Berlinale 2026: “No Good Men” abre o festival em ritmo de comédia romântica política

A afegã Shahrbanoo Sadat provoca humor e sexualidade na transição entre uma sociedade patriarcal e o inferno dos talibãs.
No Good men 2026 1 1 No Good men 2026 1 2
"No Good Men" (2026), de Shahrbanoo Sadat

A 76.ª edição da Berlinale promete marcar a história como uma das edições em que se sente uma programação de forte pendor político. E não é este o sinal dos tempos (inacreditáveis) que vivemos? Apesar disso, o presidente do júri, o cineasta alemão Wim Wenders, contrariou essa tendência logo na conferência de imprensa de apresentação do júri, ao sublinhar que “os filmes podem mudar o mundo”. No entanto, acrescentou de seguida que “não de uma forma política” e que “nenhum filme realmente mudou a ideia de algum político”. Veremos então, no próximo dia 21, o verdadeiro significado das suas palavras, quando forem anunciados os vencedores dos Ursos deste ano (Urso de ouro para o melhor filme e ursos de prata para as restantes categorias).

Seja como for — e talvez esta seja a segunda nota introdutória desta edição —, ao notar uma seleção oficial praticamente despojada daquele glamour que tanto anima os profissionais das passadeiras vermelhas ou os jornalistas à caça de selfies (uma mea culpa de que também não estamos isentos, mas estamos a aprender). E, se havia dúvidas, a escolha de Tricia Tuttle, presidente do Festival de Berlim, para a abertura da edição deste ano, ao incluir o filme afegão “No Good Men” ( numa grande co-produção europeia), é emblemática desta mudança de paradigma. A proposta de Shahrbanoo Sadat, realizadora (argumentista e protagonista) do filme, não poderia ser mais estimulante: sugerir uma comédia romântica ambientada na época em que os talibãs retomam o poder em Cabul. E a premissa é clara — e serve até de chavão: no Afeganistão, não há “bons homens”!

No encontro com a imprensa, Shahrbanoo, que vive na Alemanha desde esse período de transição política, explicou que o seu objetivo foi desafiar os estereótipos ocidentais sobre o Afeganistão: um país frequentemente retratado como dominado por dramas de guerra. “Decidi fazer uma comédia romântica”, destacou a cineasta, nascida em Teerão, embora tenha vivido no Afeganistão, tornando-se uma voz feminina no cinema contemporâneo. A cineasta mostra que já é um valor seguro no cinema mundial, sobretudo após a boa impressão deixada em Cannes, com “Wolf and the Sheep” (2016), onde concorreu à Câmara de Ouro. Decidiu, assim, mostrar uma faceta diferente do seu país, incluindo humor e sexualidade — a brincadeira com um vibrador é bastante expressiva!

Aliás, a personagem Naru, na televisão de Cabul, tem sempre um lado autobiográfico, como a própria confirma: “Acho que a raiva e as frustrações de Naru vêm de mim. A sua posição enquanto mulher, uma jovem de classe média a trabalhar na comunicação social e a viver no centro de Cabul; e sobretudo alguém de língua afiada que se mete em sarilhos — sou eu, definitivamente.” 

A sua obstinação e determinação refletem as de Sadat, que procura mostrar o lado humano de uma sociedade marcada por um conservadorismo extremo. Sadat cresceu a pensar que não havia homens bons. “Mas isso não é apenas a minha opinião ou experiência, é a experiência coletiva de muitas mulheres que vivem numa sociedade patriarcal como o Afeganistão.” Como refere, “até aos meus vinte e poucos anos, acreditava que não havia nenhum homem bom no Afeganistão.”

A convivência com Qodrat (Anwar Ashimi), um jornalista que reconhece o seu talento, dá início a uma relação que desafia os estereótipos de género na sociedade afegã. De facto, como afirma, “o Anwar é o meu primeiro homem bom.” E é com ele que Sadat irá terminar com um final emotivo, que nos fez recordar o mítico final de “Casablanca” (1942), com a despedida de Bogart e Bergman. Afinal há homens bons.