“A Zona de Interesse”, vencedor do Óscar de Melhor Filme Estrangeiro chega à Filmin

“A Zona de Interesse” é um retrato cru da banalidade do mal que dispensa conforto e confronta-nos com o passado, forçando-nos a encarar a nossa própria complacência
A Zona de Interesse A Zona de Interesse
"A Zona de Interesse" (2023), de Jonathan Glazer

Vencedor do Óscar de Melhor Filme Internacional, Melhor Som e do Grande Prémio do Júri em Cannes, “A Zona de Interesse”, de Jonathan Glazer, estreia a 1 de Julho na Filmin. O filme, que acompanha o quotidiano de uma família alemã a viver à sombra de Auschwitz, impõe-se como uma das experiências cinematográficas mais inquietantes dos últimos anos.

Glazer, descendente de judeus da Bessarábia que escaparam ao pogrom de Kishinev, carrega desde cedo a herança silenciosa do Holocausto. Talvez por isso, como ele próprio admite, soubesse que um dia teria de enfrentar esse tema. Não como lição moral, nem como reconstituição histórica, mas como gesto formal e político.

Ao adaptar o romance de Martin Amis, Glazer não quis ilustrar o horror, mas deslocá-lo. Preferiu filmar o lado de fora do muro. Os pássaros, o rio, o almoço em família. Preferiu a normalidade. Ou, mais precisamente, a normalização, esse hábito de seguir com a vida enquanto a máquina da morte opera ao lado.

A sua filmografia sempre revelou um interesse por figuras à margem, por atmosferas densas e cortes abruptos. Com “Sexy Beast” (2000), “Birth” (2004) e “Debaixo da Pele” (2013), Glazer construiu um cinema de contornos existenciais, onde a violência não se impõe com estrondo, mas atravessa silenciosamente. Em “A Zona de Interesse”, leva esse silêncio ao extremo. Nada é mostrado, mas tudo é sugerido. E é precisamente nessa contenção que o filme se torna insuportável, como se nos obrigasse a escutar aquilo que preferimos não ouvir.

A Zona de Interesse

A adaptação de Jonathan Glazer rompe com a ficcionalisação tradicional do Holocausto. Em vez de criar personagens imaginários ou heróis redentores, o realizador centra-se em figuras reais: Rudolf Höss, comandante de Auschwitz, e a sua esposa Hedwig, interpretados por Christian Friedel e Sandra Hüller.

A narrativa desenrola-se em torno da vida doméstica da família Höss, instalada numa casa com jardim, paredes meias com o campo de extermínio. Nesse cenário de aparente normalidade, com crianças a brincar e almoços ao ar livre, o quotidiano burguês convive com o ruído surdo das câmaras de gás, que se ouve ao longe mas nunca se vê.

Pela perspectiva do oficial nazi, Glazer revela a insidiosa capacidade humana de normalisar o inominável. O horror é absorvido pela rotina, filtrado por um quotidiano que já não se incomoda com o que acontece do outro lado do muro. A desumanisação das vítimas e a indiferença que permeia o ambiente doméstico tornam-se, assim, a verdadeira matéria do filme.

“A Zona de Interesse” não é um filme de fácil consumo. Não se vê com leveza, nem se presta ao conforto da distância emocional. O que Glazer propõe é um retrato cru da banalidade do mal, que não apenas nos confronta com o passado, mas nos obriga a questionar a nossa própria complacência. Como foi possível que tal horror acontecesse às vistas de tantos? E, sobretudo, o que fazemos hoje diante das violências que continuam a repetir-se sob novas formas?.