“Se Eu Tivesse Pernas Dava-te Um Pontapé”: o amor incondicional

No turbilhão de “Se Eu Tivesse Pernas Dava-te Um Pontapé”, o amor tenta preencher vazios que a culpa insiste em abrir
Se Eu Tivesse Pernas, Dava-te um Pontapé Se Eu Tivesse Pernas, Dava-te um Pontapé
“Se Eu Tivesse Pernas, Dava-te um Pontapé”, de Mary Bronstein

Dizer que Linda (Rose Byrne) é uma mulher à beira de um ataque de nervos é um understatement, ou não fosse o seu muito estranho sonho-lúcido-que-não-o-é – mas que parece tão real porque é feito de “apagões” e desligamentos da realidade quotidiana – uma constante luta para se manter acordada e desperta para o que, à partida, lhe interessaria ser: uma mãe perfeita, uma colega respeitadora, uma cidadã com sentido de civilidade, enfim, uma pessoa sóbria e integrada no mundo real das coisas mundanas e burguesas do dia-a-dia da contemporaneidade 24/7. Mas ela não o é, de maneira nenhuma.

Ela é uma constante correria de si mesma – capaz de competir com “Marty Supreme” – e em convolução constante, gritaria, discussão, teimosia e uma predisposição para estar contra todos que estejam aparentemente contra ela, ou não fosse ela estar sempre assim: em oposição a um mundo que não a compreende e com o qual ela não consegue realmente dialogar, porque não respira, antes hiperventila porque quer explodir, mas não explode porque adormece, e dorme porque apaga, e acorda porque é um despertar súbito, e não se encontra a si mesma mesmo quando está em corredores e portas que lhe parecem todos iguais, e está sempre a ir a algum lado em que não pode parar, mas quando para não a deixam lá ficar, e grita porque gritam com ela, e discorda com quem lhe quer dizer o que ela deve fazer porque só ela é que vê que o que lhe pedem é um objetivo impossível de se alcançar e uma derrota clara mesmo antes do jogo ser jogado. Como é que ela pode comunicar com o mundo se ele não se comunica com ela? Só ela é que pode ter realmente razão: tudo à sua volta é insano.

O Buraco no teto é um outro mundo, é um multiplicar de faíscas e um universo estranho, um espaço sideral que não tem razão nenhuma de existir e que só pode ser resultado da sua imaginação, da embriaguez avançada ou de uma “tripe” que lhe corre muito mal. Mas afinal, o que é esse Buraco no teto? É olhar para dentro? É a manifestação da sua culpa? É o corpo a lhe dizer para acalmar? Ou a chamá-la para mais uma garrafa de vinho ou uma joint bem tirada? Entre o gasoso e o líquido, esse estranho-sítio é um refúgio, um apagamento em relação à rapidez incessante que a afoga e desloca, ou não fosse esse descentrar em direção a esse desconhecido incompreensível um desses momentos de apagamento-do-mundo em que o delírio é ao menos uma escapatória à dura irrealidade acordada que é a sua vida real: na falta de sentido do que se passa no interior do Buraco, afirma-se o não estar a aguentar com tudo o que é “realidade” e antes experienciar um outro-lado-do-espelho que a água jorrante lhe permitiu conhecer. O mundo-outro é sempre melhor que o mundo-atual. Pelo menos, até que lhe fechem a entrada.

A culpa de uma mãe. É esse o tema central do filme? A ânsia do bem ser e a incapacidade de o conseguir fazer? A tormenta de não atuar nos melhores interesses da sua Filha (Delaney Quinn), mas antes nos seus? A desordem alimentar da filha e a necessidade que ela tem de um tratamento-por-máquina – através da alimentação noturna e por meio um tubo que lhe está inserido no abdómen – não a deixam dormir, o barulho do maquinal é como o delírio do Buraco, são dois vazios: um vazio de uma não lucidez que lhe é lúcida e um vazio de uma barbárie sonora que só a faz acordar e nunca dormir.

Que ela pode fazer então? Ficar ali, a ouvir o alarme que parece uma urgência de morte, mas que só a chama para fazer espremer e escoar um líquido pegajoso e de coloração já doentia que está ali somente para invadir o corpo da filha? Ou fugir, beber uma garrafa de vinho, fumar um charro, delirar e devanear com e no Buraco, ver coisas que só ela vê, mas que são vazios do vazio, nulidades da culpa de quem não pode ver assim invadida a corporalidade de uma voz que é tão doce e tão querida, a filha que nunca se vê, mas que só se ouve, o som novamente, entre essa doçura infantil e o raio da máquina que é horrível no seu maquinar regurgitante e repetitivo e que depressa entra no regime do alarmar estridente, vermelho como só nos abismos no inferno, só ali para a infernizar, e nada de bom a fazer à Filha, antes a só nela fazer entrar o mal líquido que só atrasa a sua cura.

Linda não quer fazer nada disso, ela quer tirar o tubo, dar à filha a capacidade de resolver o que só o seu corpo pode resolver, a ordem interna, equilibrada e balanceada, que a máquina não lhe trará. Linda não joga o jogo das culpas choradas das outras mães, antes a fala para o seu Terapeuta (Conan O’Brien), numa relação completamente disfuncional, tal como seria sempre entre colegas da mesma profissão, e que até trabalham no mesmo corredor do mesmo andar de gabinetes de terapia psicológica, e onde se prova, pelo menos pela forma como Linda pergunta, responde, contra-ataca e riposta às questões que nunca o colega lhe faz – já que é ela que antes vocifera para poder dizer a má mãe que é e a culpa que sente de tão horrível ser – que, para além de ser a pior paciente possível, ela é também a construtora de uma culpabilidade que não lhe pode ser assacada, porque que com todas as falhas, comportamentos inapropriados, gritos histéricos, atitudes incivis, ela não deixa de ser a progenitora e cuidadora de uma filha que ela sabe estar a caminho de uma cura do corpo pelo corpo, e que mesmo no ato aparentemente tresloucado de lhe retirar o tubo de alimentação e imaginar o fechamento do buraco que ela tem no abdómen, está sempre presente a inabalável crença de que o faz pelo melhor da Filha.

Quando ela se lança contra as ondas que lhe são uma parede intransponível a que ela continuamente se atira, já não há o Buraco, já não há o Vazio, mas sim o desespero de quem mais não poderia ter feito do que aquilo que fez, desligar a maldita máquina, tirar o maldito tubo. O Buraco, esse já havia sido tapado por ordem do seu marido Charles (Christian Slater), anteriormente ausente e uma voz só de telefone, mas agora regressado. Caída na areia, Linda está perante a Filha, face finalmente desvendada, uma doce cara para uma doce voz, já sem o tubo, a chamar por ela. Responde Linda que será melhor, será melhor. O tema de Mary Bronstein neste filme nunca foi o da culpa de se ser má mãe, mas sim o da maternidade incondicional e dessa vontade de se querer ser sempre melhor para uma filha, porque é essa a necessidade maior, aquela que mais guia, nutre e alimenta: a do amor. O amor é necessário. O amor faz andar o mundo. O amor fecha buracos. O amor vale tudo. O amor é incondicional.