Parece uma certa tradição da organização da Berlinale em apresentar e depois premiar os melhores filmes da sua seleção oficial nos últimos dias do festival. Foi assim o ano passado com os vencedores do Urso de Ouro e de Prata (“Touch Me Not” e “Mug”) e, pelo andar da carruagem, parece que vai ser assim também este ano.

Nos últimos dois dias da 69.ª edição da Berlinale, dois filmes completamente diferentes têm causado um certo burburinho entre a imprensa e o público. O primeiro é o chinês “So Long, My Son”, de Wang Xiaoshuai. Filme de três horas que segue o luto de uma família por entre várias décadas e que tem emocionado plateias por onde tem passado. É um filme bonito, típico dramalhão chinês, mas com uma duração que quase o torna proibitivo. É um dos fortes candidatos ao prémio principal, especialmente agora que o filme de Zhang Yimou foi retirado de competição.

O outro é o ovni “Synonymes”, terceiro filme do israelita Nadav Lapid, realizador que vem despertando uma certa curiosidade a volta do seu nome; primeiro pelo seu filme de estreia “Policeman” (2011) e depois pelo luminoso “The Kindergarten Teacher” (2014) que deu origem a um belíssimo remake americano com Maggie Gyllenhaal o ano passado.

No seu filme mais recente, a provocação é levada a outro limite. A trama segue o jovem Yoav (estreante Tom Mercier) que abandonou sua terra natal, em Israel, para começar a vida do zero, numa Paris onde não conhece ninguém. Para tal, ele decide que não vai falar mais nenhuma palavra de hebraico para o resto da vida e, assim, parte numa aventura para o apagamento da sua própria identidade.

Chegado a Paris, é prontamente ajudado por um casal de franceses (Quentin Dolmaire, Louise Chevillotte) que rapidamente o ajudam a torná-lo francês: dão-lhe abrigo, dinheiro e um sobretudo amarelo que o faz parecer como se tivesse saído de um filme de Truffaut. A referência, aliás, não é por acaso, visto que as três personagens vivem uma espécie de triângulo amoroso à “Jules e Jim”. Mas a piscada de olho ao clássico de Truffaut termina aí: o filme de Lapid rejeita todos os códigos do realismo e faz um híbrido entre sátira absurdista e farsa política que não é para todos. E sendo o filme difícil e impenetrável que é, vai entrando pouco a pouco.

Desde a sua estreia na quinta, “Synonymes” tem gerado algum barulho no festival, sendo apontado como um dos grandes favoritos ao prémio principal. No entanto, se escolher premiar este alien israelita, o júri de Juliette Binoche vai ter de enfrentar alguns problemas pela frente. O filme não só é um poderoso statement contra Israel (e também à França), mas também vai de encontro com a agenda feminista do festival.

Num ano em que a Berlinale se gaba de ter uma participação recorde de realizadoras na sua mostra competitiva e onde a maioria dos filmes giram em torno da visibilidade feminina, o filme de Nadav Lapid é quase um manifesto anti-Berlinale.

“Synonymes” é, antes de mais, uma celebração fetichista do corpo masculino. E a sua cena inicial, com Yoav a correr completamente nu pelas escadas do seu prédio a bater à porta dos vizinhos a pedir-lhes ajuda, é o grande indicador disso. Em outro momento, quando dois homens israelitas são apresentados, ao invés de apertarem as mãos um do outro, eles partem para uma luta física entre socos e tapas para, alguns minutos depois, tudo voltar ao normal, como se as devidas apresentações já tivessem sido despachadas.

Lapid está claramente a fazer troça dos códigos da hiper masculinidade entre homens israelitas mas, ao propor-se tal tarefa, age como um voyeurista explorando os limites dos corpos dos seus personagens, todos, por sinal, em ótima forma.

Depois das críticas que Binoche recebeu por defender Harvey Weinstein na abertura do festival, quando afirmou que ele já teve o suficiente, é muito improvável que ela queira ter de justificar a escolha de um filme tão sedutoramente masculino como “Synonymes”. De qualquer forma, só hoje à noite é que descobriremos o quão subversivo este júri de 2019 vai ser.