Fusão entre Warner e Paramount é aprovada e levanta dúvidas sobre concentração e influência política

Accionistas dão luz verde a negócio de 110 mil milhões que une CNN, HBO e CBS e segue para avaliação de reguladores
warner, paramount warner, paramount
Reprodução/Notebook Check

Os accionistas da Warner Bros. Discovery aprovaram, na quinta-feira (23), a venda da empresa à Paramount Skydance, dando origem a um conglomerado avaliado em cerca de 110 mil milhões de dólares. O acordo reúne sob a mesma estrutura marcas como a CNN, a CBS, a HBO e a Nickelodeon, além de franquias globais como “Harry Potter”, “Game of Thrones”, “Missão Impossível”, “Bob Esponja” e o universo da DC Comics.

Paramount conglomerate 1
Reprodução/Culture Crave

A concretização do negócio permanece dependente da aprovação de entidades reguladoras nos Estados Unidos, no Reino Unido e na União Europeia. O Departamento de Justiça dos Estados Unidos já solicitou informações adicionais para avaliar os impactos da fusão na concorrência, nomeadamente nos mercados de streaming, exibição cinematográfica e produção de estúdios.

A operação consolida o empresário David Ellison como uma das principais figuras da indústria do entretenimento. O executivo, que já controla a Paramount, é filho de Larry Ellison, fundador da Oracle, e mantém proximidade política com o presidente Donald Trump.

Durante a assembleia, os accionistas rejeitaram ainda a atribuição de um bónus que poderia atingir 887 milhões de dólares ao actual presidente da Warner, David Zaslav.

Para além do cinema e da televisão, a estratégia de David Ellison estende-se ao ecossistema digital. O empresário tem procurado expandir a sua presença em plataformas online, incluindo negociações relacionadas com o TikTok nos Estados Unidos, que conta com cerca de 200 milhões de utilizadores no país. Esta articulação entre media tradicionais e redes digitais amplia o alcance potencial do novo conglomerado e intensifica preocupações sobre a concentração de poder informativo.

A dimensão política do negócio tem gerado controvérsia em Washington. Analistas consideram que a operação poderá reforçar a influência de Trump sobre grupos mediáticos que lhe têm sido críticos, em particular a CNN. Donald Trump já declarou publicamente que a cadeia televisiva “deveria ser vendida” e tem mantido um discurso hostil em relação à imprensa, o que reforça a leitura política da fusão.

Nos últimos meses, decisões editoriais em órgãos ligados ao grupo intensificaram dúvidas sobre a independência jornalística. A CBS, sob direcção de Bari Weiss, anunciou o fim do programa apresentado por Stephen Colbert, conhecido pelo tom crítico em relação a Trump. A estação também impediu a exibição de uma entrevista com o democrata James Talarico, numa decisão considerada inédita por observadores do sector.

Na CNN, o jornalista Anderson Cooper deixou o canal, alegadamente insatisfeito com interferências editoriais. O episódio contribuiu para aumentar a percepção de tensão interna nas redacções.

Outro ponto sensível foi o acordo judicial firmado com Donald Trump, no valor de 16 milhões de dólares, relacionado com o programa “60 Minutes” e com alegações de favorecimento a Kamala Harris durante a campanha presidencial de 2024. A decisão dividiu profissionais da emissora, com parte da redacção a considerar que o caso poderia ter sido contestado em tribunal.

A fusão surge num momento politicamente delicado, a poucos meses das eleições intercalares nos Estados Unidos, que irão renovar o Congresso. O contexto aumenta a pressão sobre as autoridades reguladoras, chamadas a avaliar não apenas os efeitos económicos da operação, mas também o seu impacto no pluralismo mediático.

A reacção da indústria foi imediata. Uma carta aberta, divulgada no dia 13, contra a fusão reuniu mais de quatro mil assinaturas de profissionais do cinema e da televisão, incluindo Robert De Niro, Sofia Coppola, Pedro Pascal, Florence Pugh, Edward Norton, Joaquin Phoenix, Ben Stiller, Kristen Stewart, David Fincher e Denis Villeneuve. O documento alerta para o risco de concentração de mercado, redução de oportunidades de trabalho e menor diversidade de conteúdos.

Grupos de profissionais têm também organizado protestos em Washington para pressionar decisores políticos e reguladores. Um dos actos foi convocado para coincidir com um jantar privado promovido por David Ellison em homenagem a Donald Trump e a correspondentes da CBS News.

O desfecho do processo dependerá das decisões das autoridades de concorrência nos próximos meses. Até lá, a fusão entre a Warner e a Paramount Skydance continua a ser acompanhada de perto como um dos casos mais relevantes na intersecção entre media, poder político e concentração empresarial.

 

*Com informações do Uol