Todos os anos, a disputa pelos Óscares move a indústria e alimenta as discussões dos cinéfilos pelo mundo. Contudo, nem todas as categorias despertam as mesmas paixões. Entre aquelas que são conhecidas, mas permanecem relativamente obscuras para o grande público, encontra-se a de melhor curta-metragem de animação. E, embora costume passar mais discretamente pelo radar, é talvez neste segmento que encontramos algumas das experiências mais ousadas.
Uma das razões pelas quais grande parte das pessoas não conhece os nomeados é simples: estes filmes não são encontrados com tanta facilidade como as longas-metragens que precisam de entrar no circuito comercial de exibição, ainda que algumas delas também não sejam assim tão fáceis de localizar.
Por causa disso, neste especial foram reunidas as recensões de três dos cinco nomeados, bem como os links no YouTube onde podem ser vistos.
A lista deste ano reúne produções da França (“Butterfly”), do Canadá (“The Girl Who Cried Pearls”), da Irlanda (“The Three Sisters”), da Rússia/Israel (“Retirement Plan”) e apenas uma dos Estados Unidos (“Forevergreen”). Todas chamam a atenção pelas técnicas empregadas, que vão do stop-motion ao traço minimalista inspirado nas tiras de jornal ou em livros infantis, passando ainda por pinceladas de inspiração expressionista.
“Retirement Plan”, de John Kelly e Andrew Freedman e “The Three Sisters”, de Konstantin Bronzit são os únicos que não estão disponíveis gratuitamente, podendo, no entanto, ser vistos através de subscrição em diferentes plataformas de streaming.
Mas passemos às produções mais facilmente acessíveis.
“Butterfly”, de Florence Miailhe e Ron Dyens (França)
A animação francesa “Butterfly” mostra-nos a história do nadador olímpico Alfred Nakache. Por meio de uma composição expressionista, somos convidados a conhecer a trajectória de Alfred desde os tempos em que sofria bullying na infância até aos aterradores anos que passou preso em campos de concentração alemães.
A dupla de realizadores francesa apresenta uma obra singela e bastante impactante ao brincar com o lúdico e o subjectivo. Da mesma forma que o movimento artístico que a inspira, em vez de traços temos manchas e texturas que se vão transformando, abraçando e muitas vezes engolindo a personagem nos melhores e piores momentos.
São apenas 15 minutos, mas o mergulho na vida do nadador, a forma como são tratadas as alegrias e o confronto com os horrores proporcionam uma experiência imersiva bastante intensa.
“Forevergreen”, de Nathan Engelhardt e Jeremy Spears (EUA)
Em “Forevergreen” acompanhamos a história de um urso órfão que é adoptado por um pinheiro, mas, à medida que o animal envelhece, acaba por entrar em conflito com o pai adoptivo e decide partir para conhecer o mundo. No entanto, rapidamente descobre que viver fora de casa pode não ser assim tão fácil.
Trata-se de uma clássica história de amadurecimento, com uma personagem carismática e inocente que acaba por aprender, da forma mais dura, que precisa de assumir as responsabilidades pelas escolhas que faz, tudo isto em pouco mais de dez minutos de duração.
É triste e bonito ao mesmo tempo, com um arco de esperança e crescimento construído a partir de uma estética inspirada no stop-motion, embora produzido de forma digital. O resultado é uma emulação muito bem conseguida da técnica analógica, que recupera os elementos de textura orgânica e o movimento artificial característicos do trabalho artesanal.
“The Girl Who Cries Pearls”, de Chris Lavis e Maciek Szczerbowski (Canadá)
Por fim, “The Girl Who Cries Pearls”. Aqui, sim, vemos a técnica do stop-motion, que era apenas uma referência estética na animação canadiana, a ser utilizada para contar um sombrio conto de fadas urbano ambientado em meados do século XX.
Narrativamente, acompanhamos uma história dentro da história. Inicialmente somos apresentados a um velhinho que, ao ver pérolas na mão da neta, decide contar-lhe algo sobre a sua própria infância. Surge então uma trama fantástica sobre como um rapaz pobre enriqueceu ao vender as pérolas que escorriam do rosto da rapariga da casa ao lado.
Em tom de fábula, o enredo desenvolve-se sempre com uma profunda melancolia de ares fúnebres. Há uma clara intenção de construir uma atmosfera incómoda desde o primeiro momento, pois, para além da própria história, as marionetas utilizadas e os cenários apresentam um estilo sombrio que parece enfatizar a sujidade e as imperfeições da matéria.
Essas características da fisicalidade chocam e fazem-nos questionar se não estaremos a assistir a um conto de horror. Embora o inexplicável seja uma das forças motrizes da narrativa, não há monstros fantásticos. Os temores apresentados nascem da miséria e da ganância humanas, e acabam por nos atingir emocionalmente.
Vale ainda mencionar que o projecto demorou cinco anos a ser concluído e recorreu a alguns efeitos digitais, mas apenas como suporte para dar movimento ao rosto das personagens.
