Skolimowski revisita o clássico de Bresson com “EO” e apresenta o melhor filme de Cannes até o momento

Ao terceiro dia da 75ª ediçao de Cannes, o realizador polaco Jerzy Skolimowski impressiona com o seu grandioso EO, uma adaptação moderna do clássico de Robert Bresson “Au Hasard Balthazar”. Uma fábula de pouquíssimos diálogos que quer expor o confronto impiedoso entre homem e natureza.

Dizem as boas línguas que não se deve mexer com as vacas sagradas. Bem, neste caso, com o burro. E foi exatamente isso que o polaco Jerzy Skolimowski fez com o seu EO: pegou num dos monumentos da história do cinema (francês e não só) Peregrinação Exemplar (Au Hasard Balthazar) e o atualizou para os tempos modernos.

Skolimowski ele próprio é também uma das vacas sagradas do cinema, com oito dos seus filmes tendo passado por Cannes anteriormente, sete dos quais em competição. Ele ganhou o prémio do júri em 1978 por O Uivo (The Shout) e quatro anos depois, em 1982 o prémio de argumento por Moonlighting, com Jeremy Irons.
E por isso mesmo, faz do seu Balthazar um espetáculo radical e estonteante para os sentidos, com a elegância e a segurança de um mestre, naquele que é o melhor filme da competição até agora. O realizador polaco nunca pareceu-se tanto com Terrence Malick, na forma como filma o embate silencioso entre homem e natureza, e como captura as paisagens atmosféricas e espetaculares por onde Balthazar passa. EO é o A Árvore da Vida de Skolimowski.

No filme de Bresson, nós seguimos a vida de Balthazar, um burro nascido em uma antiga fazenda na França rural e cuidado e amado pela sua dona original Marie. Ao longo dos anos, vemos ele passar por várias mãos numa pequena cidade, sempre acabando por ir parar nas mãos de Marie. Ao mesmo tempo, Balthazar é regularmente espancado e maltratado pelas mãos das pessoas que eventualmente acabam por cruzar o seu caminho. E tudo isso é visto pelos olhos tristes e assombrados do pobre burro, que de modo silencioso observa a miséria humana, enquanto a sua dolorosa existência passa diante dos seus olhos.

Skolimowski fez poucas alterações à história de Bresson, mas o pouco que fez o transformou num filme completamente diferente do francês. Claro que é um filme atualizado às políticas de 2002, onde por exemplo, os direitos dos animais não poderiam ter sido ignorados como foi no clássico de Bresson. A determinado momento, vemos uma demonstração nas ruas contra maus tratos de animais, um dos momentos que deixa claro uma das missões do filme. Enquanto que Bresson queria expor as mazelas humanas focando sua narrativa nas histórias à volta dos seus donos, Skolimowski está mais interessado no mundo através dos olhos do burro. E por isso, o filme é feito de pouquíssimos diálogos, mas dando espaço a imagens eloquentes e desesperadas, sempre acompanhadas pela música portentosa de Mirosław Koncewicz.

Na conferência de imprensa do filme o realizador não pode estar presente mas enviou um vídeo aos jornalistas onde improvisou uma espécie de protesto, dizendo que acredita que quando o burro relincha ele está tentando se comunicar connosco, como se quisesse dizer “olhe pra mim! Eu sou como você, tenho desejos e sentimentos exatamente iguais aos seus.” 

E por falar em vacas sagradas, na meia hora final de EO, uma agradável surpresa quebra o silêncio do filme: madame Isabelle Huppert surge no ecrã num pequeno papel de pouco menos de dez minutos. Ela faz a mãe de um dos últimos donos do animal, um rapaz que de início parece tratar o animal com alguma dignidade mas que depois a certa altura confessa ao burro que já comeu muita carne na vida, especialmente salami, notório por ser produzido com carne de burro.

EO é um espetáculo grandioso de um dos mestres do cinema, revisitando e atualizando outro mestre, Robert Bresson, um dos maiores ídolos de Skolimowski. É também um filme assumidamente político, alegórico e um belíssimo documento que prova que o cinema está mais vivo do que nunca.

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