Os 10 melhores filmes de 2013, por Eduardo Magueta

Chega o fim do ano, chega portanto a altura das dores de cabeça: chega a altura de pensar em quais os melhores filmes que estrearam nas salas portuguesas (na minha opinião). Escolher uma lista de dez filmes num universo onde pelo menos cinquenta são merecedores de um lugar no top é ingrato mas tem que ser feito, como tal, vou-me despachar à apresentar a lista antes que mude de opinião e tenha que a refazer outra vez.

E já agora convém mencionar que à parte do filmes número 1, todos os filmes da lista estão colocados numa ordem arbitrária, sem preferências, já que que cada um desses nove filmes me agradou por motivos quase completamente diferentes e que por vezes não consigo comparar com os outros, tornando a tarefa de os tabelar por ordem de qualidade bastante complicada. Comecemos então:

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10º – Histórias que Contamos (Stories We Tell) de Sarah Polley (Canadá)

Num ano em que vi um numero insano de documentários (obrigado Netflix!) nada melhor do que abrir as festividades do que com um “pequeno” ensaio documental sobre a família de Sarah Polley, mais concretamente sobre a mãe dela, Diane Polley. Sarah Polley é uma realizadora que apesar de ter poucos filmes feitos, apresenta uma visão bastante peculiar e promissora, e o que a realizadora nos quis dizer com “Stories We Tell” é que toda essa visão e amor por boas histórias vêem da sua família de contadores de histórias. Desde os irmãos aos tios, pais e avós, o clã Polley tem um fraquinho pelo lado narrativo da vida e Sarah captou-o de forma formidável, por vezes utilizando a velha técnica da entevista e imagens de arquivo e outra vezes utilizando a ficção para recriar tudo aquilo que ela não pode presenciar mas que lhe foi contado pelos pais. Muitas vezes os actores dessas encenações são as mesmas pessoas que viveram os momentos originais, dando um toque “meta” a um filme que tem tanto de “querido” como de confuso. “Stories We Tell” é um telegrama visual, curto e directo sobre o que é crescer num meio criativo e sobre a relação das pessoas com as suas memórias. É também um filme “feel-good” sobre uma mulher que formou uma família e contava histórias só porque sim. Peguem-lhe por onde lhe pegarem, acaba sempre por dar no mesmo: um excelente momento cinematográfico que fica claramente marcado como um dos melhores do ano.

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– O Mentor (The Master) de Paul Thomas Anderson (EUA)

Não me decidi ainda se me considero fã de Paul Thomas Anderson ou apenas simpatizante e isso por si só já acusa um pouco o que penso sobre o “The Master”, a questão aqui é a forma como PTA filma a cara de Joaquin Phoenix; todos os detalhes daquela mente partida e confusa pela guerra e pelos shots de gasolina de navio e a forma como essa mesma mente encontra uma âncora na personagem de Phillip Seymor Hoffman e na sua religião “estranhamente”   com a Cientologia. “The Master” tem a crueza e o charme de um drama e a beleza visual épica digna da película 65mm com que foi filmado. Uma excelente experiência para se viver no cinema.

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8º – Bestas do Sul Selvagem (Beasts of the Southern Wild) de Benh Zeitlin (EUA)

Vi este filme bem antes dele ter estreado nas salas nacionais e desde essa altura que tive a certeza que o ia colocar na lista dos melhores filmes de 2013. Estava errado? Não. Toda a fantasia e imaginação da primeira longa-metragem do realizador Behn Zeitlin cativaram-me desde o primeiro plano. Um filme digno de um Michel Gondry sobre uma menina de seis anos e da relação com o seu pai numa região inundada onde criaturas fantásticas se passeiam livremente é o tipo de filme que sempre me atraiu e sempre me irá atrair.

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7º – Assassinos de Férias (Sightseers ) de Ben Wheatley (Reino Unido)

Ora bem; primeiro havia Bonnie e Clyde, depois houve Mallory e Mike Knox. Agora há Tina e Chris, o casal britânico que decide ir fazer uma viagem de caravana pelo Reino Unido e que acaba numa onda de roubo, assassínio e turismo rural. O que há para não gostar? Provavelmente o filme menos conhecido da lista, “Sightseers” foi realizado por Ben Wheatley (“Kill List”) e protagonizado pelos ainda não famosos Steve Oram e Alice Lowe. Este filme contém o misto de violência e humor negro de um “In Bruges” ou de um “Snatch”. Pontos extra por ter um dedinho de Edgar Wright (“Hot Fuzz”, “Scott Pilgrim vs The World”) na produção.

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6º – Frances Ha (Frances Ha) de Noah Baumbach EUA)

Frances Ha tinha tudo para cair no grande fosso cinematográfico/televisivo genérico do “jovem-pessoa-estranha-de-classe-média-alta-nos-seus-vinte-anos-a-tentar-ser-bem-sucedido-enquanto-enfrenta-fase-introspectiva” mas ou por boa sorte ou porque calha de ser mais um filme de Noah Baumbach o filme salta para bem longe desse fosso e aterra num local agradável e interessante, onde o visual lembra um pouco de “Manhatan” de Woody Allen e um bocadinho grande de Nouvelle Vague, com o twist de ser um dos filmes mais optimistas que Baumbach já lançou (o realizador tem tendência a ficar-se pelas tragicomédias). Os meus parabéns também à actriz Greta Gerwig pela forma meticulosa como criou a sua personagem Frances (a actriz é também a co-argumentista do filme.)

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5º – Mud (Mud) de Jeff Nichols (EUA)

Jeff Nichols tem sido consistente na qualidade do seu trabalho. Primeiro com “Take Shelter” e agora com este “Mud”, que nos coloca nas margens do Mississipi neste filme sobre o amor, experiência e crescimento. Curiosamente, revejo neste filme um fechar de ciclo começado em “Take Shelter”; se o anterior filme do realizador é sobre um fado negro que se aproxima inevitavelmente a sua mais recente obra tenta colocar o negativo para trás e focar-se no positivo que pode chegar se o esperar-mos. O filme, muito por culpa da boa interpretação do elenco, fez-me imitar as personagens ao longo da sua duração e colocou-me a imaginar por futuros que até aqui não tinha tido em conta, todos os destinos possíveis e impossíveis e questionar-me sobre o que fazer para lá chegar. Poucos filmes tiveram este impacto pessoal em mim este ano e portanto dedico a “Mud” um lugar no panteão dos filmes do ano.

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4º – 00:30 A Hora Negra (Zero Dark Thirty) de Kathryn Bigelow (EUA)

Tal como “Beasts of the Southern Wild”, vi “Zero Dark Thirty” muito antes dele chegar ás salas nacionais, tanto que quando chegou a altura de começar a organizar a minha lista, quase que me esqueci dele. “Zero Dark…” recebeu cinco nomeações para os Óscares de 2013 e consegue-se perceber bem porquê; desde o argumento cirurgicamente planeado por Mark Boal que tinha ganho no ano anterior o Oscar de melhor argumento original por “The Hurt Locker”, também realizado por kathryn Bigelow (que também levou o respectivo galardão técnico por esse filme) até à interpretação electrizante de Jessica Chastain, tudo neste filme sobre a caça a Bin laden acaba por ser bastante melhor do que aquilo que seria inicialmente esperado.

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3º – Guia para um final feliz (Silver Linings Playbook) de David O. Russell (EUA)

O primeiro filme em quase dez anos a ser nomeado para os 5 Óscares principais (acabou por levar só um, para Jennifer Lawrence) “Silver Linings Playbook” foi uma das maiores surpresas do ano, mesmo para quem já conhecia o trabalho do realizador David O. Russel (“Three Kings”, “The Fighter”). Este filme é um coleccionar de personagens mentalmente partidas, esgotadas, que acabam por se emular umas às outras nos defeitos e completar nas qualidades, levando de forma quase subtil a que a narrativa do filme passeie entre o melodrama familiar e a comédia romântica ligeira. ”Silver Linings Playbook” fez com que abrisse os olhos para o trabalho de Jennifer Lawrence e Bradley Cooper e me está a fazer água na boca para o próximo filme de O. Russel, “American Hustler”.

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2º – Antes da Meia-Noite (Before Midnight) de Richard Linklater (EUA)

Iria apreciar tanto “Before Midnight” se não tivesse a bagagem emocional de “Before Sunrise” e “Before Sunset”? Talvez não. É o filme menos genial por ser a terceira parte de uma saga romântica sobre duas pessoas que se conheceram por mero acaso num comboio algures na Europa? Definitivamente também não. Richard Linklater é um realizador do qual sou fã há bastante tempo e esta saga “Before…” criada pelo realizador e pelos actores Julie Delpy e Ethan Hawke é quase tudo aquilo que eu gosto de ver num filme: fluidez nunca forçada na narrativa, trabalho de câmara simples mas forte, interpretação vincada e emoção com fartura. Tal como “Toy Story 3” foi a sequela de todas as sequelas em 2012, “Before Midnight” reina supremo num 2013 onde boa parte dos filmes (ok, admitamos, boa parte dos Blockbusters) são também sequelas.

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1º – Gravidade (Gravity) de Alfonso Cuarón (EUA)

O filme que representa tudo aquilo que o Cinema enquanto arte deve ser: Ambicioso, belo, criador de sonhos e mestre das ilusões; “Gravity” foi tudo aquilo que eu esperava e mais alguma coisa. Antes sequer de pensar na minha lista para os melhores do ano já sabia que este ia ser o filme a estar no topo e a verdade é que não lhe consigo ver concorrência forte pelo título. Alfonso Cuarón levou os seus longos planos de sequência para o Espaço e usou com mestria o infinito que existe para lá do grande azul e das nuvens, um infinito ensurdecedor e claustrofóbico que quase que nos roubava a brilhante Sandra Bullock, que me obriga neste filme a torcer o braço e a dizer que fez um excelente trabalho (nunca fui fã, confesso, mas elogios para onde são devidos.).

O resto do elenco mesmo que com pouco tempo de antena também mostrou ser bastante competente, principalmente George Clooney a interpretar uma personagem que basicamente é “George-Clooney-a-descontrair-com-um-jetpack-no-espaço” e que dá o alívio-cómico tão importante num filme cheio de momentos de cortar a respiração.

“Gravity” valeu bem o preço do bilhete, quanto mais não seja pelo plano de sequência que abre as hostes e, quanto maior o tamanho do ecrã de cinema, melhor, pois este filme merece ser visto com todas as grandezas possíveis e imaginárias.