“À Procura de Nemo”: um pai diante do mundo

“À Procura de Nemo” reflete sobre os limites do cuidado, a tensão entre proteger e permitir, e a liberdade que nasce quando se aprende a deixar o filho explorar o mundo por conta própria
À Procura de Nemo, pai À Procura de Nemo, pai
"À Procura de Nemo" (2003), de Andrew Stanton

Alguns pais amam como quem procura domesticar o imprevisível. Não por ilusão de controlo, mas porque um dia o imprevisto assumiu uma dimensão devastadora. Em “À Procura de Nemo”, esse gesto inaugural excede a função de simples ponto de partida narrativo. Configura, antes, uma forma de estar. Marlin atravessa o filme na tentativa persistente de impedir que o acaso volte a inscrever-se na sua vida.

O problema é que o acaso, indiferente à vontade de controlo, tende a infiltrar-se por entre as brechas do previsível.

Durante muito tempo, confundiu-se paternidade com vigilância. Amar seria, então, antecipar o perigo, reduzir o mundo a um perímetro seguro, ensinar o filho a nadar apenas onde o fundo é visível. Marlin leva essa lógica às últimas consequências. Os conselhos convertem-se em advertências, os silêncios, em operações de cálculo. Não há espaço para o erro porque o erro, na sua memória, já aconteceu e foi irreparável. O passado, quando não é elaborado, transforma-se num manual de instruções.

Mas os filhos, ao contrário do que por vezes se supõe, não nascem para confirmar os receios dos pais. Nascem, talvez, para os contrariar. Nemo, com a sua barbatana imperfeita e a sua curiosidade intacta, não quer um mundo seguro. Quer um mundo possível. E isso implica risco. Não um risco heróico, mas o risco banal de existir sem supervisão constante, de experimentar sem garantia de sucesso, de falhar sem que alguém tenha previsto a falha. Crescer, no fundo, é isto. Tornar-se autor de pequenas imprudências.

Pressente-se uma radicalidade contida na forma como o filme articula estas aprendizagens. O pai atravessa o oceano num percurso de desapego, enquanto o filho, confinado a um aquário, ensaia as primeiras formas de acção. Entre ambos, instala-se uma ironia de tonalidade subtil. A liberdade não depende tanto do espaço quanto da maneira como se habita o medo. Pode-se viver num oceano inteiro e continuar prisioneiro. Pode-se habitar um aquário e descobrir, ali, uma primeira forma de autonomia.

E depois há Dory. Não como alívio cómico, mas como hipótese de vida. A sua memória curta impede-a de acumular desastres. Onde Marlin vê continuidade, ela vive em fragmentos. Poder-se-ia dizer que lhe falta profundidade. Talvez lhe sobre leveza. Dory não nega o perigo, mas recusa organizá-lo como lógica de conduta. Avança porque não sabe bem o que ficou para trás. E, de forma quase involuntária, ensina que a coragem pode ser apenas isto, não deixar que o passado dite todos os movimentos.

Nesse jogo de oposições, formula-se um comentário sobre o modo como dispomos a experiência. A memória, tão celebrada como fundamento da identidade, pode tornar-se também um dispositivo de repetição do medo. Lembrar demais não é necessariamente compreender melhor. Às vezes é apenas reviver, em circuito fechado, aquilo que não conseguimos ultrapassar. Dory, com a sua falha, introduz uma outra possibilidade. Viver sem garantias de continuidade, mas com uma disponibilidade radical para o presente.

A Pixar construiu aqui um daqueles filmes que parecem simples até começarem a incomodar. Porque a pergunta que fica não é sobre peixes nem sobre oceanos. É sobre o que fazemos com aquilo que tememos perder. Alguns erguem muros. Outros aprendem, lentamente, a abrir portas. Entre uns e outros, subsistem aqueles que oscilam entre ambos os movimentos, numa hesitação que não é estranha à vida.

No fim, Marlin não deixa de amar como antes. Mantém-se vigilante e próximo, porventura ainda assombrado pela hipótese do pior. A diferença é de outra ordem, mais prudente. Abandona a pretensão de controlar tudo. Intui que proteger não é subtrair a vida ao risco, mas segui-la, mesmo quando se desvia dos caminhos previstos. Nesse aceno, instala-se uma forma de humildade. Uma aceitação de que o amor não é uma forma de domínio.

Talvez seja isso que custa mais na paternidade, aceitar que o amor não dá direito à garantia. Que não há forma de blindar o mundo sem, ao mesmo tempo, o empobrecer. Que cada tentativa de eliminar o risco elimina também a possibilidade de descoberta. E que, no limite, educar é preparar alguém para um mundo onde já não estaremos.

Por isso, há um momento inevitável, ainda que raramente nomeado. O momento em que o filho nada para lá do nosso alcance e não há nada a fazer senão confiar. Não porque o mundo se tenha tornado seguro, mas porque ele nunca o foi. E talvez nunca venha a ser.

Fica então o pai, do lado de cá, a aprender uma coisa que nenhum manual ensina. Que amar é, também, abdicar da ilusão de controlo. Que cuidar não é segurar, mas acompanhar até onde for possível. E que, a partir daí, resta apenas isso, confiar.