“Batalha Atrás de Batalha”: a urgência da ação

Num regime de fluxo constante, a narrativa de Paul Thomas Anderson faz da fuga e do confronto uma mesma matéria, atravessada por laços familiares instáveis e tensões políticas
Batalha Atrás de Batalha Batalha Atrás de Batalha
“Batalha Atrás de Batalha” (2025), de Paul Thomas Anderson

A câmara-fluxo de Paul Thomas Anderson não pára. Mas neste “Batalha Atrás de Batalha” é a urgência da ação que ganha proeminência. Ela tem que avançar, tem que urgentemente correr, sobre-respirar, os “flairs” luminosos entram obliquamente nela: confusão, caos, necessidade de acionar, re-acionar, re-ajustar, re-acelerar, fluxo e re-fluxo, potência e energia.

É um filme de ação, com a câmara-em-ação a acompanhar corpos-em-ação. Em batalha, em ataque e em fuga, em procura constante e em embate permanente. Em formas de fluxo, em fluxos contínuos.

O fluxo-ataque: o cair da noite é possibilidade de engano, enquanto uma forma de atacar e marcar uma ação de libertação e um stunt revolucionário. O padrão das grelhas desenhadas no arame duro, fechamento, fronteira dentro da fronteira, prisão primeira, local de refluxo.

Os riscos de luz, holofotes de cegamento, luzes de foco e de vigilância, destrinçar, cortar, avanço contínuo, invasão. O estéril de um corredor esbranquiçado. O movimento é militarizado, é forma de ação, des-avanço impossível, procura dos corpos cobertos no alumínio que é cobertor feito de um desaquecimento frio e, como tal, desprovido de quentura, disposição de corporalidades juntadas para posterior processamento.

A necessidade é uma de marcar a posição indefectível em relação ao sistema que não é o deles, um de conformidade com a lógica capitalista de troca de corpos enquanto valor negligenciável.

O que diz Perfidia Beverly Hills (Teyana Taylor) é “…fronteiras livres, corpos livres, escolhas livres e livres do medo!!”, o que assim deixa gritado um manifesto de inconformidade violenta, de atuação guerreira, de arma em punho, em desafio e estranho jogo sexual com o Capitão Steven J. Lockjaw (Sean Penn), ao mesmo tempo afirmando o seu ódio para com a personificação do militarismo insensível de direita e chamando-o para o que claramente vai ser uma futura troca libidinal, tão desfasada quanto arriscada, como política e como meio de equilíbrio entre males que se atraem e se repulsam ao mesmo tempo.

Assim, o fluxo é ataque, verbal e de intenções, mas é também outra coisa: cria o desejo irreparável, que se consumará num fluxo de fluidos, e que assim deixará expressa (fertilizada) a clara negação das razões supremacistas que não existem, a filha de ambos será a mistura que do desejo pelo corpo que não se pode desejar – mas que se deseja com toda a ânsia — se virá a fazer. O desejo não é cínico, é somente fluxo, não olha a cores. Deseja somente, corpo com corpo, corpo para corpo.

O fluxo-tempo: 16 anos passam. Willa Ferguson (Chase Infiniti) é o corpo resultante da troca e fluxo libidinal entre Lockjaw e Perfidia.

Forte, livre, espirituosa, enérgica, o contrário das negatividades dos pais, ela é tão mais adulta do que o seu pai não biológico, Bob Ferguson (Leonardo DiCaprio), o anterior operador de pirotecnia e extremo esquerdista auto-esquecido e perdido para o consumo excessivo de drogas e álcool e que mais nada tem a ver com a disciplina de ferro que um membro de um grupo revolucionário deveria ter.

O tempo flui de uma forma inexorável e ao mesmo tempo que cria uma força como a de Willa, faz também uma fraqueza como a de Bob, que só faz das palavras contra o sistema a sua plataforma de in(ação) política, e que, como tal, já não se perfaz pela luta-em-ação, mas antes por estar sempre com o robe de dormir como uniforme de não-luta.

Mas terá que lutar, e terá que correr, e terá que estar em fluxo constante, a expurgar os males do corpo a que deixou de dar o valor-uso que deveria dar, para que não deixasse de estar de acordo com a ideologia que deveria ter como subsumida ao seu modo de estar de revolucionário socialista. Mas assim não o fez, mas terá que o fazer.

O fluxo do tempo é também o do esquecimento: e como o esquecer é simultaneamente um vazio, uma falha, um perigo e um rasto que só se quer apagar.

Perfídia desapareceu. Lockjaw perdeu-a. Qui-la acorrentar, qui-la ter como corpo de desejo, mas ela nunca o permitiria, e a estranha relação nunca poderia ser outra coisa do que a sua própria negatividade: nunca ela, uma revolucionária negra e poderosamente feminista, poderia assumir ter tido um filho de Lockjaw, nem ele, racista e supremacista como é, poderia jamais ter como filha uma criança não branca.

Entre a culpa de ter traído os membros do seu grupo e de ser ter dado a Lockjaw, Perfidia perde-se para o fluxo do tempo, desinscreve-se dele, desmarca-se da presença e ação revolucionária, deixa de ser para passar a não-ser, transcreve-se para a mentira dos heróicos atos que nunca verdadeiramente levou a cabo, antes pelo contrário, foi o resultado de ter levado ao extremo a sua postura auto-libertária, pois assim se fez como a figura enganosa do seu próprio desaparecimento e desvanecimento.

Pelo seu lado, o agora Coronel Lockjaw tem que ter a certeza do que suspeita muito claramente: que aquela jovem que vive como a filha de Bob Ferguson é, na verdade, a sua, e isso não poderá pôr em causa a sua candidatura ao “The Christmas Adventurers Club”, um grupo de ultra-direita que se reúne em túneis por baixo da serenidade suburbana, para discursos e razões ideológicas de uma obscenidade tal que já se pensariam definitivamente esquecidas.

Assim o fluxo do tempo não o permitiu. Lockjaw persegue o resultado e nunca a razão. Entre a troca libidinal e o reflexo que sabe que encontrará em Willa, está o destruir das suas razões obtusas.

O fluxo-fuga e o fluxo-perseguição: a ação em fluxão materializa-se em contínuos acionamentos do fluxo de fuga. Willa é feita fugir – com a assistência de membros adormecidos, palavras-passe e “rendez-vous points” típicos dos grupos revolucionários à espera de começarem a revolução dos novos amanhãs solarengos a qualquer dia da semana — e Bob tem não só uma, mas duas fugas encetadas, apesar do seu corpo não ter a capacidade de correr por muito tempo e estar sempre perto de colapsar — ele consegue realmente falhar o salto entre dois prédios e cai na rua — a verdade é que ele consegue manter-se nesse estado-de-fuga e ao mesmo tempo tenta encontrar Willa, com a ajuda de Sergio St. Carlos (Benicio del Toro).

Claro é que o fluxo da fuga é sempre um fluxo de perseguição, a procura do corpo que foge é a busca de um corpo que se persegue, e é esse mesmo ato que a câmara-fluxo de Paul Thomas Anderson fabrica: o ir de um ponto para o outro, longínquos que sejam entre eles, por mais vazio que entre eles se atravesse, é o acionar desse estado de ir-e-vir-e-vir-e-ir que se perfaz na velocidade incessante de quem tem que ir atrás de alguém porque é isso que tem que forçosamente fazer, porque não pode ser desse modo: Lockjaw tem que ir atrás de Willa, Willa tem que fugir dele, Bob tem que ir ter com Willa, Willa tem que encontrar quem a possa proteger.

O fluxo-onda: o encontro final será feito na estrada que onduleia. Nela, uma outra perseguição: o carro de Tim Smith (John Hoogenakker), operacional dos “Christmas Adventurers”, persegue o de Willa, fugida já outra vez. Atrás deles, o carro de Bob persegue igualmente. A(s) onda(s) feita(s) pela estrada e as velocidades dos carros são a ação em forma-final: potência, carregamento, reta longa, aceleração, visão, curva, desacelaração, re-arranque, descida, subida, ronco, espelho, antecipação, paragem, sol ofuscante, choque! Tim bate no carro de Willa, armadilha urdida. O fluxo é a ação, a ação é feita pelo fluxo.

A resolução só pode ser feita pela paragem. Sem contra-senha de extrema-esquerda, o extremista de direita só pode acabar abatido na estrada. Os extremos matam. Só no cimo da colina é que o fluxo termina. Bob e Willa encontram-se. Fluxo acabado. Outro começa, entram no carro. A onda continua, para um novo fluxo. Pelo seu lado, Lockjaw, perseguido sem saber, foi deixado como morto. Sobrevive, no entanto. Havendo deixado Willa para ser morta, não sabe que ela sobreviveu. Quando regressa para ser admitido aos “Christmas Adventurers”, é obviamente morto.

De regresso a casa, o resquício de Perfidia é uma carta, que Bob dá a ler a Willa: uma justificação possível, uma possibilidade de reencontro. Assim poderá ser. O fluxo o dirá. Em tempos de tanta divisão — fundados em terríveis polarizações, de extremos contra extremos — mais não se pode fazer do que procurar um lugar a que se possa chamar casa, seja de uma família de dois, de um pai e de uma filha, ou de uma cidade que seja um santuário, um espaço de recebimento e de acolhimento e não de fechamento e de expulsão. Os corpos devem ser livres para escolher para onde ir e onde prosperar.