Cannes arranca com um musical “muito francês” e a descobrir um elefante na sala

O festival abriu com um musical meio amargo, mas quem protagonizou o dia foram as gafes de Binoche e o silêncio sobre Gaza.
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Assim que o filme de abertura terminou, ouvia-se o lamento, em inglês, de um colega: “Esse foi o pior filme que já abriu Cannes.” Ao lado, outro, com forte sotaque francês, justificava: “É um filme muito francês.” De fato, ao fim de Partir Un Jour, estreia em longa-metragem da realizadora francesa Amélie Bonnin, algo parecia ter-se perdido na tradução. Quando as primeiras reações começaram a surgir, a divisão ficou evidente: a imprensa francesa acolheu com entusiasmo o musical falhado sobre reencontros e recomeços; a crítica internacional destruiu-o em estilhaços.

Bonnin adapta aqui seu próprio curta-metragem de mesmo nome, vencedor do César em 2023, subvertendo os papéis originais – interpretados por Bastien Bouillon e Juliette Armanet – para lançar um novo olhar sobre a história. A protagonista é agora Cécile, uma chef prestes a abrir seu restaurante dos sonhos, obrigada a regressar à vila natal quando o pai, dono de um pequeno restaurante de beira de estrada, sofre um infarto. O retorno inesperado a obriga a confrontar memórias, afetos e escolhas de vida…

É o primeiro filme de estreia a abrir Cannes. Uma decisão simbólica e arriscada. Alguns se apressaram a perguntar: “Novo Emilia Pérez?” Longe disso. A comparação se sustenta apenas no dissenso crítico: falta a ousadia formal e, claro, as polêmicas que fizeram do musical de Audiard um dos títulos mais discutidos do último ano.
Aqui, a controvérsia parece mais acidental do que provocada, e Partir Un Jour provavelmente será esquecido até o final da semana. Mas Cannes parece disposta a flertar com o género. No domingo está prevista a estreia de La Ola, do chileno Sebastián Lelio, na seção Cannes Première.

Binoche e os silêncios do dia

O verdadeiro desconforto, no entanto, não veio da tela, mas da sala de imprensa. A coletiva do júri internacional estelar – presidido por Juliette Binoche e composto por nomes como Halle Berry, Jeremy Strong, Alba Rohrwacher, Payal Kapadia, Hong Sang-soo, Dieudo Hamadi, Carlos Reygadas e Leila Slimani – começou como tantas outras: perguntas previsíveis e respostas decoradas. Mas logo ganhou outro tom.

O elefante na sala, Gaza, que insistia em aparecer nas perguntas, e sempre sendo esquivado. Até que uma jornalista foi direto à jugular: “Madame Binoche, por que você não assinou a carta?” Referia-se ao manifesto publicado na véspera da abertura do festival, intitulado “Em Cannes, o horror em Gaza não pode ser silenciado”, assinado por quase 400 profissionais da indústria cinematográfica; entre eles Pedro Almodóvar, David Cronenberg, Ruben Östlund, Richard Gere e Virginie Efira. O texto pedia o fim do silêncio institucional diante da ofensiva israelense em Gaza. A pergunta foi recebida com desconforto e, no geral, evitada. Binoche, constrangida, apenas disse: “não lhe posso responder”, e acrescentou: “talvez você entenda o porquê mais tarde.”

Depois, protagonizou uma outra saia justa, desta vez um tanto mais constrangedora. Questionada sobre a recente condenação de Gérard Depardieu num caso de assédio sexual, a jornalista que fez a pergunta referiu-se ao ator como “monstro”. Binoche fez um mea-culpa saindo em defesa dele: reconheceu que o ator cometeu erros, mas afirmou que “não é um monstro”. Recorde-se que a mesma Binoche, quando foi presidente do júri da Berlinale em 2019, no auge do #MeToo e também durante a conferência de apresentação do júri, saiu em defesa de Harvey Weinstein…

É um tipo de desconforto recorrente em Cannes, que quer ser visto como um festival atento às urgências do mundo. Mas talvez condicionado a qual tipo de urgência. No caso da guerra na Ucrânia, por exemplo, a postura é firme e pública. Desde 2022, a Rússia está oficialmente “cancelada” do festival – delegações barradas, filmes excluídos. Este ano, a Ucrânia ganhou até um programa especial, com direito a um documentário biográfico sobre o presidente ucraniano, de título “Zelensky. Gaza, por outro lado, segue como o grande elephant in the room na Croisette.
Como diria George Orwell, cronista das farsas do discurso moral, Some animals are more equal than others. Se for assim, então que nos cheguem os filmes, s’il vous plaît!