Bergamo Film Meeting presta homenagem a Abbas Kiarostami e Louis de Funès

Entre o silêncio de Kiarostami e o excesso de De Funès, o Bergamo Film Meeting olha o cinema por dois extremos
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A 44.ª edição do Bergamo Film Meeting, marcada para decorrer entre 7 e 15 de Março, escolhe olhar o cinema a partir de dois pólos quase opostos. De um lado, Abbas Kiarostami, cineasta do silêncio, da dúvida e da contemplação; do outro, Louis de Funès, corpo em permanente sobressalto, rosto elástico, voz em combustão. Duas figuras centrais do século XX, separadas por geografias, estilos e intenções, mas unidas por uma capacidade rara de fixar o seu tempo e de continuar a falar ao presente.

Assinalando os dez anos da morte de Kiarostami, o festival dedica uma ampla retrospectiva ao realizador iraniano que, quase sozinho, colocou o Irão no mapa do cinema mundial. Influenciado pela poesia persa e pelas artes visuais, o seu cinema construiu-se a partir de gestos mínimos, percursos elementares e personagens frequentemente infantis, num trabalho contínuo de erosão das fronteiras entre documentário e ficção. Em filmes como “O Pão e o Beco”, “O Viajante” ou “Onde Fica a Casa do Meu Amigo?”, a simplicidade narrativa revela-se apenas aparente, abrindo caminho a uma reflexão profunda sobre ética, percepção e responsabilidade.

A ligação à aldeia de Koker, atravessada pela tragédia de um terramoto, deu origem a uma das trilogias mais singulares da história do cinema, culminando em “Através das Oliveiras”. A partir dos anos 1990, com “Close-up” e “Sabor de Cereja”, vencedor da Palma de Ouro, Kiarostami radicalizou ainda mais o seu questionamento sobre identidade, verdade e representação, estendendo-o depois a filmes como “Dez”, “Shirin” ou “Cópia Fiel”. Sempre à margem, entre cinema, fotografia e poesia, construiu uma obra que resiste a classificações fáceis e continua a desafiar o olhar do espectador.

Em registo quase inverso, o Bergamo Film Meeting revisita a carreira de Louis de Funès, talvez o actor mais popular da história do cinema francês. Baixo, nervoso, colérico, dono de uma gestualidade excessiva e imediatamente reconhecível, de Funès tornou-se, entre os anos 1960 e 1970, o rosto de um humor popular e profundamente físico. Durante décadas relegado a papéis secundários, só aos quarenta anos alcançou reconhecimento, antes de se transformar num fenómeno cultural com “Fantômas se déchaîne”, “Le gendarme de Saint-Tropez” e as comédias realizadas por Gérard Oury.

Filmes como “La grande vadrouille” ou “Les aventures de Rabbi Jacob” bateram recordes de bilheteira e atravessaram gerações, apesar do frequente desprezo da crítica e dos meios intelectuais. Ainda hoje, os seus filmes são presença regular na televisão francesa e continuam a cumprir a mesma função: reunir a família em torno de um riso imediato, quase instintivo. A recente abertura de um museu dedicado ao actor e o anúncio de um filme de animação em 3D, que o fará “regressar” ao ecrã, confirmam a persistência do seu legado.

Filmes em homenagem a Abbas Kiarostami

A retrospectiva dedicada a Abbas Kiarostami percorre algumas das etapas mais decisivas de uma obra que redefiniu as fronteiras do cinema contemporâneo, entre a ficção e o documentário, o real e a sua encenação.

O núcleo central da homenagem é ocupado pela chamada Trilogia de Koker, três filmes rodados na mesma região do norte do Irão e ligados entre si por um engenhoso jogo metalinguístico.

Em “Onde Fica a Casa do Meu Amigo?” (1987), Kiarostami acompanha a jornada simples e profundamente comovente de um rapaz que atravessa aldeias vizinhas para devolver o caderno de um colega de escola, tentando poupá-lo a uma expulsão injusta. A aparente simplicidade do gesto revela um cinema atento à ética, à responsabilidade e ao olhar infantil sobre o mundo, e foi este filme que revelou Kiarostami ao circuito internacional.

Cinco anos mais tarde, “E a Vida Continua” (1992) regressa à mesma região após um violento terramoto. Um realizador de cinema, alter ego do próprio Kiarostami, viaja com o filho à procura das crianças que protagonizaram o filme anterior. Mais do que um relato de destruição, o filme transforma-se numa celebração discreta da persistência da vida e da capacidade humana de recomeçar.

“Através das Oliveiras” (1994) fecha a trilogia deslocando o foco para os bastidores de uma cena de “E a Vida Continua”, acompanhando um jovem actor que tenta, sem sucesso, conquistar a colega de cena, numa delicada reflexão sobre cinema, desejo e desencontro entre realidade e representação.

Entre as obras mais celebradas do realizador encontra-se “Close-up” (1990), frequentemente citado como um dos grandes filmes da história do cinema. Partindo de um caso real, Kiarostami reconstrói a história de um homem que se fez passar pelo cineasta Mohsen Makhmalbaf para se infiltrar no seio de uma família, misturando julgamento, reencenação e testemunho num dispositivo que torna indistinguível a linha entre verdade e ficção.

Já em “Sabor de Cereja” (1997), vencedor da Palma de Ouro em Cannes, um homem percorre os arredores de Teerão à procura de alguém disposto a cumprir um último pedido após a sua morte. O filme assume-se como uma meditação austera e profundamente humanista sobre a vida, a escolha e o silêncio.

Em O Vento Levar-nos-á” (1999), um grupo de jornalistas instala-se numa aldeia remota para acompanhar a morte anunciada de uma idosa, mas o filme interessa-se menos pelo acontecimento do que pela espera, pelos sons do quotidiano e pelo choque subtil entre modernidade e tradição.

“Dez” (2002), filmado integralmente no interior de um automóvel, apresenta uma sucessão de conversas entre uma mulher que conduz pelas ruas de Teerão e os seus passageiros, entre eles o filho. O dispositivo minimalista serve uma análise frontal da sociedade iraniana e da condição feminina.

A fase ensaística e internacional da obra está representada por filmes como “Five Dedicated to Ozu” (2003), composto por cinco longos planos contemplativos da natureza, numa homenagem directa ao cineasta japonês Yasujiro Ozu, e “10 on Ten” (2004), em que Kiarostami reflecte sobre o seu próprio método enquanto percorre os cenários de “Dez”.

Em “Cópia Fiel” (2010), rodado na Toscânia e protagonizado por Juliette Binoche, o realizador interroga a ideia de autenticidade na arte e nas relações humanas, acompanhando um homem e uma mulher cuja identidade enquanto casal permanece em permanente suspensão.

Like Someone in Love (2012), passado em Tóquio, cruza os caminhos de uma jovem estudante que trabalha como acompanhante e de um professor idoso, num filme de delicados mistérios emocionais.

A encerrar esta homenagem, “24 Frames” (2017), lançado postumamente, reúne vinte e quatro sequências que partem de imagens fixas, fotografias e pinturas, para imaginar o que acontece antes e depois do instante captado. É um gesto final que sintetiza toda a obra de Kiarostami, um cinema do olhar, da espera e da atenção ao invisível.

Filmes em homenagem a Louis de Funès

A selecção dedicada a Louis de Funès percorre o nascimento, a consolidação e a maturidade de uma das figuras mais populares do cinema francês do pós-guerra, acompanhando a construção de um mito cómico assente no corpo, no excesso e numa energia nervosa inconfundível.

Entre os títulos que marcam o início e o auge dessa persona está “Ni vu, ni connu” (1957), de Yves Robert, um dos primeiros grandes sucessos do actor. No papel de Blaireau, um caçador furtivo astuto que vive em permanente confronto com um guarda florestal tão zeloso quanto desastrado, de Funès fixa a imagem do vigarista adorável, sempre à margem da lei, mas irresistivelmente humano.

Já em “Fantômas se déchaîne” (1965), de André Hunebelle e Haroun Tazieff, segunda entrada da célebre trilogia, o actor rouba a cena como o comissário Juve, um polícia obsessivo e paranóico que recorre a engenhocas absurdas na tentativa de capturar o criminoso mascarado, transformando a autoridade numa figura de puro descontrole cómico.

Em “Le grand restaurant” (1966), de Jacques Besnard, Funès encarna o gerente de um restaurante de luxo em Paris, obcecado pela perfeição, pela etiqueta e pelo serviço às figuras mais poderosas. O filme atinge o seu ritmo mais frenético quando um presidente estrangeiro é raptado dentro do estabelecimento, desencadeando uma sucessão de equívocos e perseguições que exploram ao limite a vertigem física do actor.

Essa mesma energia encontra uma das suas expressões mais puras em “Oscar” (1967), de Édouard Molinaro, adaptação de uma peça de teatro que funciona como um verdadeiro exercício de virtuosismo corporal. De Funès interpreta um industrial rico cujo dia se transforma num pesadelo quando o contabilista confessa um roubo, pede a mão da filha e malas cheias de dinheiro e jóias começam a circular de forma caótica.

A colaboração com o realizador Gérard Oury ocupa um lugar essencial nesta retrospectiva. Em “La Folie des grandeurs” (1971), comédia histórica livremente inspirada emRuy Blas” de Victor Hugo, de Funès é um ministro corrupto da Espanha antiga que, após cair em desgraça, tenta recuperar o poder através de um plano tão grandioso quanto ridículo, usando o seu criado, interpretado por Yves Montand.

Dois anos depois, “Les aventures de Rabbi Jacob” (1973) consolidou-se como um clássico absoluto da comédia europeia. No papel de um empresário francês profundamente preconceituoso, forçado a disfarçar-se de rabino ortodoxo para escapar a assassinos políticos, de Funès protagoniza uma farsa delirante que alia comédia pastelão a uma inesperada crítica social sobre identidade e tolerância.

A fase final da sua carreira está representada por “L’aile ou la cuisse” (1976), filme que marcou o regresso do actor ao cinema após um ataque cardíaco. Aqui, de Funès interpreta o director de um prestigiado guia gastronómico, envolvido numa guerra aberta contra um magnata da alimentação industrial. O confronto entre a tradição gourmet e a comida padronizada serve de pretexto para uma sátira vigorosa, onde o corpo cansado do actor ganha uma nova dimensão, sem nunca perder a precisão e o ritmo que fizeram dele uma figura incontornável do riso popular.