De 11 a 30 de maio, a Cinemateca Portuguesa irá acolher um ciclo dedicado às Pioneiras do Cinema Português, uma iniciativa que procura questionar a narrativa dominante da história do cinema em Portugal, focada amiúde e excessivamente nas longas-metragens de ficção, na figura do realizador/a e que, por sua vez, avilta e reduz a participação das mulheres anteriores à geração do Cinema Novo a uma nota de rodapé composta por um par de nomes.
O indissociável contexto social e político português de grande parte do século XX, trouxe consigo fortes limitações à criação artística, contudo, muitas mulheres persistiram e fizeram cinema em formatos menos conhecidos e longe dos circuitos tradicionais.
Por esse motivo, poucos nomes de figuras femininas são realçados na história do cinema português da época: durante as suas primeiras oito décadas, Bárbara Virgínia (nome artístico de Maria de Lurdes Dias Costa) foi a única realizadora portuguesa que desenvolveu uma longa-metragem e estreou comercialmente, Três Dias Sem Deus (1946). Ainda que este feito esteja enquadrado por muitos acasos, com apenas 22 anos, a cineasta escreveu, realizou e protagonizou a obra que, mais tarde, foi selecionada para o 1.º Festival de Cinema de Cannes, um outro marco cunhado com o seu nome.
Apenas três décadas mais tarde, uma mulher voltaria a assinar uma longa-metragem no nosso país: Margarida Cordeiro com o filme Trás-Os-Montes (1976), co-realizado com António Reis. Mapear o contributo feminino na história do cinema português, tendo como únicos eixos estas duas realizadoras revela-se uma abordagem redutora e insuficiente para compreender a sua real dimensão no setor.
É neste ponto de partida que a Cinemateca Portuguesa apresenta um conjunto de dezoito sessões dedicadas às dezenas de mulheres que, desde o cinema mudo até ao Novo Cinema, contribuíram de formas díspares para o desenvolvimento da sétima arte em Portugal. Amélia Borges Rodrigues, Isaura Pavia de Magalhães Lisboa, Margot Dias e Raquel Soeiro de Brito são alguns dos nomes que irão marcar presença num ciclo que se abre às múltiplas formas de participação artística no cinema, com especial destaque para a produção, a montagem e a escrita de argumentos.
Uma vez que engloba um conjunto de trabalhos fílmicos pouco conhecidos – pelas suas características materiais como pelas suas características de produção – muitas obras são agora apresentadas ao público como resultado de um trabalho levado a cabo pela Cinemateca, que englobou novas preservações, duplicações de materiais analógicos, digitalizações e restauros digitais.
Com o intuito de estabelecer um olhar presente sobre o passado, a programação integra reinterpretações contemporâneas musicais, sessões comentadas, com leitura de arquivos e conversas com realizadoras e investigadoras.
O Ciclo culminará com o lançamento do DVD de Três Dias Sem Deus (que apesar de ter perdido o som poderá agora ser visto com legendas produzidas a partir da planificação anotada guardada no Centro de Documentação da Cinemateca) e dará origem a uma nova publicação da Cinemateca Portuguesa a apresentar nos próximos meses.
O Ciclo Pioneiras do Cinema Português é um convite à descoberta de uma área que continua a exigir investigação, mas, simultaneamente, mais atenta ao contributo das mulheres e aos múltiplos formatos que assumiu ao longo dos anos.
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