Cinemas portugueses perdem espectadores e cinema nacional acompanha a queda

Sem contar com os anos da pandemia (de 2020 a 2022), os cinemas portugueses registaram em 2025 o pior resultado do século, com 10,9 milhões de espectadores.
Cinema Trindade (Porto) Cinema Trindade (Porto)
Cinema Trindade (Porto)

Ao longo do ano foi possível acompanhar a evolução do mercado cinematográfico português e confirma-se o pior cenário. Em 2025, as salas de cinema em Portugal registaram 10,9 milhões de espectadores, uma quebra de 8,2% face a 2024, segundo dados provisórios divulgados pelo Instituto do Cinema e do Audiovisual (ICA), na sua primeira newsletter mensal do ano.

Estes números revelam que, excluindo os anos da pandemia de covid-19 (2020-2022), 2025 representa o pior resultado do século em termos de afluência às salas de cinema. Desde 2008, o número total de espectadores manteve-se praticamente sempre acima dos 12 milhões anuais, chegando a ultrapassar os 16 milhões em 2010 e os 15,4 em 2019. Mesmo nos piores anos, como 2013, 2023 ou 2024, os totais de espectadores situaram-se sempre acima desse patamar, o que torna esta quebra de idas ao cinema bastante expressiva em 2025.

Se virmos a evolução mensal ao longo do ano passado, apenas cinco meses tiveram uma variação positiva face a 2024: janeiro, abril, maio, junho e setembro. Todos os restantes meses do ano registaram uma diminuição na venda de bilhetes. Segundo o ICA, a receita bruta de bilheteira foi de 70,5 milhões de euros, representando um decréscimo de 3,9%, face ao registado no ano de 2024, que foi de 73,3 milhões de euros.

Segundo o ICA, foram produzidas 93 obras nacionais com o apoio financeiro do ICA, das quais 46 longas-metragens (28 de ficção e 18 documentários) e 47 curtas-metragens (26 de ficção, 13 documentários e 8 de animação), verificando-se, em relação ao ano anterior, menos 3 obras produzidas, ou seja, um decréscimo de 3%.

Na área da exibição cinematográfica, a NOS Lusomundo Cinemas reafirmou a sua posição de líder do setor, com uma quota (receitas brutas de bilheteira) de 68, 5%, seguindo-se a UCI (12%), a NLC–CINEMA CITY (5,6%) e a CINEPLACE (4,8%) que, no seu conjunto, representam 90,9% do mercado nacional .

Em 2025 foram estreadas 406 longas -metragens, 113 das quais com origem nos EUA e 200 de origem europeia . Os filmes norte-americanos foram vistos por 66, 3% do total de espectadores e os europeus por apenas 12,9%.

O filme “Lilo e Stitch” foi o mais visto do ano, registando mais de 660 mil de espectadores e uma receita de bilheteira de 4 milhões de euros. Seguem-se “Um Filme Minecraft”, com 503 mil espectadores, e, em terceiro lugar outra animação, “Zootrópolis 2” (428 mil). Já o filme mais badalado do ano, o fenómeno brasileiro “Ainda Estou Aqui”, somou 385 mil espectadores nas salas portuguesas, ocupando o quarto lugar do ranking. O Top 10 integra ainda blockbusters como “Missão: Impossível – O Ajuste de Contas Final”“F1” ou “Como Treinares o Teu Dragão”.

"On Falling" (2024), de Laura Carreira
“On Falling” (2024), de Laura Carreira

Cinema português sofre duplamente

Se os números globais das salas de cinema já são alarmantes, a situação do cinema português revela-se ainda mais preocupante. Em 2025, os filmes produzidos ou coproduzidos em Portugal registaram 229 mil espectadores, um valor que representa uma queda acentuada face a 2024, ano em que se tinham sido contabilizados 536 mil espectadores. Na prática, o cinema português perdeu mais de metade do seu público num único ano. Esta quebra traduz-se numa quota de mercado de apenas 2,1 %, o valor percentual mais baixo desde 2018, ano em que a quota se situou nos 1,9 %, segundo dados do Instituto do Cinema e do Audiovisual.

A dimensão do problema torna-se ainda mais evidente quando se compara Portugal com outros países europeus. Enquanto a quota de espectadores que viram cinema nacional representa cerca de 40% do público em França, 26% em Itália, 19% em Espanha e 11% na Grécia, em Portugal a quota mantém-se praticamente insignificante, muito abaixo da média europeia.

O cenário torna-se ainda mais preocupante quando se observa o desempenho das estreias nacionais. Dos 58 filmes portugueses estreados no ano passado, 25 não chegaram aos mil espectadores, segundo os dados provisórios do ICA.

O filme português mais visto do ano é a comédia “O Pátio da Saudade”, de Leonel Vieira, com cerca de 69 mil espectadores, ou seja, mais do que os últimos 40 filmes juntos. Segue-se “Lavagante”, de Mário Barroso, com apenas 21 mil, “O Lugar dos Sonhos” com 17 mil, “On Falling” com 13 mil e “Hotel Amor” com 10 mil espectadores. Todos os restantes filmes ficaram abaixo desse valor. Os cinco filmes mais vistos somam cerca de 133 mil espectadores, o que representa cerca de 58% do total de público do cinema português em 2025. Os outros 53 filmes dividiram entre si apenas 42% dos espectadores. A mediana de espectadores é muito baixa, situando-se nos mil espectadores, o que significa que metade dos filmes não chegou sequer a esse patamar.

O ano ficou também marcado por um claro retrocesso no mercado de exibição cinematográfica em Portugal, com o encerramento de quase 50 salas de cinema em multiplex, em cidades como Gaia, Viseu, Maia ou Funchal. O ano de 2026 arrancou com notícias de que há já mais distritos do país sem uma única sala de cinema comercial em funcionamento, como a Guarda ou Viana do Castelo. Esta perda de ecrãs de cinema evidencia uma crise profunda no setor de exibição em multiplex, também sob grande pressão pela diminuição de público, pela falta de oferta diversificada e pela concorrência das plataformas de streaming.

Por outro lado, a Cinemateca Portuguesa teve um recorde de mais de 52 mil espectadores, e as salas independentes, como o Cinema Trindade, tiveram várias sessões esgotadas ao longo do ano. Curiosamente, segundo dados do ICA, foram as distribuidoras independentes que registaram os resultados positivos no ano passado, como a Risi Film, a Leopardo Filmes, a Nitrato Filmes ou a Midas Filmes. Já a NOS Lusomundo Audiovisuais teve uma quebra de espectadores de 13% face a 2024.

Estes números evidenciam um problema de fundo não apenas com a distribuição e a exibição, mas com a relação com o público português. A relação entre o cinema nacional e os portugueses continua “tóxica”. A falta de política públicas na cultura, sobretudo no cinema, a escassez de salas de cinema por todo o território, que ao longo do ano passado foram fechando, a expansão e forte concorrência das plataformas de streaming ajudam certamente a explicar este cenário.

Ranking dos filmes mais vistos em 2025:

  1. Lilo e Stitch – 667.118 espectadores
  2. Um Filme Minecraft – 503.618
  3. Zootrópolis 2 – 428.189
  4. Ainda Estou Aqui – 385.618
  5. F1 – 346.265
  6. Avatar: Fogo e Cinzas – 309.357
  7. Mufasa: O Rei Leão – 299.032
  8. Missão: Impossível – O Ajuste de Contas Final – 298.519
  9. The Conjuring 4: Extrema-Unção – 240.232
  10. Mundo Jurássico – Renascimento – 229.738

Ranking dos filmes portugueses mais vistos em 2025:

  1. O Pátio da Saudade – 69.562 espectadores
  2. Lavagante – 21.794
  3. O Lugar dos Sonhos – 17.931
  4. On Falling – 13.387
  5. Hotel Amor – 10.386
  6. Camarada Cunhal – 5.142
  7. Hanami – 3.735
  8. O Palácio de Cidadãos – 3.651
  9. Banzo – 3.381
  10. Manas – 3.116
Resultados de Bilheteira do Cinema Português
ANO ESPECTADORES QUOTA TOTAIS
2008 404 927 2,5% 15 979 240
2009 426 252 2,7% 15 704 690
2010 306 990 1,9% 16 559 731
2011 104 272 0,7% 15 701 649
2012 734 622 5,3% 13 810 572
2013 431 346 3,4% 12 546 745
2014 578 501 4,8% 12 090 667
2015 946 082 6,5% 14 566 066
2016 353 798 2,4% 14 924 266
2017 408 104 2,6% 15 609 634
2018 285 594 1,9% 14 776 626
2019 700 761 4,5% 15 540 742
2020 133 079 3,5% 3 802 661
2021 164 116 3,0% 5 480 408
2022 536 626 5,6% 9 613 894
2023 332 422 2,7% 12 291 900
2024 536 146 4,5% 11 838 962
2025 229 455 2,1% 10 891 604