A Berlinale já deixou claro há muito tempo que é o festival do tema. A festa começou com uma espécie de primo pobre do “Love Actually”, um filme onde a história circulava em torno de uma mãe, e seus dois filhos, abusados fisicamente pelo pai. O movimento #metoo vem à cabeça, coisa de que Kosslick, o diretor do certame, se gaba de ter trazido à tona antes mesmo da atual discussão.

No segundo dia, as histórias de abusos continuaram. Teve François Ozon dissipando todas as expectativas com o seu aborrecido e austero “Grâce à Dieu”, sobre a história real, passada em Lyon, de um grupo de adultos que resolve processar um padre que abusou deles na infância. Filme problemático, carregado de uma forte “agenda” justiceira, tão empenhado que é em “mostrar a verdade” e vestir a camisa do filme-denúncia. A quantidade de diálogos e de fatos são debitados ao espectador numa velocidade tão avassaladora que mal temos tempo de pensar se nos importamos realmente.

Depois veio o agonizante “System Crasher”, o filme de estreia da alemã Nora Fingscheidt. A system crasher do título é Benni (na verdade, Bernadette, mas a ambiguidade de género da alcunha não deve ser mera coincidência), uma menina de nove anos que a mãe entregou aos serviços sociais alemães, dado o seu temperamento agressivo. O filme abre com Bennie agredindo vários colegas da instituição e só acaba quando ela atira coisas à porta de vidro da cantina até que esta se parte. Em poucos minutos ficamos a saber que ela conseguiu transformar a vida de todos a sua volta num verdadeiro inferno. No desenrolar do enredo, entendemos que o seu comportamento é provavelmente o resultado de um lar disfuncional e do relacionamento amoroso, provavelmente abusivo, que a mãe mantém com um outro indivíduo. No entanto, isso nunca fica esclarecido. Benni tem ainda dois irmãos mais novos do que ela, mas não consegue esconder o ressentimento de ter sido ela a “escolhida” para ser entregue aos serviços sociais.

É então que entra Micha, um assistente social durão (interpretado pelo excelente Albrecht Schuch) que entra na história com a missão de trazer Benni de volta para o “sistema”. Enquanto todos adotam um tom paternalista para lidar com a menina, Micha dirige-se à pequena sempre de igual para igual e voilà! consegue ganhar logo a sua confiança. Apesar da previsibilidade do seu desfecho e do tom histérico que o filme assume desde o início, ele tem os seus momentos.

No entanto, o filme todo é da pequena Helena Zengel, a protagonista sensação que encantou os jornalistas com sua interpretação crua e realista; e muitos já falam até em prémio de melhor interpretação. Exagero? Talvez. De qualquer forma, “System Crasher” não deixa de ser um filme honesto, sem dar grandes voos e que recorre à mesma dinâmica familiar de “Mommy”, do canadiano Xavier Dolan, mas com um resultado, se é que é possível, ainda mais exasperante.

As crias de Dolan

E é curioso notar como o filme de Dolan tem dado cria a um bocado de cópias – ou, vá lá, servido de inspiração para outras aventuras cinematográficas, pelos circuitos dos festivais por aí afora. No ano passado, na secção Generation, teve o insuportável “Cobain”, da holandesa Nanouk Leopold sobre a relação destrutiva entre um adolescente e a sua mãe alcoólatra. Este ano, para além do já citado “System Crasher”, temos na secção paralela Fórum o romeno “Monsters”, longa de estreia de Marius Olteanu. Só que no caso do romeno, com consequências bem mais interessantes.

O momento “Mommy” aqui, na verdade, dá-se no formato de vídeo em que a história é contada, um claustrofóbico 1:1 que lá pelas tantas, se abre por completo e nos deixa (nós e as personagens) voltar a respirar. Soa familiar? Mas a história de “Monsters” é outra. O filme segue as últimas 24 horas de um casal em confronto com a sua própria intimidade. Ela, a mulher, não quer voltar para casa, e por isso paga ao taxista para lhe fazer companhia pela noite inteira; ele, o marido, está no apartamento de um outro homem, num encontro arranjado pelo aplicativo Grindr, mas só pensa em voltar para casa. Quando os dois finalmente se encontram, a tela abre-se num glorioso 16:9 e entendemos que o realizador quer propor-nos uma questão: ainda há espaço para estes corpos coexistirem? Uma interessante descoberta da Roménia que promete fazer carreira no circuito do festival, especialmente entre o público LGBT.