O Porto Femme International Film Festival regressa ao Porto de 20 a 26 de abril de 2026. Durante uma semana, o melhor cinema produzido por mulheres e pessoas não binárias ocupa as telas da cidade, com sessões, encontros e atividades distribuídas por nove espaços culturais: Batalha Centro de Cinema, Casa Comum — Cultura U.Porto, Universidade Lusófona do Porto, Passos Manuel, Maus Hábitos, Mira Galerias, Galeria Nuno Centeno e Casa das Associações.
A 9.ª edição do Porto Femme centra a sua reflexão no trabalho — um tema vasto e transversal que convida a pensar múltiplas questões sociais, culturais e políticas. Ao longo da programação, o festival aborda o trabalho no cinema a partir de uma perspetiva de género, questionando as desigualdades e explorando as dimensões do trabalho na esfera doméstica, no cuidado e na vida profissional.
Esta reflexão estende-se também à própria história do cinema, interrogando as formas de invisibilidade que afetaram e continuam a afetar as mulheres na indústria cinematográfica — desde as pioneiras cujos trabalhos foram esquecidos, apagados ou excluídos dos arquivos até às desigualdades que persistem hoje no acesso a diferentes funções e responsabilidades no setor audiovisual.
Atualmente, apenas cerca de 21% das longas-metragens de ficção são realizadas por mulheres e, segundo vários estudos, ao ritmo atual poderão ser necessários mais de 50 anos para alcançar a paridade entre mulheres e homens em todas as áreas. Falar de trabalho é, assim, falar de poder: de quem é vista, reconhecida e preservada — e de quem continua a ser apagada — nas diferentes esferas da vida social, cultural e profissional.
Na sua 9.ª edição, o festival propõe como tema o trabalho, um conceito que atravessa tanto o cinema como a sociedade e que nos convida a questionar estruturas de poder, desigualdades e invisibilidades que continuam a marcar a experiência das mulheres.
É neste contexto que, em antecipação do ciclo Pioneiras do Cinema Português, o festival apresenta, em parceria com a Cinemateca Portuguesa, uma sessão especial em formato cine-concerto, com curadoria de Ricardo Vieira, reunindo um conjunto de obras recentemente restauradas e raramente exibidas.
Entre os filmes apresentados encontra-se “Cascaes” (1937), de Amélia Borges Rodrigues, cineasta açoriana radicada no Brasil que, entre 1934 e 1937, terá produzido ou realizado cerca de trinta e cinco filmes sobre diferentes regiões de Portugal. Exibidas em Portugal, no Brasil e nas colónias africanas, estas obras constituem um caso singular no contexto do cinema português dos anos 1930 e testemunham uma prática autoral praticamente ausente das histórias oficiais do cinema nacional.
A sessão inclui igualmente dois trabalhos de Bárbara Virgínia, figura central do cinema português do pós-guerra. A “Aldeia dos Rapazes – Orfanato Santa Isabel de Albarraque” (1946), curta-metragem exibida originalmente como complemento do filme “Três Dias Sem Deus”, documenta o quotidiano do Orfanato-Escola Santa Isabel. Será ainda apresentado o trailer de “Três Dias Sem Deus” (1946), vestígio de uma obra parcialmente mutilada pelo tempo após a perda da banda sonora do filme original. Realizado quando a cineasta tinha apenas 22 anos, o filme marcou a história do cinema português, ao tornar Bárbara Virgínia a primeira mulher a realizar uma longa-metragem sonora em Portugal, e foi selecionado para representar o país na primeira edição do Festival de Cannes.
As cópias de “A Aldeia dos Rapazes – Orfanato Santa Isabel de Albarraque” e de “Cascaes” foram digitalizadas pela Cinemateca Portuguesa – Museu do Cinema, no âmbito de programas de preservação e recuperação do património cinematográfico integrados em iniciativas europeias de financiamento destinadas à salvaguarda e valorização do cinema histórico.
A sessão incluirá ainda um terceiro filme de uma cineasta pioneira do cinema português, cuja identidade será anunciada em breve e que será homenageada pelo festival nesta edição.
A programação inclui ainda dois workshops que aprofundam o tema do trabalho a partir de perspetivas artísticas, críticas e curatoriais. O workshop Estratégias Feministas de Contra-Programação no Cinema, orientado pela investigadora e programadora Anastasia Lukovnikova, propõe uma reflexão sobre a programação cinematográfica enquanto prática cultural e política. A proposta inclui uma sessão teórica online aberta ao público no dia 14 de abril, bem como um momento prático durante o festival, entre 20 e 26 de abril, na Casa Comum — Cultura U.Porto, destinado a um grupo reduzido de pessoas participantes mediante inscrição.
O workshop Encenar o Trabalho, orientado pela realizadora e artista Tânia Dinis, decorre nos dias 23, 24 e 25 de abril, no MIRA Galerias | MIRA FORUM. A partir de uma prática que cruza cinema, performance, som e arquivo, o workshop propõe investigar os mecanismos de invisibilidade que marcaram a representação das mulheres na sociedade, com especial enfoque no trabalho.
A participação nos workshops está sujeita a inscrição prévia.
Durante três dias do festival terão também lugar os Encontros de Bárbaras, a vertente de indústria do Porto Femme. Nesta segunda edição, o foco começa por estar nos festivais de cinema, com o workshop Trabalho Precário em Festivais de Cinema, conduzido por Skadi Loist, dedicado à reflexão sobre as condições de trabalho e a sustentabilidade no setor dos festivais.
No segundo dia o encontro será com pessoas programadoras e representantes de festivais nacionais e internacionais para uma conversa sobre processos de programação, critérios de seleção e os desafios da circulação de filmes no circuito de festivais. O programa conclui com o Go Bárbaras! – Pitch That!, evento de desenvolvimento de projetos cinematográficos realizados por mulheres e pessoas queer, que combina formação e apresentação pública de projetos perante produtoras convidadas, orientado por Alexia Muiños Ruiz.
A programação completa da 9.ª edição do Porto Femme International Film Festival será anunciada no início de abril.

