“Tori and Lokita”: um Dardenne frenético como nunca vimos antes

Os belgas estão a dar nas vistas na competição em Cannes: os irmãos Dardenne retornam com uma aventura de dois jovens imigrantes a navegar o lado mais hostil da Europa e o jovem Lukas Dhont que virou uma sensação no penúltimo dia do festival com o seu trágico “Close”.

Quase que se pode afirmar que os irmãos Dardenne são um nicho criado por Cannes. Desde que o seu Rosetta levou a palma de ouro em 1999, desbancando o favorito Almodóvar com Tudo Sobre a Minha Mãe, os belgas meio que se tornaram numa coqueluche do festival. 

É como se os belgas tivessem para Cannes da mesma forma como Hong Sang-soo está para a Berlinale. Ou seja, membros de um clube onde os seus filmes sempre farão parte. Assim como Sang-soo, que todo ano consegue a proeza de ter um filme em competição em Berlim, os Dardenne raramente deixaram de mostrar seus filmes em Cannes. Para além das duas palmas de ouro (o já citado Rosetta, e em 2005 por A Criança) levaram também o prémio de melhor argumento para O Silêncio de Lorna (2008), o grand prix para O Miúdo da Bicicleta (2011) e melhor realização para O Jovem Ahmed (2019).

E este “carimbo” patrocinado por Cannes, que por consequência transformou, e aprisionou o cinema dos belgas, fez deles uma espécie de exemplo máximo do filme de festival: dramas sociais austeros, silenciosos, com câmara intrusa  e claustrofóbica sempre colada aos seus personagens.
Com Tori and Lokita, isso tudo é arremessado para bem longe e ainda bem, porque o filme é diferente de tudo o que eles já fizeram até aqui. Arriscamos a dizer que é o seu melhor filme desde Rosetta.

É verdade que há um maniqueísmo no filme que poderia ter sido melhor resolvido. Os “irmãos” Tori e Lokita são como o burro de Skolimowsky, que por onde passam são confrontados com a escória da humanidade, maltratados e explorados por toda gente (os impiedosos brancos e europeus) que  lhes cruzam o caminho. 

Mas o carisma e a química da dupla central é tão intensa que nos esquecemos das fragilidades do filme. Tori and Lokita é um filme ágil e frenético, que traz à memória as aventuras clássicas de Vittorio de Sica, como Vítimas da Tormenta ou Ladrões de Bicicletas, e onde o conteúdo político é menos vistoso e pragmático como era, por exemplo, em O Jovem Ahmed.
Não que o cinema dos realizadores tenha se tornado menos político, nada disso, pois Tori and Lokita é quase um filme-denúncia, na forma como explora a jornada de dois jovens imigrantes a apanhar da burocracia impiedosa na Bélgica; mas os temas aqui não são utilizados apenas como dispositivo motor do centro da narrativa. E esta vitalidade que o novo filme demonstra, atualiza o filme dos realizadores e os liberta do enclausuramento do estilo.

Tori and Lokita é definitivamente um dos pontos altos da competição 2022 de Cannes e corre o risco de fazê-los entrar para a história como sendo os únicos realizadores a receber a palma de ouro três vezes.

Close, de Lukas Dhont

E por falar em Rosetta, a atriz que dava corpo à personagem icónica do filme que deu a primeira palma aos irmãos, Émilie Dequenne, retorna às mãos de outro belga. O jovem Lukas Dhont, que aos 31 anos mostrou ontem o seu muito aguardado Close, o seu segundo filme depois da belíssima estreia de Girl na Un Certain Regard em 2018 e acabou por arrebatar o camera d’or, prémio dedicado às primeiras obras.
Durante os dias que antecederam a projeção de Close, muito se falou que seria um dos melhores filmes da competição. A julgar pela reação dos presentes na estreia, que teve um dos aplausos mais longos dessa edição, o filme é um sério candidato ao prémio máximo do festival.

Ele conta a história de Léo e Rémy, ambos com 13 anos. Eles são amigos inseparáveis, frequentam a mesma classe na escola e tem uma amizade tão intensa que os colegas de classe questionam se eles “estão juntos”. Daí um dia, de repente, uma tragédia acontece e o curso da relação é violentamente interrompida. O jovem realizador fez um filme intimista e quase que funciona como uma continuação de Girl. Isto é, exatamente o oposto da realidade bruta dos pequenos de Tori and Lokita.
E o problema do filme está bem aí: no universo higienizado e esclarecido de Dhont, não existe de facto um conflito que dê carga ao seu filme, então quando as motivações para o tal ato de violência são reveladas, tudo soa tão despropositado e fora do lugar que o filme perde a sua força.

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