentes do western, como a vingança, a traição, a mentira, e na questão do racismo, tema explorado sobretudo em “Django Libertado”. O realizador mantém o seu estilo muito próprio, ‘pop e cool’, para contar uma história que fala sobre a América e dos seus problemas do pós-guerra civil, as diferenças entre os negros e brancos, os mexicanos, as mulheres, os nortistas e os sulistas. “Os Oito Odiados” é um western sangrento, violento, que presenteia o público com outro banho de sangue. É mais um grande filme de Quentin Tarantino, recheado de pormenores e de elementos que nos remetem para outros filmes, bem ao estilo do cineasta.

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5º – Eu, Daniel Blake (I, Daniel Blake, 2016) de Ken Loach (50 pontos)

Um dos grandes filmes do ano sobre a dignidade humana. Aos 80 anos o cineasta inglês realiza aquela que é possivelmente a sua obra prima. Um filme cru, comovente, com uma grande mensagem e de um realismo absurdo, sobre o Estado Social da Europa, sempre com uma simplicidade e eficácia a que Ken Loach já nos acostumou. Um fiel retrato da nossa sociedade, da Europa que temos. Ken Loach apresenta-nos a ideia de que a lógica do sistema é contra as pessoas e não a favor delas. O sistema aprisiona-nos e por fim destrói-nos. Dá-nos vontade de gritar, de lutar. É a dignidade humana que está aqui em causa. Uma obra prima, um filme cru e realista de visualização obrigatória.

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6º – Cartas da Guerra (2016) de Ivo Ferreira (35 pontos)

Um dos melhores filmes nacionais de 2016 é um filme sobre o colonialismo, visto através da correspondência que o médico António Lobo Antunes mantinha com a sua mulher, durante a Guerra Colonial. Ivo Ferreira cria uma atmosfera singular, um ambiente sublime e romântico, explorando a solidão, o medo, a raiva e a incerteza de não regressar a casa e a esperança em regressar. Um filme delicado, de silêncios e visualmente sublime.

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7º – Capitão Fantástico (Captain Fantastic, 2016) de Matt Ross (33 pontos)

“Captain Fantastic” é uma fábula sobre a força dos laços familiares e os limites do sistema educativo através da tentativa de uma vida utópica fora da sociedade capitalista por parte do protagonista Viggo Mortensen com os seus filhos. O sentido de humor, bem como a narrativa criada pelo realizador Matt Ross e a cinematografia atraente de Stéphane Fontaine (“Un Prophète”, “Elle”) são os principais atractivos deste filme.

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8º – Julieta (2016) de Pedro Almodóvar (32 pontos)

Não podia faltar a mais recente obra do espanhol Pedro Almodóvar, num ano em que o cinema europeu foi rico. Este é um filme emocionante, cheio de segredos, onde acompanhamos as duas vidas da protagonista que vive mergulhada num sentimento de culpa e remorso. Um regresso do cineasta em grande força, o que torna “Julieta” num dos seus melhores filmes dos últimos anos. Um melodrama sobre o arrependimento, onde Emma Suárez faz um grande desempenho.

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9º – Anomalisa (2015) de Duke Johnson, Charlie Kaufman (29 pontos)

Charlie Kaufman estreia-se na animação em stop-motion com “Anomalisa”, filme que co-realiza com Duke Johnson. Em 2008, Kaufman tinha realizado o seu primeiro filme, “Sinédoque, Nova Iorque”. “Anomalisa” é um daqueles filmes que primeiro se estranha, mas depois sensibiliza-nos e toca-nos. A vida é normalmente depressiva e a felicidade é temporária. O amor é uma anomalia. O filme aborda um tema bastante recorrente no cinema, o amor e as suas angústias, as de qualquer ser humano. A nível técnico, a animação é fabulosa e criativa, assim como o argumento. Este é um belo filme de animação para adultos, muito emotivo e muito humano, sem ter, no entanto, um único ser humano em carne e osso.

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 ex aequo – Se as Montanhas se Afastam (Shan he gu ren, 2015) de Jia Zhang-ke (29 pontos)

Também no nono lugar, encontramos o filme “Se as Montanhas se Afastam”, de Zhangke Jia. A história foca-se num triângulo amoroso  e na sua transformação, em três fases diferentes da vida dos protagonistas (em 1999, 2014 e 2025). O filme começa com uma coreografia dançada ao som da música «Go West», dos Pet Shop Boys, cuja palavra mais presente é «together». A música, tal como o título do filme, sugerem já o tema que subjaz à história, o estar juntos ou afastados, as aproximações e afastamentos, e como o amor e o ódio andam de mãos dadas. O que vemos, através de uma estética bastante bela, em que a realizadora opta por três abordagens aspectuais diferentes, abrindo progressivamente o ângulo de filmagem, é a vida em movimento, com as suas felicidades e desventuras;  mas, no fim, como sugere a amplitude da imagem do ano de 2025, talvez vejamos mais e é aí que as nossas mais estranhas decisões se tornam sempre inexoráveis. Num ano com mais cinema asiático do que é normal, “Se as Montanhas se Afastam” tem uma justa presença nesta lista dos melhores do ano.

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10º – O Ornitólogo (2016) de João Pedro Rodrigues (25 pontos)

Este “O Ornitólogo, que é o melhor filme de João Pedro Rodrigues, conquistou o prémio de Melhor Realizador em Locarno 2016. É um filme pessoal que torna a evocar o ambiente queer como é habitual na sua filmografia (“O Fantasma”, “Morrer Como Um Homem”). A história de um ornitólogo solitário que luta pela sobrevivência transformando-o noutro homem, leva o realizador a explorar a relação do Homem com a Natureza, com algum sentido de humor. De toda a sua filmografia este parecer ser o mais universal, e ao mesmo tempo o mais pessoal e misterioso trabalho, o que fazem dele uma obra cativante e marcante do cinema português. João Pedro Rodrigues volta afirmar-se como uma das grandes referências do panorama atual do cinema português. Um filme que deve ser visto mais do que uma vez, nem que seja pela hipnotizante fotografia de Rui Poças.

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10º ex aequo – Eis o Admirável Mundo em Rede (Lo and Behold, Reveries of the Connected World, 2016) de Werner Herzog (25 pontos)

Para terminar esta lista encontra-se um dos mais recentes trabalhos de Werner Herzog (“Grizzly Man”, “Rescue Dawn – Espírito Indomável), que faz uma viagem pelo mundo da internet, da ligação do mundo, da robótica e inteligência artificial. Recorrendo a entrevistas e testemunhos de diversas personalidades ligadas à tecnologia, a utilizadores e a comunidades, Herzog faz uma reflexão sobre a forma como a evolução das tecnologias tem afetado as nossas vidas, em todas as áreas. Fala do presente e do futuro, das suas consequências pelo uso abusivo e viciante das tecnologias e questiona-nos para todas estas questões. É claramente um documentário à Herzog, com um sentido irónico, com sentido de humor e espirito crítico. A temática atual fazem deste um filme cativante do principio ao fim e um dos melhores de Herzog dos últimos anos.

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