Os espermatozóides movem-se freneticamente. Por entre a caótica corrida ondulante, um só, e só um, consegue fecundar o óvulo. Vitória desse ganhador e derrota de todos os outros? Analogia e metáfora, subtrama à partida, mas resolução inesperada para um fim a vir. Mas de onde emanou todo este movimento? De Marty Mauser (Timothée Chalamet), um hustler consumado, vivendo perigosamente entre o caos e a voracidade constantes, em movimento permanente, em pensamento infindável, diálogo imparável, maquinação galopante, avanço e recuo, ato e reação, agente e reagente dos seus próprios objetivos e criador da auto-imagética de si mesmo.
Claro fica, ao longo de todo o filme, que Marty não deixa nunca de ser uma auto-ilusão, uma imagem que ele cria, para si e de si, a de ser realmente destinado a um lugar que nunca poderá ser o seu, porque é, ao fim e ao cabo, um pequeno criminoso, mais bem instalado numa qualquer low end joint onde pode enganar os outros e roubá-los do seu dinheiro do que a ser um respeitoso cavalheiro num distinto jogo desportivo.
Porque haveria ele de ser digno? Qual seria a verdade disso? A luta pelo lugar dos outros, o dos que estão acima socialmente dele, é-lhe bem mais apelativa, exatamente porque é um roubo, uma usurpação, uma vitória pelo simples prazer de derrotar os overdogs, ou não fosse ele o underdog faminto e voraz, que tudo quer obter e tudo quer para si ganhar.
Daí o quick thinking, o speed talking, o constant hustling, quanto mais dele pensarem que é um pequeno meliante dado a ilusões de grandeza – e ele sabendo que eles o sabem e eles sabendo que ele sabe que eles o sabem – mais ele os enganará, mais ele lhes tirará, porque mesmo assim, mais eles lhe darão. Sem almoços grátis, só conta mesmo a mentira e o engano como políticas e métodos de ação, sem qualquer tipo de remorso ou arrependimento. Até ao fim. Sem parar, sem recuperar o fôlego, sempre em acionamento.
Marty é uma seta, corre sempre para algum lado, transpira e sua, salta, suja-se, veste-se em corrida, pois persegue, em permanência, a ilusão da ilusão de ser que não é um iludido que, apesar de tudo, mais não será do que aquele que bate nas linhas-paredes das classes superiores, mas que nunca as conseguirá ultrapassar, apesar de nelas se infiltrar, como uma quebra, que fura um pouco, mas que não se alarga, o poder é maior mais acima, e ele simplesmente não tem o que é preciso, que pois não passa de ser…um low-life hustler.
Mas que assim seja, assim se aceite, e é necessário para esse hustler um cinema de ação, de velocidade, de corrida, de confusão, e é exatamente isso que Josh Safdie dá a este Marty “Supreme”: um supremo palco de explosão, de ir e vir, de tramóia, de improvisação de golpes e esquemas, de agir primeiro e pensar (se tanto) depois. Um tal cinema da urgência e da ação urgente – porque a situação muda a qualquer instante – é igualmente um regime de imagens tremidas e confusas, conversa balbuciada, sempre em movimento, replicando o estado de constante inconstância em que só o avanço-recuo é uma miragem de um suposto ir em frente. E quanto mais ele tenta prosseguir para diante, mais ele fica no mesmo sítio.
Essa ilusão do avanço – não se vai para a frente, mas está-se sempre ilusoriamente a ir – é uma forma de narcisismo, e este é também um filme sobre o narcísico e um filme sobre os que discursam e retorizam para que os outros olhem para si, ou não fosse claro a todos que tenham tido uma conversa anterior com Marty de que ele é um enganador e um mentiroso, mas mesmo assim ele tem que falar, e eles têm que ouvir, pois ele fala só para si, para a sua auto-satisfação de estar a caminho de subir ou ir em frente (mesma coisa para os narcisistas) quando, na verdade, não o está. Daí que, logo a seguir, tem que correr para um outro lugar, esconder-se num outro recôndito hotel de baixo nível para pensar e divisar qual vai ser o próximo esquema, a próxima mentira, o próximo discurso enganador.
Claro fica também que ouvi-lo enganar é uma pequena arte que vale a pena acompanhar, ou não o seguissem novamente os que anteriormente já tinham sido enganados por ele. Ver o enganador enganar é ser sempre por ele enganado, mesmo que seja através do ecrã, ou não fosse essa a lógica do cinema: o ilusionista a iludir, tanto Marty (“supreme” ou não) como Safdie, ilusionista-encenador e iludidor maior, através de uma encenação que preconiza sempre a ação enquanto espetáculo tão enérgico quanto o é a personagem que ele continuamente desfaz na desilusão de cada plano gorado – que não se esqueça que o objetivo de ascensão/avanço de Marty nunca consegue ser cumprido – que ele transforma no insuflar da sua ilusão, como se o jogo a jogar, enquanto uma narrativa das maquinações incumpridas, fosse não mais do que um percutir de decisões que nunca se propõem como possibilidades estruturais de ação, levando a um fim vitorioso, mas antes como derrotas conjunturais que levam à derrota final: quanto mais o hustle seguinte vai resolver o anterior e criar uma melhor situação para Marty, mais ele se vai derrotando a si mesmo (ou Safdie o vai derrotando, sem piedade), num afunilar que se vai tornando cada vez mais asfixiante, até que nada leva a nada e o jogo que ganha a Koto Endo (Koto Kawaguchi) – verdadeiro embate após o embuste que foi o imediatamente anterior – é tão só a vitória pírrica que o vai afastar terminalmente de qualquer possibilidade de ser levado a sério como um “player-gentleman”. Mesmo aí, a encenação é sobre a encenação, sobre o hustle, mas agora meramente promocional, falso, para vender as canetas de Milton Rockwell (Kevin O’Leary), por sinal o marido de Kay Stone (Gwyneth Paltrow), também ela enredada com Marty num sub-enredo de sexo, roubo, e claro, traição que engana aquele que quer ser o enganador do tipo publicitário (irónico, não?).
Quem engana quem é então uma questão de retórica fílmica (deste filme e só deste): todos enganam todos, o filme é sobre a encenação da mentira enquanto forma de viver. E quem mente mais é quem organiza a sucessão de mentiras galopantes – e que não se culpe Safdie, só o poderia assim fazer – que levam à queda total de Marty e à descrença que, nunca dita, fica claramente afirmada pelo seu descender à terra quando, num assomo de humildade não vista até então, se assume como o pai da criança de Rachel Mizler (Odessa A’zion) e quebra, na emoção de terminar o movimento que fez iniciar no início do filme. O movimento parou. Está parado. Recomeçará? Não se sabe. O choro múltiplo das crianças ainda é caótico, mas agora Marty chora, a mão sobre a boca, nada consegue agora dizer. Talvez tenha cumprido pelo menos um dos seus objetivos. Talvez aquela vitória sobre aquele que o tinha vencido num dos seus palcos de vaidade tenha valido por todas as derrotas que havia sofrido só, só mesmo, para poder chegar ao momento do jogo.
Por agora, no entanto, ele chora. Do seu caos, nasceu algo bem mais importante, um filho. Por isso, fica uma satisfação final, num filme que se construiu por contínuas insatisfações: a de que algo de verdadeiro e real foi feito para nascer, como finalidade de um movimento caótico. E nasceu.

