Cinema feminino e humor marcam o novo ciclo do Batalha Centro de Cinema

O ciclo “Rir para não Chorar: Mulheres e Humor no Cinema” destaca realizadoras como Mabel Normand, Lina Wertmüller e Chantal Akerman, mostrando que rir é um gesto de resistência
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"Golden Eighties" (1986), de Chantal Akerman

Entre 22 de Janeiro e 10 de Maio, o Batalha Centro de Cinema, no Porto, apresenta um ciclo que desafia a seriedade do quotidiano e convida à gargalhada. “Rir para não Chorar: Mulheres e Humor no Cinema” reúne filmes de realizadoras que, ao longo da história, transformaram adversidades em impulso criativo, mostrando que rir e fazer rir pode ser também um gesto de resistência.

Desde os primórdios do cinema, mulheres encontraram na comédia um espaço de liberdade e experimentação, mesmo num meio historicamente dominado por homens. Hoje, essas vozes ganham renovada visibilidade, com cineastas e artistas que cruzam géneros e estéticas, da sátira ao absurdo, da performance à comédia social.

Entre as autoras em destaque estão nomes como Mabel Normand, Lina Wertmüller, Chantal Akerman, Věra Chytilová, Martine Syms e Sarah Maldoror, cujas obras mostram que o humor pode ser um gesto feminista de emancipação, capaz de provocar riso enquanto subverte normas sociais e estereótipos.

Curado por Martha Kirszenbaum, Lídia Queirós e Joana de Sousa, o ciclo organiza-se em torno de temas que atravessam esta tradição: corpo, amizade, amor, desejo e contestação das convenções. Com a sua capacidade de exagerar comportamentos, expor falhas humanas e sociais e criar cumplicidade com o espectador, o humor afirma-se como uma poderosa ferramenta de comunicação e denúncia. No cinema realizado por mulheres, esse poder ganha uma dimensão singular, permitindo fazer e desfazer realidades, imaginar outros futuros e, sobretudo, provocar sorrisos.

Olhar feminino sobre o humor

O ciclo inclui obras icónicas e provocadoras. “Doll Clothes” (1975), de Cindy Sherman, explora a performatividade do feminino com ironia visual. “Golden Eighties” (1986), de Chantal Akerman, transforma o musical numa sátira social subtil, enquanto “Three Instagram Models Have a Picnic” (2018), de Russell Katz e Juan HQ, brinca com os excessos e poses da cultura digital contemporânea. “Clueless” (1995), de Amy Heckerling, permanece um clássico da comédia adolescente, combinando moda, ingenuidade e crítica social.

O ciclo inclui ainda duas obras de Martine Syms, “She Mad: Bitch Zone” (2020) e “The African Desperate” (2022), que combinam performance e comentário social afiado, revelando a violência e o absurdo da vida urbana contemporânea. “Encounters with Landscape 3x” (2012), de Salomé Lamas, oferece um olhar poético e inesperado sobre o quotidiano. “Mar de Rosas” (1977), de Ana Carolina, e “Clotilde” (2023), de Maria João Lourenço, combinam crítica social e humor negro, enquanto “That Fertile Feeling” (1985), de John O’Shea e Keith Holland com Vaginal Davis, satiriza normas de género com irreverência.

Entre clássicos e obras pioneiras, destacam-se “But I’m a Cheerleader” (1999), de Jamie Babbit, sátira sobre identidade sexual, “Mabel’s Blunder” (1914), de Mabel Normand, marco do cinema mudo feminino, e “Lend Me Your Wife” (1958), de Edith Carlmar, uma comédia romântica que subverte expectativas.

“Pescados” (2010), de Lucrecia Martel, e “Kamome Diner” (2006), de Naoko Ogigami, exploram humor subtil e encantamento quotidiano, enquanto “Commercial for Myself” (1978), de Lynn Hershmann Leeson, e “Annals of Private History” (2015), de Amalia Ulman, misturam autobiografia e crítica social com ironia.

O ciclo apresenta ainda clássicos experimentais e políticos, como “Maso et Miso vont en bateau” (1976), de Nadja Ringart, Carole Roussopoulos, Delphine Seyrig e Ioana Wieder, a irreverente “Mustard” (2023), de Tohé Commaret, o emblemático “Daisies” (1966), de Věra Chytilová, e o provocador “L’Aura” (2025), de Fanta Sylla.

Obras de consciência histórica e social marcam presença com “Un dessert pour Constance” (1981), de Sarah Maldoror, “Chelsea-Manhattan, NYC” (1990), de Michel Auder, “Party Girl” (1995), de Daisy von Scherler Mayer, e “Pasqualino Settebellezze” (1975), de Lina Wertmüller, todas explorando a ironia, a sátira e o absurdo do quotidiano e da sociedade.